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Na
TV, tom ameno.
Na rua, guerra
Como os marqueteiros
preparam
os candidatos para dar declarações,
até mesmo aquelas que parecem
ser intempestivas
Montagem com fotos de Paulo Libert/AE e Antonio Milena
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Veja também |
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A
corrida presidencial é uma só, mas há duas campanhas
eleitorais em andamento. A primeira acontece no horário gratuito
da televisão, no qual quatro candidatos a estadista apresentam
sua plataforma de governo. Um fala em mais empregos, outro em mais saúde,
há o que promete mais casas e o que vai aumentar o salário
mínimo. São todas necessidades tão urgentes que alguns
eleitores poderiam ficar tentados a votar nos quatro. Dessa forma cada
um cuidaria de um projeto e o Brasil avançaria mais rápido
do que se escolhesse apenas um. Outra campanha, bem diferente, pode ser
conferida nos comícios e nas entrevistas que os postulantes ao
Planalto dão todos os dias. Na quinta-feira da semana passada,
durante uma caminhada no centro de Fortaleza, o candidato da Frente Trabalhista,
Ciro Gomes, puxou o gatilho contra o candidato do governo, José
Serra. Ciro disse o seguinte: "Vou dizer quem é ladrão,
quem roubou, porque não tenho rabo-de-palha. Nesta munheca aqui
ninguém pega. Isso é um aviso para o ministro da dengue,
para aquele que está mandando grampear telefone, espionando a vida
alheia". De Orlândia, no interior de São Paulo, Serra devolveu
o tiro. Disse ele: "Quando Ciro foi governador do Ceará, a dengue
e o cólera tiveram os índices mais altos do Ceará.
Ele chegou a ser apelidado de governador do cólera. Isso apenas
mostra sua instabilidade emocional. Ele parece que tem um mal-entendido
com a vida".
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Valter Pontes/Coperphoto
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| Ciro,
exibido no programa de Serra. A tarja cinza a seu lado esconde a imagem
de Antonio Carlos Magalhãe |
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Valter Pontes/Coperphoto
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| Ciro,
exibido no programa de Serra. A tarja cinza a seu lado esconde a imagem
de Antonio Carlos Magalhãe |
Os
dois tons de debate, o quase beneditino e o das borracharias, não
surgiram por acaso. Eles são fruto de uma série de discussões
e resultado de algumas pesquisas qualitativas. Na semana passada, após
uma reunião com a assessoria, Ciro Gomes definiu que irá
manter o tom ameno e propositivo dos programas eleitorais, mas não
poupará o candidato tucano nas declarações dadas
antes ou mesmo durante os comícios e caminhadas. "Ninguém
deve achar que nosso candidato está explodindo, perdendo as estribeiras.
A nova ordem é partir para o ataque nas entrevistas", diz um assessor
direto de Ciro Gomes. Serra já havia tomado uma decisão
semelhante, até porque todos os estudos encomendados por sua equipe
mostram que seu crescimento nas pesquisas de intenção de
voto depende da queda de Ciro. Não foi por outra razão que,
ao final do primeiro programa na TV, dedicado às propostas contra
o desemprego, Serra deu um bote. Levou ao ar a imagem de uma entrevista
que Ciro Gomes deu numa rádio da Bahia. No programa, o candidato
da Frente Trabalhista se irrita com a pergunta feita por um ouvinte e
o chama de burro. Para reforçar a denúncia, a equipe de
marketing colocou uma moldura eletrônica em torno de Ciro, escondendo
assim Antonio Carlos Magalhães, que estava a seu lado. Por ordem
da Justiça Eleitoral, a inserção foi retirada do
ar e Ciro ganhou direito de resposta.
Percebe-se que as campanhas chegaram a um estágio tal de profissionalismo
que nem mesmo as declarações mais fortes podem ser classificadas
de intempestivas. O que orienta o comportamento dos principais candidatos,
nesta fase da disputa, são as pesquisas qualitativas, encomendadas
para todos os fins. As qualitativas feitas a pedido do marqueteiro Duda
Mendonça, do PT, mostram que uma das fontes de insegurança
dos eleitores em relação a Lula é a possibilidade
de, chegando ao Palácio do Planalto, faltar a ele o devido preparo
para enfrentar os desafios do cargo. O que Duda fez nos programas? Colocou
Lula apresentando sua equipe de assessores em variadas áreas e
exibindo a relação de diplomas que cada um conquistou em
universidades brasileiras e estrangeiras. As pesquisas pedidas por Einhart
Jacome da Paz dizem que Ciro é alguém de pavio curto. Não
é por outra razão que o candidato aparece sereno, apresentando
suas propostas. Os bruxos de José Serra perceberam nas pesquisas
que as pessoas se incomodavam com a possibilidade de votar no tucano e
ser obrigadas a encarar mais quatro anos disso-que-aí-está.
Não é por outra razão que Serra faz questão
de destacar em sua fala os pontos em que seu governo será diferente
do atual. Para o primeiro programa, o presidente Fernando Henrique gravou
uma fala de apoio a Serra em cinco versões. A seleção
foi feita também após serem exibidas todas elas a um grupo
de pesquisa.
Lula Marques/Folha Imagem
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| Fernando
Henrique: fala na TV escolhida por um grupo de pesquisa
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Em sua primeira semana, a propaganda eleitoral para presidente na TV atingiu
picos de audiência superiores a 50 pontos. Os especialistas dizem
que a audiência deve cair nas próximas semanas e voltar a
subir nos últimos quinze dias, no fim de setembro. Para atrair
a atenção das pessoas, os candidatos desenvolvem alguns
truques. O mais comum deles é rechear o programa com artistas como
forma de entreter o público. Em eleições anteriores,
atores e atrizes apareciam no horário dos partidos de oposição,
já que o mundo artístico mantém uma relação
conflituosa com o poder. Na eleição deste ano, testemunha-se
uma cena rara: os artistas aparecem no programa do candidato do governo.
O mais famoso deles é o apresentador Gugu Liberato. Há muitos
trabalhos feitos sobre a importância desses profissionais na campanha.
A conclusão é que eles dificilmente atraem voto. Mas acabam
ajudando as pessoas a prestar atenção no que os candidatos
têm a dizer. Na guerra pelo voto, qualquer arma é bem-vinda.
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