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Edição 1 766 - 28 de agosto de 2002
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Stephen Kanitz

A exploração
do capital

"Se nossos políticos ouvissem mais
nossos milhares de administradores,
saberiam como é fácil explorar viúvas
ricas do mundo e fundos de pensão
de países ricos"


Ilustração Ale Setti


Para gerar 6 milhões de bons empregos, que custam em média 50.000 reais em máquinas e equipamentos, precisaremos de no mínimo 300 bilhões de reais de poupança interna, porque a poupança externa não virá tão cedo. O problema do capitalismo e do socialismo é o mesmo: não dá para investir e consumir ao mesmo tempo. Ou você consome seu salário ou você o investe para o futuro. Investir sempre significa sacrifício. Para gerar poupança interna teremos de apertar ainda mais o cinto, reduzir ainda mais nosso consumo para poder investir em equipamentos e geração de emprego para nossos filhos.

Karl Marx descreve muito bem o enorme sacrifício desumano dos trabalhadores ingleses, que permitiu à Inglaterra ser a primeira potência industrial do mundo. Os Estados Unidos foram mais espertos, trilharam um outro caminho. Eles perceberam que poderiam crescer explorando o capital dos outros, nesse caso, o capital dos ingleses. Tomaram dinheiro emprestado da Inglaterra a juros de 3% ao ano, investiram em máquinas e contrataram milhões de jovens americanos com capital alheio. Ganharam 12% ao ano, pagaram os 3% devidos, e reinvestiram a diferença. Enquanto o capitalismo inglês (e o brasileiro) se apropriava da mais-valia humana, o capitalismo americano se apropriava da mais-valia financeira dos outros.

Os Estados Unidos têm a menor taxa de poupança interna do mundo, algo em torno de 6% do PIB, que não é muito sacrificado, comparado com os nossos 22%. Karl Marx, que não era formado em administração, nunca percebeu esse pequeno detalhe, que modifica radicalmente a sua teoria. Ao banir O Capital do socialismo, Karl Marx perpetuou a exploração do homem pelo homem, o contrário do que queria. O maior país "capitalista" do mundo vive de explorar o capital dos outros, é um "capitalismo" às avessas, justamente o contrário do que ensinam nas nossas escolas. Se nossos jovens aprendessem a pensar, não aceitariam tudo que lhes é ensinado. Ao contrário do que dizem nossos professores, não é o capital americano que explora o mundo, são os americanos que exploram o capital do mundo. Eles captam 500 bilhões de dólares ao ano, todo ano (calcule quantos jovens esse dinheiro empregaria se viesse para o Brasil).

Partidos de direita atraem capital, partidos de esquerda expulsam capital, e como nesta eleição só temos candidatos de esquerda, a poupança do trabalhador inglês, espanhol e italiano já está voltando rapidamente, razão dessa crise toda. O governo brasileiro só em 1967 criou a Resolução 63, permitindo ao setor privado brasileiro finalmente explorar o capital dos outros, via empréstimos externos. Isso permitiu ao Brasil crescer da 46ª para a 9ª economia do mundo (o grande erro dos economistas da época foi assinar empréstimos com juros "flutuantes", que flutuavam após a assinatura do contrato. Deu no que deu, quebramos).

Com a ostensiva moratória da dívida externa de 1987, o plebiscito em que 90% dos brasileiros foram a favor da suspensão do pagamento da dívida, com a nova geração gritando "Fora FMI!", esses empréstimos de doze anos a 3% de juros ao ano rapidamente sumiram, e levarão dez anos para voltar. Hoje, só especuladores que cobram 18% ao ano se arriscam a investir no Brasil com um discurso desses. Após a moratória de 1987 paramos de crescer, e já voltamos a ser a 11ª economia mundial, com desemprego crescente, e se depender de nossos líderes pensantes estamos a caminho da 46ª posição novamente.

Se nossos políticos ouvissem mais nossos milhares de administradores, saberiam como é fácil explorar viúvas ricas do mundo e fundos de pensão de países ricos, que só pedem e só querem 3% ao ano, contanto que não haja risco de calote. Pelo jeito, vamos voltar a explorar nossos jovens via arrocho salarial, aumentando ainda mais os impostos sobre consumo, criando empréstimos compulsórios, únicas formas de gerar poupança interna. Os jovens americanos, ingleses e italianos agradecem.


Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)



 
 
   
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