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Edição 1 766 - 28 de agosto de 2002
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Qual deles está certo?

Institutos de pesquisa apresentam
dados divergentes e levantam
polêmica sobre seus métodos

Ronaldo França

 
Claudio Rossi
Escritório da empresa Voz Comunicação: levantamento é feito pelo telefone


Veja também
A divergência
Nesta edição
Na TV, tom ameno.
Na rua, guerra
Tasso, Kaká e Scheinkman
Fazendeiros, Fiesp e Febraban
Na internet
Notícias diárias sobre as eleições 2002
Os institutos de pesquisa costumam divergir quanto aos números de cada candidato à Presidência da República, o que não tem nada de anormal, pois cada um trabalha com metodologia própria e com a própria base de amostras. Mas, apesar da divergência de números, os institutos, em geral, detectam a mesma tendência de desempenho dos candidatos – se o presidenciável está estacionado, caindo ou subindo na preferência do eleitorado. Na semana passada, deu-se uma discrepância intrigante. Os três institutos mais importantes do país divulgaram novos levantamentos e, surpreendentemente, não divergiram apenas nos números, mas também na tendência. De acordo com as pesquisas do Ibope e do Datafolha, Ciro Gomes, do PPS, experimentou uma leve queda, ficando de 9 a 10 pontos atrás do petista Luís Inácio Lula da Silva. Já o Vox Populi encontrou outra realidade. Em seu levantamento, Ciro manteve a trajetória de crescimento e já aparece tecnicamente empatado com Lula em primeiro lugar, com diferença de apenas 3 pontos. Como é possível que um instituto informe que um candidato está caindo e outro diga precisamente o contrário?

"O objeto da pesquisa é o mesmo: a intenção de voto do brasileiro. Assim, a diferença de metodologia não pode explicar resultados tão diferentes", afirma o diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino. "Não se pode esquecer que o Vox Populi tem um grande contrato de pesquisa com a campanha de Ciro Gomes", acrescentou ele, fazendo questão de ressaltar que não estava afirmando que seu concorrente manipulara a pesquisa. O sociólogo Marcos Coimbra, diretor do Vox Populi, confirma o contrato com a campanha de Ciro, que, aliás, é público, mas informa que, até o momento, não tem meios de apontar as razões de resultados conflitantes. "Não há como avaliar o resultado de uma pesquisa tomando como base apenas outra pesquisa. Simplesmente não sabemos o que aconteceu", afirma. Como pesquisas são sempre a fotografia de um momento específico, o fato de ser feitas em dias diferentes poderia explicar alguma discrepância de números, ou até mesmo da tendência. Mas, para a agravar a contradição da semana passada, os pesquisadores do Datafolha e do Vox saíram às ruas para entrevistar eleitores exatamente nos mesmos dias, entre 15 e 16 de agosto. "O mais plausível é que esse erro esteja dentro do intervalo de confiança", especula Marcos Coimbra. "Intervalo de confiança" é o nome que se dá à probabilidade estatística de uma pesquisa estar correta. O padrão internacional aceitável é de que se acerte em 95% dos casos. Isso quer dizer que, de cada 100 pesquisas feitas nos mesmos dias, nos mesmos lugares e com número idêntico de pessoas, 95 tendem a apresentar resultados muito semelhantes. Em 5% dos casos, pode ocorrer o que se viu na semana passada.

Entre os principais institutos brasileiros, aplicam-se metodologias diferentes. O Ibope e o Vox Populi, por exemplo, entrevistam os eleitores em casa, e não na rua. Uma das vantagens é que, no caso de uma auditoria, o entrevistado pode ser encontrado em seu endereço. "Acreditamos também que as pessoas respondem com mais rigor quando estão em casa", afirma Ricardo Guedes, diretor-geral do Sensus, o instituto mais jovem entre os maiores, fundado em 1987. O Datafolha trabalha com outra metodologia. Faz entrevistas em pontos predeterminados das ruas das cidades. O instituto tem um banco com 30.000 pontos de coleta de dados e estudos que mostram o perfil mais comum das pessoas que circulam por eles. "A principal vantagem dessa forma de abordagem é o fato de ser cada vez mais difícil o acesso a edifícios e condomínios de classe média", afirma Mauro Paulino, do Datafolha. Com esse método, o Datafolha também ganha em agilidade, pois consegue fazer um alto número de entrevistas num único dia.


Antonio Milena
Pesquisadoras do Datafolha em ação: entrevistas nas ruas


O segredo de uma pesquisa, no entanto, concentra-se muito mais no que os especialistas chamam de "base da amostra". Ou seja: para que uma pesquisa seja um reflexo seguro do pensamento geral da população, o instituto precisa entrevistar um grupo de pessoas – em geral, o número varia entre 2 000 e 3 000 – que componha um microrretrato da sociedade brasileira. Nele, é preciso que o número de mulheres e homens, ricos e pobres, velhos e jovens apareça na mesma proporção da realidade. O problema é que, para montar uma amostra correta, é necessário conhecer o perfil exato da sociedade, e isso nem sempre é uma tarefa simples, devido à histórica carência estatística do Brasil. Os censos elaborados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) são o mais vasto e minucioso retrato do Brasil, mas os levantamentos são realizados de dez em dez anos, período durante o qual o perfil da população sofre alterações significativas. "Temos de nos desdobrar quando a eleição ocorre muito distante do último censo do IBGE", diz Márcia Cavallari, diretora do Ibope.

Nesta eleição, esse problema não incomoda, pois o censo mais recente foi feito em 2000. Como se passaram apenas dois anos, o perfil da população ficou praticamente inalterado. "Nesse aspecto, é o melhor momento para os institutos, se compararmos com as três últimas eleições", afirma Marcos Coimbra, do Vox Populi. Em 1989, quando se realizou a primeira eleição direta do período pós-ditadura, o trabalho foi árduo, pois o último censo disponível datava do início da década. Seus dados, portanto, estavam muito defasados para compor uma base amostral confiável. A estréia de pesquisas eleitorais no Brasil ocorreu em 1945, quando o Ibope, instituto criado havia apenas três anos, quis saber que candidato à Presidência da República estava mais bem cotado entre o eleitorado. A pesquisa, publicada no extinto jornal Diário da Noite, cravou que o brigadeiro Eduardo Gomes, candidato da UDN, venceria. Deu o contrário. O general Eurico Gaspar Dutra, do PSD, saiu vitorioso, com 55% dos votos. O principal erro foi atribuído justamente a uma distorção na base da amostra. O Ibope ouviu um número expressivo de eleitores, 1 000 pessoas, mas se limitou a fazer entrevistas na cidade de São Paulo, sem incluir sondagens em outros pontos do Brasil. O candidato derrotado, realmente, era o mais popular na cidade de São Paulo, mas não o era no resto do país.


Claudio Rossi
Aula para funcionários do Ibope: entrevistas na casa dos eleitores


Na atual eleição, as pesquisas têm estado no centro das atenções, mesmo porque em nenhum outro pleito esse recurso foi tão amplamente utilizado. Na última eleição presidencial, ocorrida em 1998, o Vox Populi, por exemplo, fez vinte rodadas de intenção de voto durante toda a campanha. Nesta eleição, de jans eleitores


Na atual eleição, as pesquisas têm estado no centro das atenções, mesmo porque em nenhum outro pleito esse recurso foi tão amplamente utilizado. Na última eleição presidencial, ocorrida em 1998, o Vox Populi, por exemplo, fez vinte rodadas de intenção de voto durante toda a campanha. Nesta eleição, de janeiro até agora, quando ainda falta mais de um mês para o primeiro turno, o instituto já realizou trinta levantamentos. Além disso, os comitês eleitorais dos principais candidatos têm usado outros recursos de pesquisa para avaliar as tendências do eleitorado. A campanha do tucano José Serra, por exemplo, contratou os serviços da empresa Voz Comunicação Estratégica, que ouve eleitores, diariamente, por telefone. Como nem todo brasileiro tem um aparelho de telefone em casa, a sondagem não serve para aferir o grau de preferência pelo candidato, já que não trabalha com uma amostra fiel do eleitorado em geral, mas é capaz de informar se seu desempenho está agradando ou não. Como se vê, cada mudança de humor do eleitor chega ao bunker das campanhas antes mesmo de ir para as manchetes dos jornais.

 

Com reportagem de Luís Henrique Amaral
 
 
   
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