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Edição 1 766 - 28 de agosto de 2002
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Um duplo golpe
na honra da França

Boinas importadas e comida
com rótulos
em inglês deixam
franceses em pé de guerra

Ruth de Aquino, de Paris

Os franceses estão em pé de guerra. Não é uma guerra convencional. Acostumados a ditar as regras na moda e na gastronomia, acabam de sofrer duplo golpe na auto-estima: as fábricas de boinas estão falindo e fechando, e uma nova lei européia autoriza rótulos de alimentos em língua estrangeira. Pode parecer, claro, que boina démodée e comida com nome inglês não tenham nada a ver um com o outro. Mas, para os franceses, tudo faz parte de um complô para subjugar o país e suas tradições à globalização desenfreada. O novo surto de nacionalismo começou com a decadência das boinas, um adereço francês tão típico, charmoso e funcional que conquistou historicamente de camponeses a intelectuais, de estudantes franceses a moças americanas, de Jean-Paul Sartre a Pablo Picasso e Che Guevara.

Agora, confirmou-se o que se suspeitava só de olhar a moda de inverno nas ruas. Das quinze fábricas de boinas que existiam há quarenta anos em Oloron-Sainte-Marie, um vilarejo ao pé dos Pirineus, só sobrevive uma, com 85 empregados, e o grosso da produção vai para militares estrangeiros. Bernard Fargues, diretor da derradeira fábrica, culpa a "selvageria da moda" pela crise em seus negócios. No século XX, foi exatamente a moda que sustentou a aura da boina francesa. Dá para entender o porquê de tanto sucesso: ela pode ser usada de tudo que é jeito, para o lado, para cima ou cobrindo toda a cabeça. A original, 100% lã, é quentinha, não amassa, resiste ao vento e não voa da cabeça. Pior que ver a boina sair de moda é perceber que lojas de suvenires em Paris agora vendem, para turistas de primeira viagem (aqueles que compram miniatura da Torre Eiffel), boinas baratinhas fabricadas na China, sem o requinte artesanal francês.

O stress poderia ter ficado por aí. O tempo ajudaria os franceses a pensar na boina como em Brigitte Bardot, com pura nostalgia. Mas a Comissão Européia, que regula os procedimentos dentro da União Européia, resolveu atiçar a ira nacionalista. Decidiu, no início do mês, anular uma lei francesa de 1994 que vetava o uso de língua estrangeira em embalagens de alimentos, mesmo os importados. Para a Comissão Européia, se a embalagem mostrar foto do produto e ele for claramente identificável, as etiquetas podem ser em inglês, sem tradução na língua de Molière. A decisão foi considerada um insulto. A França tem dois meses para acabar com o veto aos rótulos estrangeiros (leia-se "ingleses"). Senão, terá de pagar pesadas multas diárias.

Toda a imprensa reagiu indignada. "Agora teremos de falar inglês para fazer compras", ironizou o diário Le Parisien. O jornal Le Monde, sério em longo editorial que cita até Hamlet, encara o regulamento como "uma vitória das multinacionais, dos anglófonos", e afirma que o "comércio é só um pretexto" para uma disputa bem mais séria. Não adianta a comissão consolar os franceses e dizer que eles também vão beneficiar-se da lei e não precisarão traduzir "foie gras" quando exportarem. Nada poderia agradar mais aos ingleses, que, naturalmente, caíram em cima com gozações. "A nova lei provavelmente levou os acadêmicos franceses a engasgar com seus croissants", zombou o jornal londrino The Guardian.

   
 
   
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