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O
papa da certeza
A
última viagem à
Polônia
de João
Paulo II é mais
uma
prova de
seu carisma e
de
sua força
moral
Mario
Sabino
Fotos AP
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| João
Paulo II: "O homem se comporta como se Deus não existisse" |

Veja também |
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A
nona viagem de João Paulo II à Polônia, terminada
há uma semana, contou com ingredientes capazes de enternecer o
mais duro coração ateu. Aos 82 anos, com a saúde
fragilizada pelo mal de Parkinson e uma artrose no joelho direito que
contribui para dificultar os seus movimentos, o papa visitou o seu país
provavelmente pela última vez. O tom de despedida foi uma constante.
"Gostaria de vê-los novamente, mas isso agora está nas mãos
de Deus. Depende da misericórdia divina", disse ele, emocionadíssimo,
aos 2,7 milhões de fiéis que assistiram à missa final,
celebrada num parque de Cracóvia, sua cidade natal. João
Paulo II aproveitou a ocasião para beatificar três padres
e uma freira poloneses, que viveram entre o fim do século XIX e
o início do século XX. Elevou, assim, para 1.288 o número
de beatos feitos durante o seu pontificado. Para se ter uma idéia
do que isso representa, até João Paulo II, o papa com a
maior quantidade de beatificações era Pio XI, que fez 380
beatos. Também em canonizações o atual pontífice
é recordista: foram até agora 463 santos, contra 86 do segundo
colocado, Paulo VI.
O pontificado de João Paulo II é marcado não só
por números grandiosos, mas também pela coerência
superlativa em matéria doutrinária. Na visita à Polônia,
ele voltou a criticar aspectos da modernidade que ferem a vontade divina.
"Freqüentemente, o homem se comporta como se Deus não existisse
e até mesmo se coloca no lugar de Deus. Há quem queira decidir
com manipulações genéticas a vida humana e determinar
o limite da morte", disse ele. Seria uma ingenuidade pensar que um papa
pudesse afirmar o oposto. Ou seja, apoiar experimentos biológicos
radicais ou admitir a eutanásia. Essas questões, para a
Igreja Católica, são de um dogmatismo absoluto. Mudar de
posição implica uma transubstanciação que
significaria ir muito além de aceitar o fato de que a Terra gira
em torno do Sol, e não o contrário. O que chama a atenção
em João Paulo II é sua insistência em afirmar com
todas as letras os princípios da Igreja, sem medo de parecer retrógrado
num mundo moldado por costumes liberais e pela tecnologia. Nesse ponto,
ele é uma figura antípoda à de Paulo VI, chamado
por alguns vaticanistas de "o papa da dúvida". Em meio ao tiroteio
entre o clero progressista e o conservador, Paulo VI não raro se
refugiou em fórmulas ambíguas, dando margem a que várias
das resoluções do Concílio Vaticano II, concluído
em seu pontificado, tivessem mais de uma interpretação.
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| A
missa em Cracóvia, cidade natal do papa: uma massa de 2,7 milhões
de pessoas |
João
Paulo II deverá ser lembrado como "o papa da certeza". O impressionante
declínio físico de seus derradeiros anos, que ele enfrenta
com coragem e uma ponta de misticismo, servirá para realçar
aos pósteros a sua força moral e o seu carisma. Quanto às
notas de rodapé da biografia de João Paulo II, uma delas
já está reservada a seu secretário, monsenhor Stanislaw
Dziwisz, que o acompanha desde o início do pontificado. Suas atribuições
e poder vêm crescendo à medida que a saúde do papa
piora. Ele tornou-se interlocutor de cardeais influentes e, recentemente,
chegou a vetar a indicação de um bispo para um posto-chave.
Segundo alguns observadores, a hipótese de renúncia do papa,
outra vez afastada por João Paulo II durante sua viagem à
Polônia, desagrada especialmente a Dziwisz e a integrantes da Cúria
romana que, à sombra do papa doente, também conseguiram
ampliar seu raio de ação dentro dos muros do Vaticano.
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