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1 766 - 28 de agosto de 2002 |
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Fazendeiros,
Fiesp
e Febraban
O candidato do PT faz um desinibido
cortejo
às elites e arranca aplausos
de platéias que antes lhe eram hostis
Adriana
Carvalho e Maurício Lima

Veja também |
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Eleição
faz milagre. O petista Luís Inácio Lula da Silva, líder
das pesquisas na corrida presidencial, está empenhado num desinibido
cortejo à elite brasileira e tem recolhido surpreendentes
aplausos. Numa reunião de economistas de bancos estrangeiros, feita
na semana passada, em São Paulo, simulou-se uma votação
direta entre Lula e Ciro Gomes. O resultado foi 11 a 4 a favor do candidato
petista. Não é por acaso. O Partido dos Trabalhadores tem
aprendido pela experiência que governar é diferente de ser
do contra e disputar a preferência do eleitor não é
a mesma coisa que inflamar uma assembléia de grevistas mal-humorados.
Hoje, o partido responde por cinco governos estaduais Rio de Janeiro,
Amapá, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Acre. Além
disso, administra 190 prefeituras no país, sendo sete capitais,
como São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre. Com a ajuda dos
marqueteiros, o PT está tentando livrar-se da imagem de movimento
radical e, nesta véspera de eleições presidenciais,
pode-se dizer que o barbudo Lula assusta cada vez menos. Não se
sabe se o neocordeiro de agora se transformará em lobo felpudo
caso tome posse na Presidência. Mas a fase de carneiro de Lula vai
cada vez melhor.
Mônica Zarattini/AE
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| O
candidato petista, numa entrevista: tom amistoso e negociador nas
reuniões |
Na semana passada, o petista peregrinou por um território que sempre
lhe foi hostil: a poderosa Federação Brasileira das Associações
de
| O
candidato petista, numa entrevista: tom amistoso e negociador nas
reuniões |
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Na semana passada, o petista peregrinou por um território que sempre
lhe foi hostil: a poderosa Federação Brasileira das Associações
de Bancos (Febraban). Também pudera: em passado não muito
recente, Lula defendia a estatização do sistema financeiro.
Agora, o vento virou. A apresentação de Lula aos banqueiros
durou duas horas, o clima foi amistoso e, ao final do encontro, o petista
arrancou aplausos dos cerca de sessenta presentes. As palmas foram ouvidas
por duas razões. A primeira foi o tom do candidato. Lula trocou
os antigos ataques por uma postura flexível e negociadora. Ouviu
as ponderações dos banqueiros e contornou temas polêmicos.
A segunda foi o conteúdo. O candidato garantiu que não vai
adotar medidas que causem impacto negativo na economia ou no mercado financeiro.
O saldo da visita: a criação de um grupo de trabalho conjunto,
entre petistas e banqueiros, para traçar um diagnóstico
e elaborar propostas para o sistema financeiro. Ao que parece, se houvesse
uma eleição presidencial por ano, o PT acabaria tendo assento
em todas as entidades patronais do país.
"Tivemos
um diálogo franco e aberto. Vimos que nossas diferenças
são de tonalidade", disse Gabriel Jorge Ferreira, presidente da
Febraban. A visita aos banqueiros completa o giro que Lula vem realizando
pelo PIB nacional. Recentemente, com igual desenvoltura, foi bem recebido
na Federação das Indústrias do Estado de São
Paulo, meca do empresariado, e na Bolsa de Valores de São Paulo,
aquele lugar antes satanizado pelo PT como um ninho de "especuladores".
Lula também já falou a uma platéia de fazendeiros
e criadores de gado, que se reuniram num restaurante em São Paulo
para ouvi-lo. Quem diria. Enquanto o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra
(MST) se finge de mudo por todo o país, evitando marchas e invasões
por meses a fio, aparentemente para não prejudicar a nova auréola
anti-radical do aliado Lula, o homem forte do PT participa de uma reunião
com pecuaristas num restaurante de São Paulo. É, eleição
faz milagre mesmo.
Isso tudo não quer dizer que Lula esteja falando só o que
a elite gosta de ouvir. Na Bovespa, ele apresentou opiniões diferentes
das que a platéia normalmente prefere. Numa delas, Raymundo Magliano,
presidente da instituição, perguntou se o PT, caso vença
as eleições presidenciais, apoiaria a proposta de permitir
que os trabalhadores usem parte do FGTS para a compra de ações.
Lula afirmou que é contra a idéia, o que não agradou
à audiência. O fato é que o candidato vem ganhando
espaço num terreno antes intransitável. O eleitorado de
Lula tem crescido a cada pleito, deixando de ficar restrito a alguns nichos.
O candidato do PT sempre teve bom desempenho entre eleitores da classe
média, com alta escolaridade e moradores dos grandes centros urbanos.
Comparando seu eleitorado nas eleições presidenciais de
1994, 1998 e as pesquisas de agora, constata-se que ele está conquistando
novas fatias do eleitorado. Além de crescer nas faixas em que já
era bem votado, o número de simpatizantes de Lula aumentou num
segmento tradicionalmente avesso ao partido. Hoje é possível
encontrar apoio ao petista num círculo que inclui brasileiros de
baixa renda, escassa escolaridade, moradores de municípios pequenos,
com mais de 45 anos e do sexo feminino. Em oito anos, Lula praticamente
dobrou sua penetração nesses segmentos. Segundo números
coletados em 1994 pelo instituto Datafolha, ele tinha 20% de intenção
de voto entre eleitores com até o ensino fundamental. Agora tem
37%. Entre os eleitores economicamente mais modestos, com renda inferior
a cinco salários mínimos, Lula saiu de 22% para 38%.
O surgimento de "neopetistas" explica por que Lula está exibindo
um desempenho acima de sua média histórica, que sempre girou
em torno de 25%. Seu crescimento, aparentemente, decorre da combinação
de nova estética com novo conteúdo. Mais elegante, barba
aparada e cabelos grisalhos, que lhe conferem a aura de uma certa experiência,
Lula tem um discurso bastante diferente do de 1994. Naquele ano, o petista
dizia que o Plano Real era um estelionato eleitoral, pregava o calote
na dívida externa e dizia que a Febraban era um dos setores mais
atrasados da sociedade. Hoje defende o cumprimento de metas de superávit
fiscal, comprometeu-se a respeitar o acordo com o FMI e aboliu palavras
como "ruptura" e "socialismo". Seu partido também sofreu fortes
mudanças internas, com a expulsão das correntes mais radicais
e o predomínio das tendências mais moderadas. A disputa seguida
de eleições estaduais e municipais ajudou a calibrar o tom
petista e a puxá-lo um pouco mais para o centro. A administração
de prefeituras e governos estaduais proporcionou ao PT um choque de realismo
muito salutar. Finalmente, chegou o teste mais importante de todos: a
quarta eleição a ser disputada por Lula para presidir o
Brasil. Ele sabe por que perdeu das vezes anteriores.
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