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Edição 1 766 - 28 de agosto de 2002
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Tasso, Kaká e Scheinkman

O que muda na campanha de Ciro Gomes com a chegada oficial de Tasso Jereissati

 
Jarbas Oliveira/Folha Imagem
Ciro, ao lado de Tasso: interlocução mais cuidadosa no meio empresarial


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Nesta edição
Na TV, tom ameno.
Na rua, guerra
Qual deles está certo?
Fazendeiros, Fiesp e Febraban
Na internet
Notícias diárias sobre as eleições 2002

Dependendo do resultado das urnas, o gesto político praticado na semana passada pelo ex-governador Tasso Jereissati poderá ser classificado como "brilhante", "próprio de um líder com visão de futuro" ou como "precipitado", "típico de uma liderança regional sem visão do conjunto do país". O gesto de Tasso é uma carta com 36 linhas endereçada à direção nacional do PSDB em que o cacique anuncia a decisão de não mais apoiar o candidato José Serra à Presidência, mas sim Ciro Gomes. "Devo ressaltar a admiração e o respeito que tenho pelo senador José Serra, por sua história e determinação", escreveu Tasso. "Porém, como todos sabem, enfrento a contingência do quadro político local. Em minha história de lutas pelo Ceará, sempre tive Ciro Gomes como natural aliado." O texto pode dar a entender que Tasso mudou de lado, mas ninguém pode acusá-lo de ter feito isso. Ele permanece exatamente onde sempre esteve – ao lado de Ciro – desde que seu próprio nome foi rejeitado como candidato tucano à Presidência. Na carta, Tasso avisa que apoiará Ciro no Estado do Ceará, onde é candidato ao Senado Federal e, segundo as pesquisas, tem quase 80% das intenções de voto. Mas essa afirmação deve ser tomada como uma mentirola de campanha. Tasso se firma, desde já, como o grande estrategista da campanha de Ciro.

Na semana passada, o dedo de Tasso estava por trás da fotografia que mostra os jogadores Kaká e Cafu, estrelas da seleção pentacampeã de futebol, e o técnico Luiz Felipe Scolari presenteando Ciro com uma camisa autografada pelos atletas. A cena só foi possível graças ao relacionamento especial entre Tasso e o presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Ricardo Teixeira. Amigos de infância, os dois combinaram que a primeira partida de exibição da seleção após a conquista do penta seria realizada no Ceará. E que, na oportunidade, dariam um jeito de homenagear Ciro, ainda que de forma improvisada e com a participação de poucos jogadores. Para contornar acusações de exploração política do time, descartou-se qualquer manifestação no gramado. Por sugestão de Tasso, optou-se por uma visita feita por Ciro ao hotel em que se hospedaram os jogadores. Foi lá que o presidenciável recebeu a camisa 23, número de Kaká na seleção e número do partido de Ciro, o PPS. No dia seguinte, a imagem apareceu estampada na primeira página dos principais jornais brasileiros e gerou cenas para o programa eleitoral. A festa só não foi perfeita porque o Brasil perdeu a partida de exibição para o Paraguai, por 1 a zero.

A camisa da seleção foi uma ação de Tasso no terreno da propaganda, mas a maior contribuição do ex-governador até agora não tem visibilidade eleitoral mensurável. Trata-se da adesão à campanha de Ciro de José Alexandre Scheinkman. Economista e professor universitário brasileiro de maior projeção profissional no exterior, Scheinkman dá aula na Universidade Princeton, nos Estados Unidos. Antes, dirigiu o departamento de economia da Universidade de Chicago, centro de estudos que mais gerou prêmios Nobel da área em todo o mundo. Scheinkman chefiava o departamento em que batiam ponto alguns monstros renomados, como os prêmios Nobel Robert Lucas Jr, Merton Miller e Gary Becker. Para atraí-lo para a campanha, Tasso pediu ajuda ao empresário Carlos Alberto Sicupira, sócio da GP Investimentos, das Lojas Americanas e da AmBev, quarta maior cervejaria do mundo. Além de todos esses negócios, Sicupira é sócio do irmão de Tasso, Carlos Jereissati, na empresa de telefonia Telemar. A convite de Sicupira, Scheinkman aceitou reunir-se com Ciro. Após um encontro que durou nove horas, o economista acabou concordando em integrar o time.

 
Marisa Cauduro/Fotsite/Valor
Moreira Mariz
Scheinkman e Freire: críticas do velho aliado ao recém-chegado

Fora do Ceará, o ingresso oficial de Tasso na campanha de Ciro possivelmente não vai atrair um único voto que o presidenciável não pudesse conseguir sem essa ajuda. O diferencial de Tasso é seu trânsito entre uma fatia significativa do empresariado, relacionamento que deve ser explorado com mais intensidade de agora em diante. Nos primeiros contatos que já teve, Tasso notou que boa parte dos empresários não se sente segura para votar em Ciro. "Precisamos reforçar a interlocução", disse o ex-governador a Ciro, num encontro que os dois tiveram em Fortaleza na semana passada. De acordo com o relato feito a Ciro por Tasso, no mínimo quatro grandes nomes do mundo dos negócios demonstraram simpatia ao ser sondados em busca de apoio. Pelo menos um deles é do ramo financeiro, mais precisamente um banqueiro. A idéia de Tasso é montar um cinturão de empresários que dê sustentação qualitativa à candidatura. Faz parte do projeto organizar o anúncio da adesão em bloco.

A movimentação de Tasso já produziu um primeiro mal-estar na campanha. Ele partiu do senador Roberto Freire, do PPS, inconformado com a chegada do liberal Scheinkman. "Quero um Estado com capacidade de regular mercado, e ele, um Estado que não tenha nenhuma capacidade de nada", afirmou Freire, que aproveitou uma palestra em universidade para falar que o crescimento de Ciro nas pesquisas "trouxe esses ACMs da vida. Outros gabirus ainda virão". Ciro, que já teve uma conversa com Freire a respeito da necessidade de convívio dos contrários, desistiu. "O problema é que Freire não quer apenas ganhar a eleição. Ele quer escolher com quem vai ganhar", comentou Tasso com um amigo. "Mas Freire é problema do Ciro. Não tenho mais idade para esse tipo de discussão."

Aos 53 anos, Tasso gosta de responsabilizar a política pelo tempo que deixou de estar com os quatro filhos. Mas sua mulher, Renata, rebate dizendo que o marido optou por essa vida e nada o faz parar. Nem mesmo os problemas de saúde que enfrentou. Quando tinha 37 anos, o ex-governador colocou uma ponte de safena e duas de mamária. Há dois anos, teve uma isquemia leve e controla a pressão e a taxa de colesterol com a ajuda de medicamentos. Por ordem do médico, deveria cumprir uma programação diária de ginástica, mas só é capaz de fazê-la de vez em quando. No momento, sua única preocupação diária é tentar aniquilar a ala paulista do PSDB. Sua carta é a primeira fissura visível na estrutura de um partido criado há catorze anos como dissidência do PMDB. O PSDB tinha quatro grandes caciques. Um deles, Fernando Henrique, está deixando a Presidência. O outro, Mário Covas, morreu. Os dois restantes, José Serra e Tasso Jereissati, sempre se trataram de forma respeitosa mas distante. Nunca pertenceram ao mesmo círculo de amizades. Se o projeto Ciro der certo e o presidenciável se eleger, o tucanato paulista, atualmente bem representado, diminuirá muito seu peso relativo na política. No caso de vitória de Serra, pode-se afirmar que tucano, no Ceará, será uma espécie em extinção.

 
 
   
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