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Um duplo golpe
na honra da França
Boinas
importadas e comida
com rótulos em
inglês deixam
franceses em pé de guerra
Ruth
de Aquino, de Paris
Os
franceses estão em pé de guerra. Não é uma
guerra convencional. Acostumados a ditar as regras na moda e na gastronomia,
acabam de sofrer duplo golpe na auto-estima: as fábricas de boinas
estão falindo e fechando, e uma nova lei européia autoriza
rótulos de alimentos em língua estrangeira. Pode parecer,
claro, que boina démodée e comida com nome inglês
não tenham nada a ver um com o outro. Mas, para os franceses, tudo
faz parte de um complô para subjugar o país e suas tradições
à globalização desenfreada. O novo surto de nacionalismo
começou com a decadência das boinas, um adereço francês
tão típico, charmoso e funcional que conquistou historicamente
de camponeses a intelectuais, de estudantes franceses a moças americanas,
de Jean-Paul Sartre a Pablo Picasso e Che Guevara.
Agora, confirmou-se o que se suspeitava só de olhar a moda de inverno
nas ruas. Das quinze fábricas de boinas que existiam há
quarenta anos em Oloron-Sainte-Marie, um vilarejo ao pé dos Pirineus,
só sobrevive uma, com 85 empregados, e o grosso da produção
vai para militares estrangeiros. Bernard Fargues, diretor da derradeira
fábrica, culpa a "selvageria da moda" pela crise em seus negócios.
No século XX, foi exatamente a moda que sustentou a aura da boina
francesa. Dá para entender o porquê de tanto sucesso: ela
pode ser usada de tudo que é jeito, para o lado, para cima ou cobrindo
toda a cabeça. A original, 100% lã, é quentinha,
não amassa, resiste ao vento e não voa da cabeça.
Pior que ver a boina sair de moda é perceber que lojas de suvenires
em Paris agora vendem, para turistas de primeira viagem (aqueles que compram
miniatura da Torre Eiffel), boinas baratinhas fabricadas na China, sem
o requinte artesanal francês.
O stress poderia ter ficado por aí. O tempo ajudaria os franceses
a pensar na boina como em Brigitte Bardot, com pura nostalgia. Mas a Comissão
Européia, que regula os procedimentos dentro da União Européia,
resolveu atiçar a ira nacionalista. Decidiu, no início do
mês, anular uma lei francesa de 1994 que vetava o uso de língua
estrangeira em embalagens de alimentos, mesmo os importados. Para a Comissão
Européia, se a embalagem mostrar foto do produto e ele for claramente
identificável, as etiquetas podem ser em inglês, sem tradução
na língua de Molière. A decisão foi considerada um
insulto. A França tem dois meses para acabar com o veto aos rótulos
estrangeiros (leia-se "ingleses"). Senão, terá de pagar
pesadas multas diárias.
Toda a imprensa reagiu indignada. "Agora teremos de falar inglês
para fazer compras", ironizou o diário Le Parisien. O jornal
Le Monde, sério em longo editorial que cita até Hamlet,
encara o regulamento como "uma vitória das multinacionais, dos
anglófonos", e afirma que o "comércio é só
um pretexto" para uma disputa bem mais séria. Não adianta
a comissão consolar os franceses e dizer que eles também
vão beneficiar-se da lei e não precisarão traduzir
"foie gras" quando exportarem. Nada poderia agradar mais aos ingleses,
que, naturalmente, caíram em cima com gozações. "A
nova lei provavelmente levou os acadêmicos franceses a engasgar
com seus croissants", zombou o jornal londrino The Guardian.
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