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Quando
o
sexo esfria
A falta
de desejo é uma
queixa que só aumenta.
Há muitas maneiras
de combatê-la
Thaís
Oyama

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Sexo, para
muita gente, nunca foi tão bom. Desde que o tema deixou o confinamento
da alcova para virar assunto de consultórios médicos e de
programas de TV, uma legião de insatisfeitos sentiu-se encorajada
a partir em busca de solução para seus males, antes secretamente
remoídos. Mulheres que mal podiam esperar que o parceiro esfriasse
o entusiasmo no leito, para finalmente dormir em paz, descobriram que
o orgasmo também foi feito para elas. Homens atormentados pelo
fantasma da disfunção erétil, ou por causa dela conformados
à aposentadoria precoce, despertaram para alegrias adormecidas
com o surgimento de novos medicamentos. Para um número incalculável
de pessoas, o sexo pós-Freud, pós-revolução
nos costumes e pós-Viagra ficou mais fácil, e melhor.
O problema é que tem gente se descobrindo agora sem vontade de
fazê-lo.
Zeca Rodrigues
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A falta de desejo sexual é a queixa que mais aumenta nos consultórios
de médicos e terapeutas. Vem de mulheres angustiadas porque não
conseguem corresponder ao apetite do parceiro e de homens que se declaram
perplexos ao constatar uma súbita indiferença diante de
tema outrora tão estimulante. São pessoas para as quais
o problema não é necessariamente a dificuldade em "funcionar"
ou em "chegar lá", mas a falta de ânimo até para pensar
no assunto. Estariam homens e mulheres, massacrados pelas tensões
da vida contemporânea, entorpecidos por devastações
hormonais ou até dessensibilizados pela rotina com um mesmo companheiro
ou companheira de leito por anos a fio? Na opinião dos especialistas,
essas coisas têm, sim, influência sobre o desempenho sexual.
Mas por trás de tudo existe outra coisa. Nunca as pessoas prestaram
tanta atenção ao assunto. Além disso, no passado,
tanto homens quanto mulheres se resignavam mais às limitações
impostas pela falta de desejo. Hoje se preocupam com o problema e querem
solução.
Por muito
tempo, o universo das queixas sexuais foi dominado por dois temas: a disfunção
erétil, campeã das reclamações masculinas,
e a dificuldade em atingir o orgasmo, o mais evidente obstáculo
das mulheres. O surgimento do Viagra rearranjou alguns dos elementos desse
quadro. O remédio ajuda oito em cada dez casos de impotência
ligada ao mecanismo de ereção, mas não funciona sem
o motor de arranque, digamos, de todo o processo: o desejo. Homens insatisfeitos
com o desempenho, que creditam seu problema a alguma disfunção
"hidráulica", têm experimentado as drágeas azuis por
contra própria e, decepcionados com os resultados, acabam batendo
à porta dos consultórios. "Chegam dizendo: 'Doutor, acho
que o meu caso é pior do que eu pensava'", conta o psicólogo
e terapeuta sexual Oswaldo Martins Rodrigues Júnior. Em 1991, ele
fez um levantamento com 100 pacientes e constatou que menos de 2% o haviam
procurado por problemas de falta de libido. Em maio deste ano, repetiu
o estudo: de 49 pacientes recentes, 16% acreditavam sofrer de falta de
desejo.
No caso
feminino, o "efeito Viagra" se deu de forma indireta. Mulheres cujo marido
tem problema de ereção muitas vezes se acomodam a uma vida
sexual minguada, quando não inexistente. "Ao perceber que eles
recobram a vitalidade e o entusiasmo pelo sexo, elas tendem a sentir-se
pressionadas a solucionar os próprios problemas", afirma Rodrigues.
A força da educação repressiva, mesmo depois de décadas
de permissividade, também continua a sufocar a libido feminina.
"A maioria das mulheres ainda hesita em explorar sua sexualidade", disse
a VEJA a sexóloga americana Rebecca Chalker (leia
a íntegra da entrevista). "A conseqüência
é que muitas não têm prazer durante o ato sexual ou
se culpam pela falta de libido." Com ou sem sentimento de culpa, quando
vão procurar ajuda já levam o diagnóstico. Segundo
pesquisa realizada pelo Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas
de São Paulo e coordenada pela psiquiatra Carmita Abdo, a falta
de desejo hoje é a principal queixa sexual feminina.
O primeiro
passo para tratá-la é identificar o problema. Todo mundo
em vários momentos da vida passa por períodos de recolhimento
erótico. A linha que separa essa retração previsível
de uma disfunção já instalada pode ser difusa. Problemas
de ereção, por exemplo, são muito mais facilmente
detectáveis. Colocam-se diante dos olhos a partir do momento em
que o corpo insiste em não responder à ordem do cérebro.
Já a falta de desejo, em alguns casos, equivale à perda
de apetite causada por distúrbios alimentares: quem não
sente vontade de se alimentar nem sequer se lembra de que comida existe.
Mulheres se conformam em pensar que talvez sejam "assim mesmo" e homens
se convencem de que estão apenas momentaneamente cansados
quando não transferem a responsabilidade para o lado oposto do
leito conjugal. "É comum acharem que a parceira já não
é mais tão atraente ou que não sabe estimulá-lo",
afirma Carmita Abdo. A monotonia resultante do casamento monogâmico
é um fenômeno praticamente universal e alguns dos
conselhos de especialistas reproduzidos aqui, especialmente no campo da
mudança de hábitos, podem ajudar a combatê-la. Existe
o arrefecimento conjugal de um lado. Esse é um problema circunstancial.
Há também o caso da libido permanentemente encolhida. Esse
já é um distúrbio firmemente instalado.
Zeca Rodrigues
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Na busca de tratamentos, os estudiosos deparam com a impressionante complexidade
do mecanismo da libido. O surgimento do desejo depende de uma intrincada
cooperação entre corpo e mente, que, como num balé
requintado, ora se alternam, ora se solicitam e, eventualmente,
se atrapalham. O pesquisador americano Stephen Levine explica que o desejo
é composto de três ingredientes. Em primeiro lugar, vem o
impulso, aquela força primal e instintiva que brota a partir do
funcionamento orgânico e é tão natural no ser humano
quanto a vontade de comer. Também faz parte do desejo a motivação.
Ela é desencadeada, por exemplo, pela visão de um corpo
atraente ou pela evocação de uma fantasia sexual. Por fim,
soma-se a tudo isso o "querer", a autorização que o cérebro
dá para que impulso e motivação se realizem
esse o campo mais sujeito a interferências psicológicas ou
culturais.
Quando a
dificuldade reside no impulso, o mais provável é que o problema
esteja nos hormônios. Desde a entrada na puberdade, as mulheres
se habituam a constatar a importância do ziguezague hormonal no
corpo, na mente e no humor, inclusive a disposição para
o sexo. A gravidez e o parto lançam-nas num dos pontos baixos dessa
montanha-russa a prolactina, hormônio responsável
pela produção do leite materno, inibe os neurotransmissores
que ativam o desejo no cérebro. Quando se aproximam da menopausa,
a devastação hormonal é violenta. De um lado, diminui
o estrógeno, o hormônio que enlanguesce, irriga e intumesce,
preparando o corpo para o sexo. De outro, mingua a testosterona. Conhecida
como o hormônio do homem, ela também existe no organismo
feminino, em quantidades menores. Em ambos, é diretamente responsável
pelo desejo. Repô-la artificialmente (em cerca de 15% dos homens,
o estoque de testosterona diminui drasticamente a partir dos 40 anos)
pode despertar leões adormecidos ou transformar tímidas
ovelhinhas em tigresas. No entanto, como tudo que envolve o delicado equilíbrio
hormonal, não existem respostas simples. "No caso da mulher, o
médico precisa medir com o máximo de precisão possível
os aspectos positivos e negativos da reposição do estrógeno",
afirma o ginecologista Ramon Luiz Braga Dias Moreira, autor do livro Medicina
e Sexualidade. No que diz respeito ao homem, é a mesma coisa:
a administração de testosterona pode acelerar o crescimento
de tumores não detectados na próstata.
Da mesma
forma que corre atrás da pílula que acabará com a
obesidade, com a calvície e eventualmente até aquela droga
milagrosa que retardará o envelhecimento da pele, a ciência
procura a chave da libido. Para isso, coloca seus microscópios
na bioquímica do cérebro. Atualmente, pelo menos três
grandes laboratórios estão em busca da pílula do
desejo. A grande promessa do momento é a bupropiona, substância
que atua sobre dois "ativadores" do prazer: a dopamina, associada ao impulso
sexual, e a noradrenalina, ligada à motivação. Segundo
uma pesquisa recente apresentada pela Associação Americana
de Psiquiatria, 40% das mulheres tratadas com bupropiona relataram aumento
do número de episódios de excitação e de fantasia
sexual. O médico paulista J.R., de 47 anos, relata uma experiência
animadora com o medicamento, depois de sofrer de depressão e falta
de libido, decorrentes de um devastador trauma familiar. "Passei a usar
a bupropiona há dois meses e o sexo voltou a ser prazeroso. Se
depender da minha vontade, faço todos os dias, a qualquer hora",
diz ele. "Não sei dizer se o remédio, ao melhorar a questão
psicológica, me fez voltar a querer sexo ou se, voltando a ter
sexo, a minha cabeça melhorou. Só sei que meu relacionamento
ganhou muito com isso."
Essa fusão
entre "corpo" e "cabeça" mostra como a natureza do problema é
fugidia. Especialistas estimam que até nove entre cada dez casos
de falta de desejo tenham origem em causas psicológicas ou circunstanciais.
Mesmo pessoas que nunca passaram por situações sexuais traumáticas,
uma das causas freqüentes da baixa no desejo, podem ter dificuldade
em sentir vontade de fazer sexo pelo simples fato de não terem
sido estimuladas para isso. O exemplo se aplica, sobretudo, a mulheres
que, ao contrário dos homens, continuam a ser educadas muito
mais para proteger-se das conseqüências indesejadas do sexo
do que para usufruir dele. Ainda hoje, quando pais se dispõem a
conversar sobre o assunto com as filhas, limitam-se quase sempre à
sua parte desagradável. Leia-se: gravidez indesejada, doenças
venéreas e, mesmo sem dizer claramente, a idéia implícita
de que boas meninas não devem fazer muito sexo. Do lado bom da
coisa, pouco se fala. A deseducação sexual da mulher é
um fato. O que as meninas ouvem sobre o tema em casa ou na escola está
muito abaixo da quantidade de informação que deveriam ter.
Quando se relacionam com homens, costumam deparar com outra barreira:
o desconhecimento que seus parceiros habitualmente têm a respeito
do funcionamento do corpo e da alma da mulher. A partir daí fica
fácil entender por que elas sofrem três vezes mais de falta
de desejo do que eles, como apontou a pesquisa coordenada pela psiquiatra
Carmita Abdo.
Se as mulheres
têm motivos para achar-se incompreendidas, os homens também
alimentam as suas mágoas. Psicólogos lembram que, por trás
de um parceiro sexualmente desaquecido, pode estar, por exemplo, um homem
nocauteado em sua auto-estima. Várias causas levam à baixa
estima que pode arrefecer o desejo masculino. Em primeiro lugar, estão
as razões orgânicas: problemas de ereção, ejaculação
precoce ou preocupações quanto ao tamanho do pênis.
Nesses casos, o desejo existe como potencial. Só esfria por uma
sensação circunstancial de inibição. "É
a falsa falta de desejo", explica o urologista Celso Gromatzky. Cada vez
mais presente hoje em dia está, no entanto, um ingrediente externo
a terrível sensação de fracasso profissional.
Na sociedade contemporânea, o sucesso no trabalho é uma das
medidas fundamentais para determinar o "valor" de um homem e, por
causa disso, o que vai mal no escritório pode se refletir diretamente
na cama. "O órgão sexual é o símbolo do poder
masculino. Como o desempenho profissional também está ligado
ao poder, o mau funcionamento de um pode acabar afetando o outro", explica
a diretora do Instituto Paulista de Sexualidade, a psicóloga Aparecida
Favoreto. Homens pressionados pela competição no trabalho,
estressados por um mau momento profissional, angustiados por um sentimento
de autodesvalorização, são potenciais candidatos
a ter a libido esfriada. "De todos os componentes sexuais, o desejo é
o que mais flutua ao sabor das condições externas", afirma
Aparecida Favoreto.
O que os
terapeutas sexuais podem fazer em relação a isso? Eles respondem:
ajudar o paciente a descobrir motivações para a sua libido,
a detectar insatisfações de diferentes origens, de modo
a não deixar que uma interfira na outra, e a liberar os freios
emocionais que emperram o desejo. Para isso, estimulam o autoconhecimento
e também recomendam exercícios práticos. Um exemplo:
casais com o desejo combalido ficam "proibidos" de praticar sexo por dez
dias. Nesse período, devem apenas trocar carícias. "É
uma forma de fazer com que eles descubram ou recuperem pequenos prazeres,
pequenos estímulos que são a fonte do desejo", explica Aparecida
Favoreto. Outro exercício, bem menos convencional, e geralmente
prescrito de forma mais velada, inclui a busca de profissionais do sexo
ou especialistas em massagens eróticas, contratados para dar "aquela
forcinha" sobretudo a pacientes solteiros para os quais a origem da dificuldade
sexual reside na ansiedade, na insegurança ou na timidez. Terapeutas
acreditam que, livres do compromisso de exibir uma performance retumbante,
eles têm mais chances de ver o desejo fluir de forma natural.
E o que
fazer quando nem hormônios, nem ansiedade, nem traumas passados
são justificativa para o casal deixar de aproveitar as delícias
do sexo e mesmo assim aquele fogo de antigamente foi reduzido a
não mais do que uma brasinha? Na fase da paixão, o desejo
costuma brotar com a mesma facilidade com que fluem as declarações
de amor. Entretidos no prazeroso exercício de descobrir um ao outro,
possuídos pelo feitiço da paixão, esquecem cansaço,
tensões e mau humor: tudo é encanto, surpresa, excitação.
Tudo é motivo para sexo. O problema é que tanto paixão
como desejo têm entre suas molas propulsoras a novidade. E a matéria-prima
do cotidiano é outra: a repetição. É inevitável
que o desejo perca intensidade quando a rotina mais a chegada dos
filhos, o envelhecimento do corpo e as exigências do trabalho
fazem com que a imagem do parceiro na cama acabe se transformando em só
mais um detalhe da paisagem doméstica.
A sexóloga
americana Rebecca Chalker afirma que, biologicamente, o desejo, ao menos
em sua forma mais intensa, não foi feito para durar mais do que
dois anos. "A própria proximidade que a convivência implica
como dormir na mesma cama e permanecer muito tempo junto
diminui a produção dos hormônios sexuais, que funcionariam
com máxima potência apenas para manter os casais juntos o
tempo suficiente para procriar", afirma. A variação de parceiros
seria, portanto, um antídoto para a inapetência sexual? A
resposta é sim pelo menos, como foi cientificamente comprovado,
no que diz respeito aos ratos. Uma experiência de laboratório
conduzida pelo pesquisador americano Donald Dewsbury, da Universidade
da Flórida, mostrou que roedores sexualmente inapetentes após
um período de intenso sexo com suas fêmeas recobram a atividade
quando colocados diante de outra parceira. Não é preciso
ser nenhum gênio da ciência para intuir isso. E para perceber
que o mesmo pode ser afirmado em relação a seres humanos.
Ou talvez o estímulo da novidade seja ainda mais forte nos macacos
que desceram das árvores e hoje andam por aí preocupados
com dezenas de problemas, entre eles o sexo. Ocorre que, como lembra o
psicólogo Ailton Amélio da Silva, o sexo, na nossa sociedade,
não tem somente a função de perpetuar a espécie,
mas também a de manter o vínculo entre os casais, necessário
para a consolidação da família. "Prova disso é
que, ao contrário do que fez com os animais, a natureza dotou a
mulher da capacidade de ter orgasmo e ainda perenizou nela as características
que atraem os homens bichos só fazem sexo quando a fêmea
está no cio", afirma o psicólogo, autor do livro O Mapa
do Amor. Descartada a poligamia como recurso para acender a velha
chama, pelo menos no caso das pessoas que procuram aconselhamento profissional
para melhorar o clima no casamento, existe outra solução?
"Há muitos casais que conseguem manter a atração
sexual por muitos anos ou mesmo durante a vida inteira", afirma Rebecca
Chalker. Em comum, afirmam unanimemente especialistas, eles têm
a capacidade de dar asas à imaginação. "Isso inclui
não só recriar fantasias como procurar estar sempre descobrindo
novas facetas do outro", diz a ginecologista e terapeuta sexual gaúcha
Jaqueline Brendler.
Poucos termômetros
são mais eficientes para medir o grau de satisfação
diante da vida quanto a vontade de fazer sexo. Da mesma maneira, a falta
de apetite sexual também pode indicar uma insatisfação
mais generalizada, uma angústia do ser. "Os problemas dessa ordem,
descontados os diagnosticadamente orgânicos, geralmente são
só um sintoma de algo mais que não está bem", lembra
Aparecida Favoreto. Afinal, desde Freud já se sabe que sexo é
instinto de vida em estado puro. Por causa dele, animais pulam cercas
e seres humanos cometem as mais incríveis bobagens. Em busca dele,
se enfeitam, se exibem, se aperfeiçoam, se engalfinham e, deliciosamente,
se reconciliam. Vão à ruína, descambam no desvario,
descobrem um elo com as correntes vitais mais profundas que nenhuma outra
experiência pode dar. "O sexo é o que mantém o ser
humano vivo e o êxtase, a mais primal das experiências que
o homem pode ter", diz Carmita Abdo. É perfeitamente possível
alguém renunciar ao sexo, de maneira serena e consciente, sem se
tornar um frustrado doentio. Mas deixar, por inação, que
o desejo se dilua na rotina, se esconda na doença ou se perca nos
labirintos do ressentimento é mais do quer perder a chance de saborear
uma das mais prazerosas experiências da vida: é abrir mão
do próprio desejo de viver.
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