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Não parecia,
mas
era propaganda
Astros de Hollywood
admitem
que foram pagos
por laboratórios
para falar bem
de remédios em
programas de TV
Em uma entrevista
a um programa de televisão da rede americana NBC, a atriz Lauren
Bacall teceu elogios a um remédio que combate a degeneração
macular. A estrela Kathleen Turner, que sofre de artrite reumatóide,
apareceu em outra emissora alardeando as virtudes de novos medicamentos
"extraordinariamente efetivos" para combater a doença. Aproveitou
para divulgar um site mantido por uma associação de laboratórios,
em que os telespectadores poderiam informar-se mais sobre as drogas. Depois
que seu pai foi vítima de uma grave infecção causada
por quimioterapia, o ator Rob Lowe passou a apregoar os benefícios
de um remédio que atenua os efeitos colaterais do tratamento. Falar
bem de remédios não virou moda em Hollywood. É só
um modo nada ético de fazer propaganda. Descobriu-se que Lauren,
Kathleen e Lowe receberam dinheiro de grandes laboratórios para
citar os nomes dos medicamentos em entrevistas. Assim como o trio, outras
celebridades americanas deram um jeito de divulgar remédios em
programas de televisão. Entre eles estão Martin Sheen, Danny
Glover e Noah Wyle, que interpreta o personagem Dr. Carter na série
E.R.
A revelação
de que a indústria farmacêutica resolvera lançar mão
de expedientes tão questionáveis quanto os da indústria
do tabaco causou mais uma fissura na já combalida imagem do capitalismo
americano. No início deste ano, um relatório divulgado pela
Associação Médica Britânica tornou pública
a história de que, a soldo dos fabricantes de cigarros, produtores
e roteiristas de Hollywood incluíam cenas de fumacê em seus
filmes. Por trás da maracutaia estava a constatação
de que ver um artista fumando é um estímulo a que o espectador
faça o mesmo. A estratégia da indústria de remédios
de usar celebridades em peças publicitárias não representa
uma novidade e está longe de ser um enrosco como princípio.
Pelé, por exemplo, anuncia há décadas um complexo
vitamínico. E faz alguns meses que o ex-jogador estrela a campanha
de um remédio contra impotência. Nenhum problema nisso. O
nó está na propaganda disfarçada de testemunho.
A experiência
mostra que não existe melhor publicidade para uma marca do que
o depoimento espontâneo de uma celebridade. O exemplo mais bem-acabado
é o da atriz Marilyn Monroe. Na década de 50, ela fez disparar
as vendas do Chanel nº 5 ao declarar, numa de suas boutades mais
famosas, que não usava pijama para dormir, mas apenas duas gotas
do perfume francês. Com a frase, Marilyn incendiou a fantasia de
milhões de homens e mulheres ao redor do mundo. Fabricar uma declaração,
no entanto, sem que fique claro que se trata de propaganda, é ludibriar
o consumidor. O caso ganha contornos ainda mais graves quando os produtos
são remédios pesados como os anunciados de maneira sub-reptícia
pelos atores americanos. Trata-se de uma irresponsabilidade sem tamanho
estender tal autoridade a leigos bonitos, simpáticos, talentosos,
mas sem nenhuma formação médica.
Essa forma
condenável de publicidade talvez reflita uma dificuldade enfrentada
pela indústria farmacêutica nos Estados Unidos. Um estudo
recente mostra que os médicos americanos estão cada vez
menos disponíveis aos propagandistas de remédios que batem
à porta dos consultórios. "Quando perceberam que ficou difícil
vender seu peixe diretamente aos médicos, os laboratórios
decidiram estabelecer uma ponte direta com o consumidor", diz o pesquisador
José Gomes Temporão, da Fundação Oswaldo Cruz,
no Rio de Janeiro, autor do livro A Propaganda de Medicamentos e o
Mito da Saúde. Além disso, nos últimos tempos,
para obter o máximo de lucro de suas drogas antes que elas percam
a patente, as companhias vêm desembolsando uma fábula em
publicidade de todos os tipos, como agora se sabe. No ano passado,
foram 2,7 bilhões de dólares só nos Estados Unidos.
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