Edição 1924 . 28 de setembro de 2005

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Auto-retrato
Tony Bennett

EXCLUSIVO ON-LINE
Algumas pinturas do artista

O maior intérprete da música popular americana tradicional já vendeu 50 milhões de discos e arrancou de Frank Sinatra o seguinte elogio: "Ele é meu ídolo". Bennett, que irá se apresentar em São Paulo e no Rio de Janeiro no fim de outubro, também é pintor e chega a cobrar 40 000 dólares por uma tela. Ele falou ao editor Okky de Souza.

A MARCA REGISTRADA DE SEUS SHOWS É A CANÇÃO I LEFT MY HEART IN SAN FRANCISCO. NÃO É CANSATIVO INTERPRETAR A MESMA MÚSICA, EM TODAS AS APRESENTAÇÕES, HÁ QUARENTA ANOS?
O segredo é nunca cantá-la da mesma forma. Apresento-me com um conjunto de jazz e os músicos são instruídos a sempre executar essa música de forma diferente, com novos improvisos. Se não fosse assim, cansaria.
 

EM SEU NOVO CD, THE ART OF ROMANCE, PELA PRIMEIRA VEZ O SENHOR ASSINA A LETRA DE UMA MÚSICA, ALL FOR YOU. POR QUE NUNCA HAVIA FEITO LETRAS ANTES?
Está brincando? Veja os compositores do meu repertório: Cole Porter, Duke Ellington, George Gershwin, Jerome Kern, Irving Berlin. Não sou louco de competir com eles. Essa foi apenas uma experiência modesta.
 

HÁ ALGUNS ANOS O SENHOR SE APROXIMOU DAS PLATÉIAS JOVENS E CHEGOU A SER ATRAÇÃO CONSTANTE DA MTV. COMO CONSEGUIU ESSA PROEZA?
Desde o início da carreira me comprometi a cantar para a família inteira, e não apenas para parte dela. Numa temporada, nos anos 50, cheguei a fazer sete pequenos shows por dia no teatro Paramount, em Nova York. Sete shows por dia! De manhã cantava para adolescentes, à tarde para adultos e à noite para casais apaixonados. Enquanto os outros cantores procuravam agradar a alguns segmentos do público, eu agradava a todos eles. Todo mundo gosta de boas canções, até o público da MTV.
 

EM RELAÇÃO A SUA CARREIRA, É DIFERENTE SER MÚSICO HOJE?
Cresci numa época em que os artistas levavam dez anos para amadurecer, compartilhavam suas experiências com os colegas e estudavam música seriamente. Hoje os jovens não têm chance de se desenvolver, de aprender seu ofício. Quem manda na carreira deles são os produtores musicais, que simplesmente abandonam o artista quando um disco não faz tanto sucesso quanto se esperava. O resultado é que a maioria absoluta das carreiras dura pouco tempo.
 

O SENHOR TAMBÉM É ARTISTA PLASTICO. PINTA COM FREQÜÊNCIA?
Todo dia, religiosamente. Faço em média duas exposições por ano em galerias, e acabo de receber uma homenagem do Instituto Smithsonian, que escolheu uma de minhas telas para uma exposição a ser montada no Central Park, em Nova York.
 

QUANTO CUSTAM SEUS QUADROS?
Depende do tamanho. Uma tela média costuma ser vendida por 40.000 dólares. Um quadro um pouco menor sai por 12.500. E um pequeno, do tamanho de um cartão-postal, custa 1.500 dólares.
 

O QUE ESTÁ PREPARANDO PARA OS SHOWS NO BRASIL?
Minha especialidade são as músicas americanas da primeira metade do século XX, a que chamamos de great american songbook. É isso que o público brasileiro vai ouvir.
 

NO ANOS 70, O SENHOR SE TORNOU USUÁRIO DE DROGAS E SUA CARREIRA CHEGOU A SER DADA COMO ENCERRADA. COMO SE RECUPEROU?
Fiquei cansado de me esconder pelos cantos, para que ninguém soubesse que eu me drogava. As drogas surgiram nos Estados Unidos numa época em que o país inteiro estava horrorizado com a Guerra do Vietnã, o assassinato do presidente John Kennedy e o do pastor Martin Luther King. De uma hora para outra, o país estava diferente, ressentido. Tornou-se moda consumir drogas. Talentos foram desperdiçados. De qualquer maneira, todo mundo tem bons e maus momentos, sucessos e fracassos. De minha parte, há trinta anos sinto alívio por ir dormir à noite sem estar intoxicado com alguma substância.
 

QUE CONSELHO DARIA A UM CANTOR INICIANTE?
É preciso ter ao mesmo tempo paixão e disciplina. Se for para resumir numa só palavra, o conselho seria: estude.

 
 
 
 
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