| Fale conosco |
| Ajuda |
| Mapa do site |
![]() |
|
|
Crie seu grupo |
O predadorEverardo
Maciel, o mais voraz dos
Thaís Oyama
O secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, é um homem de luxos mínimos. O vinho é um deles. Semanalmente, ele abastece sua adega com duas garrafas de um Malbec argentino ou de um Carmenère de boa safra. Gasta em torno de 50 reais na compra. Desse dinheiro, 29 reais são puro imposto vão para os cofres públicos. O secretário também é um apreciador de jazz, o que faz com que, mensalmente, leve para casa dois ou três CDs. Com isso, desembolsa em média 70 reais 26 dos quais não se destinam aos fabricantes de discos nem à loja que os vende, mas ao caixa dos governos. Proprietário de um Honda, abastece o carro a cada quinze dias, quando saca do bolso 90 reais 30 vão direto para os cofres públicos, e o mesmo destino terão 70% daquilo que ele paga por uma lata de cerveja, 39% do que gasta para comprar um xampu e 26% do que despende para adquirir um pacote de macarrão. Everardo Maciel é um dos brasileiros que, diariamente, vêem escorrer da carteira preciosos reais que, juntados aos dos demais contribuintes, farão com que, ao final do ano, a União reúna algo em torno de 280 bilhões de reais em impostos. Com a diferença de que é sob a guarda de Everardo Maciel que ingressam mais de dois terços dessa bolada, que, somada ao que arrecadam os governos estaduais e municipais, equivale a 34% de toda a riqueza que o país produz. É uma montanha de dinheiro. Hoje, uma família com renda bruta mensal de 3 200 reais, por exemplo, chega a gastar até 960 reais por mês só com impostos. Acrescidas as taxas e outras obrigações, isso significa que ela trabalha quatro meses do ano para pagar o que o governo cobra. E, como
se vê, ele nunca cobrou tanto. De 1994 até o ano passado,
a economia brasileira cresceu 2,4 %, enquanto, no mesmo período,
o total de impostos recolhidos deu um salto de 42%. A diferença
entre os dois números dá tanto a idéia da força
da facada com que se vem sangrando o bolso do contribuinte quanto do tamanho
do sucesso de Everardo Maciel, um pernambucano que há sete anos,
sob chuvas e trovoadas, se mantém firme e inabalável em
seu posto de xerife da Receita.
O apreço
pela ordem não chega a fazer de Maciel um sujeito ranzinza. O secretário
da Receita tem humor, um tanto cáustico, é verdade. Recentemente,
um deputado do Nordeste ligou para contar que sua mãe, uma senhora
de 80 anos, doente e dona de uma única propriedade a pequena
fazenda em que vivia , quase já não conseguia dormir,
tamanha sua angústia com a elevada taxa de imposto territorial
rural que a Receita lhe vinha cobrando. O deputado queria uma ajuda de
Everardo para amaciar a cobrança. O secretário pediu detalhes
da terra, mostrou-se interessado pela saúde da proprietária
e confessou-se mesmo tocado com a preocupação filial do
parlamentar. Quando este já dava por ganha a investida, ouviu a
seguinte frase: "Deputado, é mesmo uma desumanidade deixar que
sua mãe, a esta altura da vida, sofra com esse tipo de preocupação.
Eu, se fosse o senhor, faria o seguinte: pagaria o imposto dela hoje mesmo".
No tempo do primeiro-ministro William Pitt (1759-1806), a Inglaterra destacava-se dos países continentais europeus pelo excesso de impostos que cobrava de seus cidadãos. Isso numa época em que os demais países europeus tinham altas cargas tributárias. Taxava-se quase tudo na Inglaterra. Sempre com tarifas muito altas. O clérigo e ensaísta Sydney Smith (1771-1845) fulminou os impostos do chamado "Sistema Pitt" num artigo publicado pela Edinburg Review. Eis o que escreveu Sydney Smith: "A Inglaterra cobra impostos de tudo que entra pela boca das pessoas, ou de qualquer artigo que lhes cubra as costas ou que proteja seus pés. O Fisco taxa tudo que é agradável de se ver, ouvir, sentir, cheirar ou provar. O governo cobra impostos de tudo que existe sobre a terra e debaixo dela e de tudo que importamos ou que fabricamos aqui mesmo em nosso país. Existem taxas sobre matérias-primas e sobre tudo o mais que a indústria humana consegue produzir a partir delas. Taxam-se tanto os molhos, tão agradáveis ao apetite do homem, quanto os remédios que lhe restauram a saúde. Taxam-se os adornos de pele das vestes do juiz e a corda com que o criminoso é enforcado. Impostos incidem sobre o sal no prato dos pobres e, igualmente, não perdoam os caros temperos da mesa dos ricos. Há impostos até sobre os pregos de latão que selam os caixões de defunto e sobre as grinaldas das noivas. Pagamos impostos sobre camas, poltronas e catres. Os alunos do colégio exibem alegremente seus gorros taxados. Jovens imberbes conduzem com rédeas taxadas suas carruagens taxadas, puxadas por cavalos taxados, que andam sobre ruas taxadas. O inglês moribundo tomando seu remédio sobre o qual ele paga 7% de imposto, usando uma colher taxada em 15% descansa suas costas sobre o lençol de chita que lhe custou 22 centavos só de impostos. Ele vai dar seu último suspiro nos braços de um médico que pagou 100 libras pelo registro profissional. Mal expirou, sua herança será imediatamente taxada entre 2% e 10%. Além da certidão de óbito, vão cobrar da família mais taxas para enterrá-lo na capela-mor. As virtudes do defunto ficarão registradas para a posteridade num pedaço de mármore também taxado. Finalmente, ele se juntará ao Pai Eterno no céu. Só então deixará de pagar impostos." Lembra um pouco o Brasil, desde que se esqueça de que por aqui há um exército de milhões de pessoas que fogem alegremente da maior parte dos impostos: os sonegadores.
Para elevar a arrecadação a patamares nunca antes alcançados, Maciel escarafunchou trincheiras legais e, por meio delas, foi abrindo picadas no fechado matagal da legislação tributária brasileira. Com isso, ganhou o direito de, entre outras coisas, rastrear cartões de crédito cujos gastos se insinuassem incompatíveis com a renda do proprietário e de quebrar o sigilo bancário de contribuintes cujas declarações de renda venham aterrissar na Receita exalando cheiro suspeito. Também foi em sua gestão que se implantou um programa de informatização que mudou, para melhor, a vida do contribuinte: hoje, preencher um formulário de imposto de renda do tipo simplificado não exige mais que dez minutos e entregá-lo leva menos tempo ainda: neste ano, 99,6% das declarações de pessoas físicas do país foram enviadas pela internet, enquanto nos Estados Unidos, no mesmo período, esse número não chegou a 26%. São,
sem dúvida, grandes feitos. E o secretário não sente
o menor constrangimento em alardeá-los. A respeito de sua performance
durante a maxidesvalorização do real, em 1999, por exemplo,
ele costuma fazer a amigos o seguinte comentário singelo: "Naquele
momento, eu salvei o Brasil". Por trás desse arroubo de imodéstia,
economistas como Raul Velloso detectam uma parcela de verdade. "Everardo
pode não ter salvado o Brasil, mas, se não fosse sua atuação
naquela época, o Plano Real teria ido, sem dúvida alguma,
por água abaixo", afirma o especialista em finanças públicas.
Explique-se: em 1999, quando a economia do país viveu um de seus
momentos mais dramáticos, o governo se comprometeu, com o FMI,
a produzir um superávit primário de 3,1% do PIB. Do cumprimento
dessa meta dependia a liberação, pelo Fundo, de um empréstimo
crucial para a estabilidade da economia. O problema é que a meta
era considerada inalcançável pela esmagadora maioria dos
economistas Velloso, inclusive. Razões para a descrença
não faltavam. Com os juros a 45% e o dólar nas alturas,
era certo que o crescimento da atividade econômica era a última
coisa que se poderia esperar naquele momento: recessão significa
baixa arrecadação, e baixa arrecadação significa
déficit, e não superávit. Coube a Maciel descascar
o abacaxi. E ele conseguiu. Munido do mesmo talento estratégico
que o fez trabalhar e sobreviver em governos tão
díspares quanto os de Joaquim Roriz, no Distrito Federal, e Marco
Maciel, em Pernambuco, conseguiu, em menos de dois meses, firmar um acordo
com bancos que haviam entrado com ações contra a Receita
questionando o pagamento de determinados impostos e, mediante um desconto
da dívida ainda não julgada, arrancar do sistema financeiro
algo em torno de 7 bilhões de reais o suficiente para fazer
a balança pender para o lado do governo. "É, sem dúvida,
um dos técnicos mais brilhantes do governo", afirma o economista
Celso Martone. "O problema é que, ao receber uma missão
e cumpri-la a qualquer preço, ele aceita a iniqüidade do sistema",
pondera. O sistema tributário brasileiro, concordam especialistas,
é, entre os existentes no mundo, um dos mais regressivos
o que, em bom português, significa um dos mais injustos do planeta.
Isso porque, além do valor estratosférico das taxas e alíquotas,
a maneira como elas são recolhidas despreza a capacidade de contribuir
do cidadão.
E o que Everardo diz sobre tudo isso? Não diz nada. Ou melhor, diz sempre a mesma coisa: "Minha função é arrecadar. O fator que determina o tamanho dos impostos está numa ponta que eu não controlo, que é a da despesa pública". Com o que ele afirma concordam dez em cada dez economistas: os impostos poderiam ser menores se o governo deixasse de torrar mais do que arrecada. Um raciocínio tão simples de entender como aquele que faz concluir que, se uma dona-de-casa parar de gastar acima do que suporta o orçamento familiar, não terá de ficar pedindo mais dinheiro ao marido todo fim de mês. O problema é que o governo é uma dona-de-casa com despesas fixas gigantescas. Só com os salários e aposentadorias do funcionalismo já lá se vão 250 bilhões de reais 21% de toda a riqueza que o país produz. No caso da dona-de-casa, a solução para o equilíbrio das contas é simples: ela tem de gastar menos e seu marido, de preferência, ganhar mais. No caso do Brasil, é exatamente a mesma coisa. Só que para o país "ganhar mais" precisa crescer, e para crescer precisa estimular investimentos e aumentar suas exportações, "dois movimentos que o atual sistema tributário emperra", afirma o tributarista Ives Gandra Martins. Primeiro, porque, com os impostos nas alturas, suga à exaustão a sociedade que deveria estar produzindo riqueza e, depois, porque inibe a exportação ao impor sobre a produção uma cascata de impostos que, acumulados, tiram a competitividade dos produtos brasileiros no exterior. A reforma tributária, que mofa há anos nas gavetas do Congresso, é o primeiro passo para corrigir essas distorções. E também para diminuir o tamanho do ralo por onde escoam os impostos devidos e sonegados. Diante do que o governo cobra, o Brasil deveria estar nadando em dinheiro. O problema é que, graças ao intrincado labirinto da legislação tributária, que permite a uma infinidade de empresas escapar das garras do Leão, nada menos que 84 bilhões de reais deixam de chegar aos cofres do governo todos os anos, estimam economistas. O segundo passo para fazer os brasileiros pagarem menos imposto, como se sabe, é o governo conseguir cortar despesas. Como essa é a parte mais difícil da história, Gandra Martins sugere que o próximo presidente incumba Maciel dela: "Se ele cortar gastos com a eficiência com que cobra impostos, o Brasil está resolvido", aposta.
|
|
|