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Edição 1 766 - 28 de agosto de 2002
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O papa da certeza

A última viagem à Polônia
de
João Paulo II é mais uma
prova
de seu carisma e de
sua
força moral

Mario Sabino

 
Fotos AP
João Paulo II: "O homem se comporta como se Deus não existisse"


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do papa

A nona viagem de João Paulo II à Polônia, terminada há uma semana, contou com ingredientes capazes de enternecer o mais duro coração ateu. Aos 82 anos, com a saúde fragilizada pelo mal de Parkinson e uma artrose no joelho direito que contribui para dificultar os seus movimentos, o papa visitou o seu país provavelmente pela última vez. O tom de despedida foi uma constante. "Gostaria de vê-los novamente, mas isso agora está nas mãos de Deus. Depende da misericórdia divina", disse ele, emocionadíssimo, aos 2,7 milhões de fiéis que assistiram à missa final, celebrada num parque de Cracóvia, sua cidade natal. João Paulo II aproveitou a ocasião para beatificar três padres e uma freira poloneses, que viveram entre o fim do século XIX e o início do século XX. Elevou, assim, para 1.288 o número de beatos feitos durante o seu pontificado. Para se ter uma idéia do que isso representa, até João Paulo II, o papa com a maior quantidade de beatificações era Pio XI, que fez 380 beatos. Também em canonizações o atual pontífice é recordista: foram até agora 463 santos, contra 86 do segundo colocado, Paulo VI.

O pontificado de João Paulo II é marcado não só por números grandiosos, mas também pela coerência superlativa em matéria doutrinária. Na visita à Polônia, ele voltou a criticar aspectos da modernidade que ferem a vontade divina. "Freqüentemente, o homem se comporta como se Deus não existisse e até mesmo se coloca no lugar de Deus. Há quem queira decidir com manipulações genéticas a vida humana e determinar o limite da morte", disse ele. Seria uma ingenuidade pensar que um papa pudesse afirmar o oposto. Ou seja, apoiar experimentos biológicos radicais ou admitir a eutanásia. Essas questões, para a Igreja Católica, são de um dogmatismo absoluto. Mudar de posição implica uma transubstanciação que significaria ir muito além de aceitar o fato de que a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário. O que chama a atenção em João Paulo II é sua insistência em afirmar com todas as letras os princípios da Igreja, sem medo de parecer retrógrado num mundo moldado por costumes liberais e pela tecnologia. Nesse ponto, ele é uma figura antípoda à de Paulo VI, chamado por alguns vaticanistas de "o papa da dúvida". Em meio ao tiroteio entre o clero progressista e o conservador, Paulo VI não raro se refugiou em fórmulas ambíguas, dando margem a que várias das resoluções do Concílio Vaticano II, concluído em seu pontificado, tivessem mais de uma interpretação.


A missa em Cracóvia, cidade natal do papa: uma massa de 2,7 milhões de pessoas

João Paulo II deverá ser lembrado como "o papa da certeza". O impressionante declínio físico de seus derradeiros anos, que ele enfrenta com coragem e uma ponta de misticismo, servirá para realçar aos pósteros a sua força moral e o seu carisma. Quanto às notas de rodapé da biografia de João Paulo II, uma delas já está reservada a seu secretário, monsenhor Stanislaw Dziwisz, que o acompanha desde o início do pontificado. Suas atribuições e poder vêm crescendo à medida que a saúde do papa piora. Ele tornou-se interlocutor de cardeais influentes e, recentemente, chegou a vetar a indicação de um bispo para um posto-chave. Segundo alguns observadores, a hipótese de renúncia do papa, outra vez afastada por João Paulo II durante sua viagem à Polônia, desagrada especialmente a Dziwisz e a integrantes da Cúria romana que, à sombra do papa doente, também conseguiram ampliar seu raio de ação dentro dos muros do Vaticano.

   
 
   
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