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Edição 1 766 - 28 de agosto de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

"Presidente, faço questão de pagar"

Histórias da era Vargas, contadas
por uma
arguta testemunha, e a
lição
que delas se extrai

O jovem repórter Villas-Bôas Corrêa um dia foi convidado a visitar o velho urso em sua toca. O urso em questão é o presidente Getúlio Vargas, e a toca, a fazenda de São Borja, para onde, depois de deposto, em 1945, ele se retirara. Estamos no início de 1949. Já começava a esboçar-se o movimento pela volta de Getúlio, pela via das eleições presidenciais do ano seguinte, mas nada ainda de consistente. O semi-esquecimento na solidão dos pampas era, naquele momento, a cota que cabia àquele homem que, até pouco antes, tivera esmagadora presença no país. Getúlio, de bombachas, blusão folgado e chinelos, nem se deu ao trabalho de levantar da rede em que se embalava, na varanda da casa, para cumprimentar os visitantes – Villas-Bôas e outros poucos.

A conversa fluiu, vagabunda, horas a fio. Quando baixou a noite, Getúlio mandou seu fiel escudeiro, Gregório Fortunato – que nesse tempo não passava mesmo de anônimo escudeiro, longe de virar o Anjo Negro de tão trágica memória –, servir uísque. O ex-ditador tomava o seu numa caneca verde, na qual se lia "Amizade e Saúde". A certa altura uma mosca caiu-lhe na bebida. Getúlio pescou-a com o dedo mindinho e continuou na bebericação. E assim foi, por tanto tempo que Villas-Bôas encontrou brecha para dar uma inspecionada no ambiente. A casa era pequena, sala e três quartos. Móveis velhos e tronchos. O quarto de Getúlio, com uma pobre cama patente, lembrou ao repórter um quarto de pensão de estudante. Sobre a cômoda, empilhavam-se uns livros, sem ordem. Todos com dedicatória dos autores e denunciando que mal haviam sido manipulados. Villas-Bôas concluiu: "Desligado do mundo, solitário, o obstinado leitor da mocidade, dono de respeitável biblioteca, dominando o francês e o italiano, não lia nada. Passava os olhos nos jornais que chegavam com atraso".

Essa história está contada num livro que Villas-Bôas Corrêa, hoje talvez o decano da crônica política brasileira, com ricos 54 anos de profissão, acaba de publicar: Conversa com a Memória (Editora Objetiva). Trata-se de trabalho que apresenta a dupla serventia de iluminar a evolução do jornalismo político, no período enfocado, e de reviver, num tom testemunhal, alguns dos episódios mais marcantes da vida nacional. Mas a história da visita do jovem repórter a São Borja não foi aqui reproduzida pelo que contém em si mesma. Ela ganha novo sentido quando cotejada com outra visita ao mesmo local, pouco menos de dois anos depois. Getúlio fora consagrado nas urnas, eleito presidente para o período 1951-1956. Era hora, como dizia a marchinha carnavalesca, de botar o retrato do velho na parede outra vez.

A volta de Villas-Bôas a São Borja deu-se entre a eleição e a posse. Que diferença em relação à visita anterior! "São Borja regurgitava", escreve Villas-Bôas. "Gente por todos os cantos, churrasqueando no galpão, enquanto a cuia de chimarrão passava de boca em boca." Na casa não cabia uma mosca. E Getúlio, no meio da sala, "fruía, gota a gota, o cálice doce da desforra". Era hora de festejar, mas também de tomar certas providências. E uma delas tinha a ver com a forma física do eleito. O Getúlio que se reapresentava ao país era 30 quilos mais gordo do que o que se despedira dele, cinco anos antes. O característico corpo roliço se tinha tornado ainda mais roliço, e reclamava roupa nova. Durante a campanha eleitoral, Getúlio usara um único terno, reformado na cintura. O paletó tinha de ser deixado sempre aberto. Não existia marqueteiro, nesse tempo. Não havia sequer televisão, e por isso dava para ir levando, com roupa velha e apertada. Mas então, para a volta ao poder, urgia renovar o guarda-roupa. Por isso ali se encontrava, trazido do Rio, um alfaiate famoso, o português Azevedo.

À vista de todos, seu Azevedo sacou da fita métrica e pôs-se ao trabalho. Mede, anota, mede, anota. Depois, toca a escolher o pano. Getúlio encomendou três ternos e a casaca da posse, e pediu o orçamento. Estava preocupado, econômico que era. O português fez lá suas contas e anunciou que a despesa ficaria em 32 contos de réis. Trinta e dois contos! Getúlio espantou-se. Não tinha esse dinheiro. Foi quando, do fundo da sala, levantou-se uma voz: "Presidente, faço questão de pagar. É uma gentileza da empresa". Talão de cheques em riste, adiantou-se então um cidadão – "rico e conhecido" empresário, explica Villas-Bôas, mas não o nomeia – e, sem ligar para o constrangimento do homenageado, preencheu o cheque e o entregou, triunfante, ao alfaiate.

O leitor descrente do gênero humano concluirá que, mais ainda do que pelo contraste entre o ambiente da fazenda num momento e noutro, as duas histórias se diferenciam por uma precisa quantia: 32 contos de réis. O que se propõe aqui, no entanto, é outra coisa – ressaltar, em sua plenitude, o gesto do empresário. Bons tempos aqueles em que se mimoseava a autoridade numa sala apinhada, à vista de todos, e em que o mimo podia não ir além do mísero pacote de três ternos e uma casaca.

   
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