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Edição 1 766 - 28 de agosto de 2002
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Na TV, tom ameno.
Na rua, guerra

Como os marqueteiros preparam
os candidatos para dar declarações,
até mesmo aquelas que parecem
ser intempestivas

 
Montagem com fotos de Paulo Libert/AE e Antonio Milena


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A corrida presidencial é uma só, mas há duas campanhas eleitorais em andamento. A primeira acontece no horário gratuito da televisão, no qual quatro candidatos a estadista apresentam sua plataforma de governo. Um fala em mais empregos, outro em mais saúde, há o que promete mais casas e o que vai aumentar o salário mínimo. São todas necessidades tão urgentes que alguns eleitores poderiam ficar tentados a votar nos quatro. Dessa forma cada um cuidaria de um projeto e o Brasil avançaria mais rápido do que se escolhesse apenas um. Outra campanha, bem diferente, pode ser conferida nos comícios e nas entrevistas que os postulantes ao Planalto dão todos os dias. Na quinta-feira da semana passada, durante uma caminhada no centro de Fortaleza, o candidato da Frente Trabalhista, Ciro Gomes, puxou o gatilho contra o candidato do governo, José Serra. Ciro disse o seguinte: "Vou dizer quem é ladrão, quem roubou, porque não tenho rabo-de-palha. Nesta munheca aqui ninguém pega. Isso é um aviso para o ministro da dengue, para aquele que está mandando grampear telefone, espionando a vida alheia". De Orlândia, no interior de São Paulo, Serra devolveu o tiro. Disse ele: "Quando Ciro foi governador do Ceará, a dengue e o cólera tiveram os índices mais altos do Ceará. Ele chegou a ser apelidado de governador do cólera. Isso apenas mostra sua instabilidade emocional. Ele parece que tem um mal-entendido com a vida".

 
Valter Pontes/Coperphoto
Ciro, exibido no programa de Serra. A tarja cinza a seu lado esconde a imagem de Antonio Carlos Magalhãe
Valter Pontes/Coperphoto
Ciro, exibido no programa de Serra. A tarja cinza a seu lado esconde a imagem de Antonio Carlos Magalhãe

Os dois tons de debate, o quase beneditino e o das borracharias, não surgiram por acaso. Eles são fruto de uma série de discussões e resultado de algumas pesquisas qualitativas. Na semana passada, após uma reunião com a assessoria, Ciro Gomes definiu que irá manter o tom ameno e propositivo dos programas eleitorais, mas não poupará o candidato tucano nas declarações dadas antes ou mesmo durante os comícios e caminhadas. "Ninguém deve achar que nosso candidato está explodindo, perdendo as estribeiras. A nova ordem é partir para o ataque nas entrevistas", diz um assessor direto de Ciro Gomes. Serra já havia tomado uma decisão semelhante, até porque todos os estudos encomendados por sua equipe mostram que seu crescimento nas pesquisas de intenção de voto depende da queda de Ciro. Não foi por outra razão que, ao final do primeiro programa na TV, dedicado às propostas contra o desemprego, Serra deu um bote. Levou ao ar a imagem de uma entrevista que Ciro Gomes deu numa rádio da Bahia. No programa, o candidato da Frente Trabalhista se irrita com a pergunta feita por um ouvinte e o chama de burro. Para reforçar a denúncia, a equipe de marketing colocou uma moldura eletrônica em torno de Ciro, escondendo assim Antonio Carlos Magalhães, que estava a seu lado. Por ordem da Justiça Eleitoral, a inserção foi retirada do ar e Ciro ganhou direito de resposta.

Percebe-se que as campanhas chegaram a um estágio tal de profissionalismo que nem mesmo as declarações mais fortes podem ser classificadas de intempestivas. O que orienta o comportamento dos principais candidatos, nesta fase da disputa, são as pesquisas qualitativas, encomendadas para todos os fins. As qualitativas feitas a pedido do marqueteiro Duda Mendonça, do PT, mostram que uma das fontes de insegurança dos eleitores em relação a Lula é a possibilidade de, chegando ao Palácio do Planalto, faltar a ele o devido preparo para enfrentar os desafios do cargo. O que Duda fez nos programas? Colocou Lula apresentando sua equipe de assessores em variadas áreas e exibindo a relação de diplomas que cada um conquistou em universidades brasileiras e estrangeiras. As pesquisas pedidas por Einhart Jacome da Paz dizem que Ciro é alguém de pavio curto. Não é por outra razão que o candidato aparece sereno, apresentando suas propostas. Os bruxos de José Serra perceberam nas pesquisas que as pessoas se incomodavam com a possibilidade de votar no tucano e ser obrigadas a encarar mais quatro anos disso-que-aí-está. Não é por outra razão que Serra faz questão de destacar em sua fala os pontos em que seu governo será diferente do atual. Para o primeiro programa, o presidente Fernando Henrique gravou uma fala de apoio a Serra em cinco versões. A seleção foi feita também após serem exibidas todas elas a um grupo de pesquisa.

Lula Marques/Folha Imagem
Fernando Henrique: fala na TV escolhida por um grupo de pesquisa


Em sua primeira semana, a propaganda eleitoral para presidente na TV atingiu picos de audiência superiores a 50 pontos. Os especialistas dizem que a audiência deve cair nas próximas semanas e voltar a subir nos últimos quinze dias, no fim de setembro. Para atrair a atenção das pessoas, os candidatos desenvolvem alguns truques. O mais comum deles é rechear o programa com artistas como forma de entreter o público. Em eleições anteriores, atores e atrizes apareciam no horário dos partidos de oposição, já que o mundo artístico mantém uma relação conflituosa com o poder. Na eleição deste ano, testemunha-se uma cena rara: os artistas aparecem no programa do candidato do governo. O mais famoso deles é o apresentador Gugu Liberato. Há muitos trabalhos feitos sobre a importância desses profissionais na campanha. A conclusão é que eles dificilmente atraem voto. Mas acabam ajudando as pessoas a prestar atenção no que os candidatos têm a dizer. Na guerra pelo voto, qualquer arma é bem-vinda.

 
 
   
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