| Fale conosco |
| Ajuda |
| Mapa do site |
![]() |
|
Crie seu grupo |
"Um
bilhão
|
AFP![]() |
"Sentimos pena dos famintos mas menosprezamos os obesos. Achamos que eles comem demais porque são fracos" |
|
O professor britânico Philip James tem 64 anos, 1,73 metro de altura e pesa 73 quilos. Ainda assim, luta diariamente contra a obesidade. Não que tenha problemas para afivelar o cinto. Como presidente da International Obesity Task Force (IOTF), organização criada por ele em 1996, seu trabalho é chamar a atenção para o que aponta como um dos maiores problemas do planeta atualmente: uma epidemia de obesidade que há vinte anos não pára de se espalhar. Formado em medicina, James, ironicamente, começou a carreira estudando o oposto de sua atual obsessão: a subnutrição. Foi diretor do Rowett Research Institute, na Escócia, a maior organização de ciências nutricionais do Ocidente, escreveu estudos sobre obesidade para o Royal College of Physicians de Londres e desenvolveu um programa de combate à obesidade para o governo da Inglaterra. Autor de catorze livros, James assessora governos na criação de leis de nutrição e presidiu a comissão da ONU sobre os desafios nutricionais no século XXI. Líder em pesquisas sobre a influência da obesidade nas doenças, ele prepara um documento, a ser divulgado no ano que vem pela Organização Mundial de Saúde, sobre dieta e prevenção de doenças crônicas. Mas nos últimos dois anos tem freqüentado mais aeroportos que o meio acadêmico viaja pelo mundo verificando as causas e os danos da obesidade em diversos países, além de auxiliar especialistas internacionais que buscam uma saída de emergência para o problema. Seu próximo desembarque será em São Paulo, onde, de 24 a 29 de agosto, participa do IX Congresso Internacional de Obesidade. Antes de viajar, James conversou com VEJA por telefone de sua casa, em Londres.
Veja Em 1975, o Brasil tinha de dois a quatro casos de subnutrição
para cada caso de obesidade. Em 1996, virou: eram dois casos de obesidade
para um de fome. A "globesidade", como o senhor chama, é um problema
mais sério que a fome?
James
Existem hoje no mundo 800 milhões de pessoas subnutridas e 1 bilhão
de obesos. Isso é assustador. Há vinte anos assistimos a
uma epidemia de proporções nunca vistas na história
da evolução da humanidade. Não há dúvida
de que a fome requer grande atenção política, sobretudo
em partes da África, da Índia e da Ásia, onde há
imensa pobreza, pessoas abaixo do peso e mortalidade infantil. Mas agora
estamos em uma nova fase, a chamada "transição nutricional",
que reúne fome e obesidade em um mesmo país, até
em uma mesma cidade. E o pior é que os dois problemas são
encarados de forma diferente. Dos famintos sentimos pena, nos comovemos
com seu desespero. Dos obesos sentimos menosprezo, achamos que comem demais
porque são fracos.
Veja Obesidade é problema maior nos países
ricos?
James
Por enquanto, sim, mas isso está mudando. Na prática, as
pessoas pobres são mais obesas que as ricas, principalmente na
América Latina. As pessoas de baixa renda não têm
chance de escolher uma dieta de boa qualidade e de se exercitar fisicamente.
Sua alimentação é carregada de gordura e açúcar.
Quem cresce lutando contra a fome acaba achando que o mais importante
é simplesmente comer. Essas pessoas associam a gordura com riqueza,
sonham em ingerir enormes quantidades de carne. Até os programas
de governo para erradicar a fome são afetados por essa visão.
Não adianta alimentar as pessoas se a comida não for de
boa qualidade.
Veja Nos Estados Unidos, onde problemas decorrentes da obesidade
matam 300.000 pessoas por ano, a previdência social precisa destinar
a cada mês quase 80 milhões de dólares para o sustento
de 137.000 obesos incapacitados para o trabalho. Qual o peso financeiro
dessa doença para os governos?
James
Os
gastos são incríveis. O governo americano acaba de revelar
que o custo anual, direto e indireto, da obesidade no país é
de 117 bilhões de dólares, mais do que o das doenças
relacionadas ao tabaco. E as cifras aumentam a cada ano. Em geral, os
custos diretos do problema em diversos países variam de 2% a 8%
do orçamento para a área da saúde. Isso sem contar
os obesos que pararam de trabalhar, tornaram-se menos eficientes no trabalho
ou morreram cedo, em plena produtividade profissional. O risco de morte
prematura dobra para as pessoas obesas.
Veja Das doenças relacionadas com a obesidade, qual
a mais grave?
James
O diabetes é uma das mais terríveis. Por causa da obesidade,
pela primeira vez adolescentes estão sendo diagnosticados com uma
de suas versões mais sérias, o diabetes tipo 2. Especialistas
em pediatria do mundo todo têm me procurado em busca de soluções.
Há algumas semanas, visitei uma clínica em Cingapura que
há cinco anos tinha quinze casos pediátricos de diabetes
tipo 2 e hoje tem sessenta. São crianças condenadas à
cegueira, a problemas cardíacos e hepáticos seu fígado
provavelmente vai falhar por volta dos 30 anos. E a expansão do
diabetes por causa da obesidade tem ocorrido principalmente na América
Latina e na Ásia.
Veja Como se deve começar a combater a epidemia de
obesidade?
James
Até mesmo o governo dos EUA, tido como o mais conservador desde
a II Guerra Mundial, acha absurdo que as escolas tenham máquinas
de vender refrigerantes, chocolates e biscoitos e, ao mesmo tempo, tentem
passar noções de boa alimentação. Quando Tony
Blair (o primeiro-ministro inglês) tomou posse, entrei em
contato com seus encarregados de saúde pública e educação
e mostrei que a alimentação das crianças abaixo de
5 anos na Grã-Bretanha é terrível e que elas costumam
passar o tempo livre trancadas em casa, na frente da televisão.
E televisão significa, em última instância, falta
de exercício físico e apelo a uma alimentação
errada.
Veja Como reverter esse quadro?
James
Cabe a nós, individualmente ou por meio de órgãos
independentes, documentar e analisar o problema. Para os governos, é
difícil agir contra a indústria alimentícia. Não
é como as fábricas de cigarros, às quais se pode
acusar de fazer mal à população e pronto. Todos nós
precisamos de comida a questão é comer bem. E isso
raramente acontece. Os alimentos do tipo fast food estão cada vez
mais baratos. O preço mundial do açúcar, da gordura,
dos óleos é muito baixo. Em conseqüência, seu
consumo só faz aumentar, sobretudo nas camadas de mais baixa renda.
Veja Recentemente, um nova-iorquino de 125 quilos processou
quatro redes de restaurantes fast food, alegando que, até ter o
segundo ataque cardíaco, não havia se dado conta de que
uma dieta à base de hambúrguer, milk-shake e batatas fritas
não era saudável. Esse processo faz sentido?
James
Essas redes são, sim, parte do problema. Processá-las é
a maneira tipicamente americana de lidar com a questão, mas também
significa que as pessoas estão realmente começando a dar
atenção ao assunto. Os restaurantes fast food manipulam
as crianças e os adultos. Eu não aconselho ninguém
a comprar o que eles vendem.
Veja Até que ponto a genética é responsável
pela obesidade?
James
Apenas uma pequena proporção de casos envolve diretamente
os genes. Isso fica claro na rapidez com que o problema da obesidade explodiu.
Não é possível que os genes de todo mundo tenham
mudado. O que mudou foi o ambiente que nos cerca.
Veja Há alguns anos, o Brasil introduziu a obrigatoriedade
de etiquetas indicando os valores nutricionais nas embalagens de produtos
alimentícios. Isso torna as pessoas mais conscientes do que comem?
James
Essas etiquetas são inúteis. O máximo que se consegue
é comparar diferentes etiquetas no mesmo produto e ver qual tem
menos sal e gordura. Há doze anos, a Organização
Mundial de Saúde desenvolveu um sistema de etiqueta por meio do
qual seríamos efetivamente capazes de diferenciar as comidas boas
das ruins. Nenhum governo teve a coragem de implantá-lo. Quando
os nutricionistas dizem que não existe comida boa e ruim, e sim
boas e más dietas, estão fazendo o jogo da indústria
alimentícia. Essa história de que a pessoa pode, sim, comer
aquele chocolate ou tomar aquele refrigerante, desde que saiba balancear
o consumo, é apenas uma maneira de deixar a indústria agir
como quiser.
Veja Sempre se diz que, quando enfrentam problemas, a tendência
das pessoas é comer mais. Qual a relação entre psicologia
e obesidade?
James
É verdade que algumas pessoas descontam os problemas na comida.
Mas dizer que obesos são indivíduos perturbados psicologicamente
é ridículo. Na maioria das sociedades, ser gordo é
visto como uma coisa feia. Além disso, ao engordar muito as pessoas
ficam sem ar, sentem dor nas costas, os joelhos dão trabalho. As
mulheres são as maiores vítimas: a sociedade impõe
que, para serem sexy, têm de ser magras como as modelos de revista,
que, por sua vez, para chegar ao peso-pluma, normalmente fumam e usam
drogas para não sentir fome. Mas os homens também sofrem.
Em diversos países, policiais, bombeiros, militares e pilotos têm
de mudar de profissão se engordam muito.
Veja Como a obesidade afeta a vida sexual das pessoas?
James
O tema é interessante e ainda não foi muito explorado. Quando
mulheres se tornam obesas, seu equilíbrio hormonal muda drasticamente.
As células produzem menos hormônios sexuais femininos, o
ciclo menstrual fica irregular e algumas se tornam estéreis. Já
a atividade sexual, propriamente, está mais ligada a aspectos culturais.
Na Nigéria, gordura simboliza riqueza e saúde o que,
para eles, é sexualmente muito atraente. Na Inglaterra, por outro
lado, quando uma mulher obesa perde muitos quilos, sua personalidade muda:
ela fica mais cheia de energia e aumenta a atividade sexual.
Veja Faz trinta anos que o doutor Robert Atkins é
criticado pela comunidade médica por pregar que as pessoas podem
comer gordura e mesmo assim emagrecer. Há poucos meses, Walter
Willett, presidente do Departamento de Nutrição da Escola
de Saúde Pública da Universidade Harvard, divulgou uma pesquisa
mostrando que a dieta pobre em gordura não é necessariamente
mais saudável. O que o senhor acha?
James
Trata-se de um assunto muito sensível. Willett diz que o problema
não é a gordura, e sim o carboidrato ou melhor, o
refinamento do carboidrato, processo em que o setor alimentício
remove todas as fibras dos alimentos. No começo deste ano, revisamos
a questão na Organização Mundial de Saúde,
analisamos o trabalho de Willett e concluímos que a dieta de Atkins
é um truque inteligente: ao cortar uma série de alimentos,
faz as pessoas efetivamente comer menos e conseqüentemente emagrecer.
Mas a quantidade de gordura que ingerem pode levar a problemas cardíacos
e diabetes. O único objetivo de Atkins é a perda de peso.
Ele ganhou rios de dinheiro e as pessoas perderam peso. A questão
é: como viver muito tempo, de maneira saudável? Resposta:
mantendo uma dieta rica em carboidratos que não contenham açúcar,
bastante grãos, cereais, frutas e vegetais e pobre em sal.
Veja Qual a sua opinião sobre os remédios para
emagrecer?
James
Não resolvem. Nossa mente é programada para nãl, Helvetica, sans-serif" size="2" color="#000000">
Veja Qual a sua opinião sobre os remédios para
emagrecer?
James
Não resolvem. Nossa mente é programada para não morrermos
de fome, não para combatermos a obesidade. Quando estamos acima
do peso e tentamos emagrecer, ela diz: "Espere aí, estou gostando
desses 10 quilos extras de gordura". Já, ao emagrecer rápido,
a mente recebe um sinal como se a pessoa estivesse literalmente morrendo
de fome. Por isso, sempre repito: é mais importante prevenir o
problema que deixar chegar a esse ponto.
Veja Uma busca pela palavra "dieta" no site Amazon.com resulta
em quase 3.000 livros. Para "perda de peso" aparecem mais de 1.600 publicações.
Esses livros adiantam alguma coisa? Ou as pessoas costumam lê-los
saboreando um chocolate?
James
A experiência de ser magro é individual. Não adianta
emagrecer e depois voltar para os antigos hábitos. Educação
nutricional não é resposta para o problema. Muito mais fundamentais
são as mensagens passadas pela televisão e a aplicação
de regras de boa alimentação nas escolas.
Veja Que medidas já foram adotadas que podem servir
de exemplo para todos?
James
Na
Finlândia, o custo dos legumes nos restaurantes está incluído
na refeição e não se paga extra por eles. Saladas
são à vontade e grátis. Com isso, o consumo de hortaliças
no país triplicou. O programa finlandês de melhora nutricional
é o mais eficaz já visto no mundo.
Veja Qual a melhor receita preparada por sua esposa?
James
Um prato de peixe acompanhado de quatro tipos de legume. Aliás,
como dez porções de legumes e verduras por dia. Minha dieta
tem apenas 20% de gordura, quase não como açúcar,
raríssimas vezes usamos alimentos prontos. Nós mesmos cozinhamos.
Na minha casa, onde moramos eu e minha mulher, 1 litro de óleo
dura nove meses; meio quilo de açúcar, quase um ano. Nem
por isso assustamos as pessoas sempre temos visitas para o jantar.
|
|