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Roberto
Pompeu de Toledo
"Presidente,
faço questão de pagar"
Histórias
da era Vargas, contadas
por uma arguta
testemunha,
e
a
lição que
delas se
extrai
O jovem repórter Villas-Bôas Corrêa um dia foi convidado
a visitar o velho urso em sua toca. O urso em questão é
o presidente Getúlio Vargas, e a toca, a fazenda de São
Borja, para onde, depois de deposto, em 1945, ele se retirara. Estamos
no início de 1949. Já começava a esboçar-se
o movimento pela volta de Getúlio, pela via das eleições
presidenciais do ano seguinte, mas nada ainda de consistente. O semi-esquecimento
na solidão dos pampas era, naquele momento, a cota que cabia àquele
homem que, até pouco antes, tivera esmagadora presença no
país. Getúlio, de bombachas, blusão folgado e chinelos,
nem se deu ao trabalho de levantar da rede em que se embalava, na varanda
da casa, para cumprimentar os visitantes Villas-Bôas e outros
poucos.
A conversa fluiu, vagabunda, horas a fio. Quando baixou a noite, Getúlio
mandou seu fiel escudeiro, Gregório Fortunato que nesse
tempo não passava mesmo de anônimo escudeiro, longe de virar
o Anjo Negro de tão trágica memória , servir
uísque. O ex-ditador tomava o seu numa caneca verde, na qual se
lia "Amizade e Saúde". A certa altura uma mosca caiu-lhe na bebida.
Getúlio pescou-a com o dedo mindinho e continuou na bebericação.
E assim foi, por tanto tempo que Villas-Bôas encontrou brecha para
dar uma inspecionada no ambiente. A casa era pequena, sala e três
quartos. Móveis velhos e tronchos. O quarto de Getúlio,
com uma pobre cama patente, lembrou ao repórter um quarto de pensão
de estudante. Sobre a cômoda, empilhavam-se uns livros, sem ordem.
Todos com dedicatória dos autores e denunciando que mal haviam
sido manipulados. Villas-Bôas concluiu: "Desligado do mundo, solitário,
o obstinado leitor da mocidade, dono de respeitável biblioteca,
dominando o francês e o italiano, não lia nada. Passava os
olhos nos jornais que chegavam com atraso".
Essa história está contada num livro que Villas-Bôas
Corrêa, hoje talvez o decano da crônica política brasileira,
com ricos 54 anos de profissão, acaba de publicar: Conversa
com a Memória (Editora Objetiva). Trata-se de trabalho que
apresenta a dupla serventia de iluminar a evolução do jornalismo
político, no período enfocado, e de reviver, num tom testemunhal,
alguns dos episódios mais marcantes da vida nacional. Mas a história
da visita do jovem repórter a São Borja não foi aqui
reproduzida pelo que contém em si mesma. Ela ganha novo sentido
quando cotejada com outra visita ao mesmo local, pouco menos de dois anos
depois. Getúlio fora consagrado nas urnas, eleito presidente para
o período 1951-1956. Era hora, como dizia a marchinha carnavalesca,
de botar o retrato do velho na parede outra vez.
A volta de Villas-Bôas a São Borja deu-se entre a eleição
e a posse. Que diferença em relação à visita
anterior! "São Borja regurgitava", escreve Villas-Bôas. "Gente
por todos os cantos, churrasqueando no galpão, enquanto a cuia
de chimarrão passava de boca em boca." Na casa não cabia
uma mosca. E Getúlio, no meio da sala, "fruía, gota a gota,
o cálice doce da desforra". Era hora de festejar, mas também
de tomar certas providências. E uma delas tinha a ver com a forma
física do eleito. O Getúlio que se reapresentava ao país
era 30 quilos mais gordo do que o que se despedira dele, cinco anos antes.
O característico corpo roliço se tinha tornado ainda mais
roliço, e reclamava roupa nova. Durante a campanha eleitoral, Getúlio
usara um único terno, reformado na cintura. O paletó tinha
de ser deixado sempre aberto. Não existia marqueteiro, nesse tempo.
Não havia sequer televisão, e por isso dava para ir levando,
com roupa velha e apertada. Mas então, para a volta ao poder, urgia
renovar o guarda-roupa. Por isso ali se encontrava, trazido do Rio, um
alfaiate famoso, o português Azevedo.
À
vista de todos, seu Azevedo sacou da fita métrica e pôs-se
ao trabalho. Mede, anota, mede, anota. Depois, toca a escolher o pano.
Getúlio encomendou três ternos e a casaca da posse, e pediu
o orçamento. Estava preocupado, econômico que era. O português
fez lá suas contas e anunciou que a despesa ficaria em 32 contos
de réis. Trinta e dois contos! Getúlio espantou-se. Não
tinha esse dinheiro. Foi quando, do fundo da sala, levantou-se uma voz:
"Presidente, faço questão de pagar. É uma gentileza
da empresa". Talão de cheques em riste, adiantou-se então
um cidadão "rico e conhecido" empresário, explica
Villas-Bôas, mas não o nomeia e, sem ligar para o
constrangimento do homenageado, preencheu o cheque e o entregou, triunfante,
ao alfaiate.
O leitor descrente do gênero humano concluirá que, mais ainda
do que pelo contraste entre o ambiente da fazenda num momento e noutro,
as duas histórias se diferenciam por uma precisa quantia: 32 contos
de réis. O que se propõe aqui, no entanto, é outra
coisa ressaltar, em sua plenitude, o gesto do empresário.
Bons tempos aqueles em que se mimoseava a autoridade numa sala apinhada,
à vista de todos, e em que o mimo podia não ir além
do mísero pacote de três ternos e uma casaca.
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