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Edição 1 766 - 28 de agosto de 2002
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Gustavo Franco

Exuberância ao contrário

"Quando a bolha é para cima, os reguladores podem ficar olhando, apostando na lei da gravidade. Mas e quando a bolha é para baixo? Vamos ficar olhando?"


Ilustração Ale Setti

São incontáveis os episódios de euforia financeira seguida de pânico e crise. Todos acompanhamos a ocorrência mais recente, a "exuberância irracional" nas bolsas americanas, e em particular na Nasdaq, na qual são negociadas as empresas de alta tecnologia. Valores irreais, baseados em alguma história plausível, vigoraram durante um bom tempo, fortunas foram feitas, mas a realidade acabou prevalecendo e os preços desabaram para o outro extremo, deixando um rastro de devastação financeira.

Nada de novo sob o sol. Em 1637, na Holanda, uma praga se abateu sobre algumas variedades de tulipa, criando novas cores e padrões descritos como espetaculares. Relatos da época dão conta de que nenhuma pessoa de posses poderia deixar de ter uma coleção de tulipas, e, diante da novidade da praga, essa predileção alcançou a categoria de mania. Os preços se multiplicaram de forma alucinante: a Semper augustus passou de 1.000 florins em 1623 para chegar, no auge da "bolha", a 6.700, equivalentes a algo como 60.000 dólares de hoje.

A Mania das Tulipas, como as correntes da felicidade, são paradigmas de "bolha especulativa", exemplos preciosos de como os mercados podem ser irracionais e destrutivos. Ao longo dos séculos, a lição que sempre emerge ao fim dessas aventuras é a de que esses mercados mais propensos a comportamento exuberante têm de ser regulados.

As "bolhas" fascinaram sucessivas gerações de pesquisadores, pois fornecem uma instância quase anedótica de comportamento coletivo irracional resultante de comportamentos individuais perfeitamente inteligentes. O "coletivo" parece assumir uma identidade singular, diferente da soma das racionalidades individuais, e a patologia "social" tem muito a ver com posturas que têm todo o sentido quando vistas isoladamente. O que faz mais sentido para você, leitor, tratando-se do dólar: comprar na descida ou na subida? Olhar os "fundamentos" ou olhar o que o mercado está pensando?

O presidente Fernando Henrique disse, com boa dose de razão, que a crise que o Brasil parece viver é um produto espúrio das expectativas de um mercado nervoso. Uma espécie de bolha, resultante de um pessimismo exacerbado que parece inverter a ordem habitual dos eventos: o pânico está ocorrendo antes da "exuberância". Uma rara exuberância "ao contrário".

Tudo isso é verdade, mas não me parece que o governo esteja totalmente inocente nessa história. O mesmo Fernando Henrique, anos atrás, quando o presidente Sarney tentava o seu quinto ano de mandato, perguntado sobre a crise política, teria respondido: viajou! A crise não tinha propriamente raízes muito complexas; a crise era o presidente.

Analogamente, a crise, hoje, não parece ter raízes demasiadamente complicadas. Existe porque adotamos um sistema de política monetária e cambial caracterizado pela passividade, ou pela intervenção hesitante nos mercados, e diante disso surgiram indícios de bolha. Há motivo para o dólar estar a 3 reais, ou para o risco Brasil chegar a 2.000 pontos? Ou será que a crise não é o fato de o dólar estar a 3 reais e o risco Brasil a 2.000? Aliás, o que veio primeiro? Faz diferença o que veio primeiro?

O fato é que o dólar se tornou uma espécie de tulipa verde. Sobe hoje porque as pessoas estão apreensivas, e essa condição se vê agravada ainda mais com a própria subida do dólar, que por sua vez reforça a fragilidade financeira das empresas e parece confirmar a profecia. É uma bolha, sim, mas o que devem fazer os governos e os reguladores quando os mercados mergulham em bolhas?

Quando a bolha é para cima, os reguladores podem ficar olhando, desconfiados e armados da aparente sabedoria que emana de uma firme postura de imobilidade, apostando na lei da gravidade. Aliás, consta que o próprio Isaac Newton quebrou ao investir suas economias no episódio conhecido como "a bolha dos Mares do Sul", em 1720, comprando ações quando os preços estavam praticamente no seu pico. Ninguém está livre desses perigos. Mas e quando a bolha é para baixo? Vamos ficar olhando?


Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.comwww.gfranco.com.br)


 
 
   
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