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Em lugar de demolir, europeus transformam fábricas velhas em museus e galerias de arte
Ruth de Aquino, de Londres
Uma antiga fábrica de carros da Renault, perto de Paris, terá um destino curioso e nobre: vai abrigar uma das mais belas coleções particulares de arte da França. O desafio está na prancheta do arquiteto japonês Tadao Ando, de 60 anos, o papa do minimalismo, que vive em Osaka e tem em sua biografia os cinco maiores prêmios internacionais de arquitetura. Quem encomendou o projeto é um amigo dileto do presidente Jacques Chirac, o riquíssimo empresário François Pinault, 65 anos, dono da Christie's e da Gucci. Sua fortuna pessoal é estimada em 3 bilhões de dólares. Para construir, até 2005, sua Fundação de Arte Contemporânea, Pinault buscou como cenário uma antiga fábrica, um espaço não convencional, de linhas puras. Esse projeto está longe de ser um caso isolado. A tendência "industrial chic" invade cidades como Londres, Paris, Berlim, Milão, Lisboa e Amsterdã. Fábricas, usinas e galpões desativados vêm sendo reciclados para abrigar museus, galerias de arte, lojas de decoração e design.
O público parece adorar essa mistura de espaços grandiosos e velhuscos com uma arte de vanguarda ou móveis arrojados. Não é só um modismo para descolados, mas uma espécie de arquitetura ética, que preserva a história, além de ser economicamente correta em tempos de crise. A melhor vitrine dessa escola é a Tate Modern, em Londres, um projeto que deu tão certo que serviu de pretexto para salvar do marasmo a margem sul do Rio Tâmisa, hoje um calçadão popular com feiras e cafés. A Tate Modern, uma "filial de arte contemporânea" da famosa Tate Gallery, do outro lado do rio, foi construída no lugar de uma usina dos anos 40, que estava fechada desde 1981. Poucos acreditavam que aquela construção soturna de tijolos escuros, com uma torre desproporcional no meio, pudesse ressuscitar como um museu tão luminoso e nada opressor. Vidros no teto deixam entrar luz natural, as galerias são aconchegantes e de fácil acesso e os terraços e as janelas estratégicas fornecem uma vista estupenda para o rio. Inaugurada em maio de 2000, a Tate Modern foi visitada nos primeiros dois meses por 2 milhões de pessoas, público previsto inicialmente para um ano inteiro. Os arquitetos que ganharam a concorrência, Jacques Herzog e Pierre de Meuron, foram os únicos, entre os seis finalistas, a propor a reutilização de uma área significativa da usina. "Não dá para começar sempre do zero", afirmam.
Pode ser bem mais barato que demolir e reconstruir, mas não é nada simples humanizar espaços tão frios, criados para fins industriais. A nova revolução industrial é feita sobretudo de glamour e fashion. Nada de luta de classes, sujeira, suor, poluição sonora, gases ou vapor. Saem os operários e as máquinas, entram os descolados, as modelos e artistas, as madames. Em Turim, o arquiteto Renzo Piano reabilitou a velha fábrica da Fiat, transformando-a num centro de convenções, escritórios e shopping. Na Áustria, os vienenses lotam a G-town, onde o arquiteto Jean Nouvel reformou um dos quatro reservatórios da companhia de gás, do fim do século XIX, e criou um complexo de lojas, escritórios e entretenimento. O Museu Vitra Design, em Berlim, um dia foi usina elétrica, como a Tate Modern. No lado leste de Berlim, uma antiga fábrica de margarina é hoje uma fundação de artistas famosos, a Kunst-Werke. Na Itália, ao sul de Milão, sob encomenda do estilista Giorgio Armani, o arquiteto japonês Tadao Ando transformou uma fábrica da Nestlé num espaço luxuoso dedicado à moda e ao design. Em Florença, a Manifattura Tabacchi, onde, como o nome diz, se faziam cigarros, é agora um centro de exposições e eventos de arte contemporânea. Há outros numerosos exemplos na Europa. A admiração por Tadao Ando e seu estilo clean (ele é conhecido como o "arquiteto do silêncio" e sai pouco do Japão) reflete um novo tempo. Hoje, a preocupação com meio ambiente, ecologia e preservação garante prestígio, prêmios e contratos milionários às firmas de arquitetura que investem nessa linha. Quando prédios importantes escapam à implosão e ao descaso e são ressuscitados, vencem a cultura e a memória.