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O Pelourinho vai ganhar vida real e um hotel de charme no Convento do Carmo
Adriana Negreiros
Os berimbaus à venda, as rodas de capoeira, o baticum do Olodum e as baianas vestidas de baianas denunciam que o Pelourinho ganhou um ar de parque temático depois das seis fases de reformas que restauraram parte do casario e das ladeiras do centro histórico de Salvador. Vem aí, para variar, a sétima etapa, com uma nova filosofia. "Os turistas agora poderão ver as pessoas da terra do jeito que elas realmente vivem", promete o presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Bahia, Mário Gordilho, o principal responsável pelo projeto recém-iniciado. Por trás das fachadas deverá haver, ao final, famílias verdadeiras de baianos, em lugar de restaurantes típicos e lojas de artesanato. Os imóveis reformados serão financiados pela Caixa Econômica Federal e oferecidos ao mercado. A prefeitura não concederá alvará a novos pontos comerciais na região, exceto a um estacionamento e a um minishopping, com padaria, farmácia, salão de beleza, banca de jornais e outras comodidades necessárias em área residencial.
Mais de 120 prédios serão reformados, a um custo de 29 milhões de reais. Eles ficam no entorno da parte já restaurada e incluem monumentos como o Seminário de São Dâmaso, um solar do século XVII, e a Igreja e Convento de São Francisco, do século XVIII. O convento foi, na verdade, fundado em 1587, mas ruiu durante a invasão holandesa e começou a ser reerguido em 1686. Belos casarões antigos funcionam hoje como cortiços. Há casos em que mais de oitenta pessoas, de famílias diferentes, compartilham um imóvel com um único banheiro. Nos pontos mais degradados, o território pertence a traficantes. As pessoas que não são donas dos imóveis estão sendo transferidas para novas casas na periferia de Salvador ou recebem indenização. Na maioria dos casos, só se preservará a fachada. Na parte interna, serão construídos apartamentos de um ou dois quartos.
Uma excelente notícia é que a reforma no centro histórico estimulou a recuperação também do tradicional bairro vizinho do Carmo. Ali, o ambiente é doméstico e tranqüilo, com ladeiras íngremes e gente que ainda põe cadeira na calçada para conversar. Alguns casarões abandonados serão restaurados para uso familiar. Uma pérola arquitetônica local, o Convento do Carmo da Congregação Carmelita, também voltará à vida. Vai abrigar o hotel de charme Sofitel Pelourinho Salvador, com 73 apartamentos, alguns montados nas celas originais dos padres carmelitas. O prédio, do século XVII, tem ainda um museu de peças sacras e uma igreja decorada com azulejos portugueses de quatro séculos. Diante dele, os holandeses assinaram a rendição, em 1625. Hoje, as casas vizinhas impedem a visão da Baía de Todos os Santos, mas nos primórdios de sua história ali também funcionava um forte. Daí as paredes de mais de 1 metro de espessura. O projeto de restauração precisou da aprovação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, pois o monumento é tombado desde 1938. A construção pertence ao grupo mineiro Santa Bárbara. Nos anos 70 e 80, a rede Luxor já a explorou como hotel, mas a degradação do entorno fez com que o empreendimento fosse fechado.