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Edição 1 766 - 28 de agosto de 2002
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O Khmer verde

Comprado por ONGs, reduto
guerrilheiro no Camboja vira
reserva ambiental

 
Fotos Conservation International
Cachoeira e tigre nas florestas do Camboja: preservados por 2 milhões de dólares


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A floresta das Montanhas dos Cardamomos, no Camboja, foi uma exceção no Sudeste Asiático. A mata conservou-se intacta, ao contrário do que ocorre nos países vizinhos, devastados pela exploração madeireira e pela ocupação agrícola. Ninguém ousou tocar na floresta porque lá estavam entrincheirados os guerrilheiros do Khmer Vermelho, expulsos do poder por uma invasão vietnamita em 1979. Nos quatro anos anteriores, chefiado por um alucinado chamado Pol Pot, o Khmer Vermelho tinha massacrado 25% dos cambojanos, o maior genocídio da história recente. Quando os derradeiros guerrilheiros entregaram as armas, em 1999, a perspectiva da floresta era a mesma da vizinhança: a ocupação e a conseqüente devastação. Mas não será assim. Há três semanas, um consórcio de duas ONGs pagou 2,25 milhões de dólares ao governo cambojano para que a floresta seja mantida como está. É uma dinheirama para um país cuja renda per capita é de 250 dólares. O negócio criou a maior reserva florestal do Sudeste Asiático, com 10 000 quilômetros quadrados, mais de oito vezes a área do município do Rio de Janeiro.

A Reserva dos Cardamomos é cortada por cinco rios, com dezenas de cachoeiras. Vivem lá grandes mamíferos, como tigres, elefantes e ursos, e também o crocodilo siamês, que era considerado extinto. Esse conjunto faz do lugar um dos 25 pontos mais importantes de biodiversidade do planeta. A exuberância da Reserva dos Cardamomos contrasta com a miséria dos arredores. Desde o fim da guerra civil, aumentaram a extração de madeira, a caça e as plantações nas franjas da floresta. Peles de urso, de tigre e de crocodilo são vendidas abertamente nas ruas de Phnom Penh, a capital cambojana. "O que estamos fazendo aqui é uma nova forma de ambientalismo", diz Peter Seligmann, presidente da Conservation International, uma das ONGs que pagaram para manter a reserva. Com sede nos Estados Unidos, a instituição administra um fundo de 100 milhões de dólares destinados a projetos desse tipo. Entre as áreas que a Conservation International comprou para preservar está a Fazenda Rio Negro, propriedade de 7.700 hectares no Pantanal brasileiro, adquirida em 1999 por 2 milhões de reais. No mês passado, desembolsou 900.000 dólares para preservar por três décadas um trecho de floresta na Guiana. É o mesmo valor que seria pago por uma madeireira para desmatar a área.

 

   
 
   
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