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Stephen
Kanitz
A exploração
do capital
"Se
nossos políticos ouvissem mais
nossos milhares de administradores,
saberiam como é fácil explorar viúvas
ricas do mundo e fundos de pensão
de países ricos"
Ilustração Ale Setti
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Para gerar 6 milhões de bons empregos, que custam em média
50.000 reais em máquinas e equipamentos, precisaremos de no mínimo
300 bilhões de reais de poupança interna, porque a poupança
externa não virá tão cedo. O problema do capitalismo
e do socialismo é o mesmo: não dá para investir e
consumir ao mesmo tempo. Ou você consome seu salário ou você
o investe para o futuro. Investir sempre significa sacrifício.
Para gerar poupança interna teremos de apertar ainda mais o cinto,
reduzir ainda mais nosso consumo para poder investir em equipamentos e
geração de emprego para nossos filhos.
Karl Marx
descreve muito bem o enorme sacrifício desumano dos trabalhadores
ingleses, que permitiu à Inglaterra ser a primeira potência
industrial do mundo. Os Estados Unidos foram mais espertos, trilharam
um outro caminho. Eles perceberam que poderiam crescer explorando o capital
dos outros, nesse caso, o capital dos ingleses. Tomaram dinheiro emprestado
da Inglaterra a juros de 3% ao ano, investiram em máquinas e contrataram
milhões de jovens americanos com capital alheio. Ganharam 12% ao
ano, pagaram os 3% devidos, e reinvestiram a diferença. Enquanto
o capitalismo inglês (e o brasileiro) se apropriava da mais-valia
humana, o capitalismo americano se apropriava da mais-valia financeira
dos outros.
Os Estados
Unidos têm a menor taxa de poupança interna do mundo, algo
em torno de 6% do PIB, que não é muito sacrificado, comparado
com os nossos 22%. Karl Marx, que não era formado em administração,
nunca percebeu esse pequeno detalhe, que modifica radicalmente a sua teoria.
Ao banir O Capital do socialismo, Karl Marx perpetuou a exploração
do homem pelo homem, o contrário do que queria. O maior país
"capitalista" do mundo vive de explorar o capital dos outros,
é um "capitalismo" às avessas, justamente o contrário
do que ensinam nas nossas escolas. Se nossos jovens aprendessem a pensar,
não aceitariam tudo que lhes é ensinado. Ao contrário
do que dizem nossos professores, não é o capital americano
que explora o mundo, são os americanos que exploram o capital do
mundo. Eles captam 500 bilhões de dólares ao ano, todo ano
(calcule quantos jovens esse dinheiro empregaria se viesse para o Brasil).
Partidos
de direita atraem capital, partidos de esquerda expulsam capital, e como
nesta eleição só temos candidatos de esquerda, a
poupança do trabalhador inglês, espanhol e italiano já
está voltando rapidamente, razão dessa crise toda. O governo
brasileiro só em 1967 criou a Resolução 63, permitindo
ao setor privado brasileiro finalmente explorar o capital dos outros,
via empréstimos externos. Isso permitiu ao Brasil crescer da 46ª
para a 9ª economia do mundo (o grande erro dos economistas da época
foi assinar empréstimos com juros "flutuantes", que flutuavam
após a assinatura do contrato. Deu no que deu, quebramos).
Com a ostensiva
moratória da dívida externa de 1987, o plebiscito em que
90% dos brasileiros foram a favor da suspensão do pagamento da
dívida, com a nova geração gritando "Fora FMI!",
esses empréstimos de doze anos a 3% de juros ao ano rapidamente
sumiram, e levarão dez anos para voltar. Hoje, só especuladores
que cobram 18% ao ano se arriscam a investir no Brasil com um discurso
desses. Após a moratória de 1987 paramos de crescer, e já
voltamos a ser a 11ª economia mundial, com desemprego crescente,
e se depender de nossos líderes pensantes estamos a caminho da
46ª posição novamente.
Se nossos
políticos ouvissem mais nossos milhares de administradores, saberiam
como é fácil explorar viúvas ricas do mundo e fundos
de pensão de países ricos, que só pedem e só
querem 3% ao ano, contanto que não haja risco de calote. Pelo jeito,
vamos voltar a explorar nossos jovens via arrocho salarial, aumentando
ainda mais os impostos sobre consumo, criando empréstimos compulsórios,
únicas formas de gerar poupança interna. Os jovens americanos,
ingleses e italianos agradecem.
Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)
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