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Gustavo
Franco
Exuberância
ao contrário
"Quando
a bolha é para cima, os reguladores podem ficar olhando, apostando
na lei da gravidade. Mas e quando a bolha é para baixo? Vamos ficar
olhando?"
Ilustração Ale Setti
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São incontáveis os episódios de euforia financeira
seguida de pânico e crise. Todos acompanhamos a ocorrência mais
recente, a "exuberância irracional" nas bolsas americanas, e em particular
na Nasdaq, na qual são negociadas as empresas de alta tecnologia.
Valores irreais, baseados em alguma história plausível, vigoraram
durante um bom tempo, fortunas foram feitas, mas a realidade acabou prevalecendo
e os preços desabaram para o outro extremo, deixando um rastro de
devastação financeira.
Nada de novo sob o sol. Em 1637, na Holanda, uma praga se abateu sobre
algumas variedades de tulipa, criando novas cores e padrões descritos
como espetaculares. Relatos da época dão conta de que nenhuma
pessoa de posses poderia deixar de ter uma coleção de tulipas,
e, diante da novidade da praga, essa predileção alcançou
a categoria de mania. Os preços se multiplicaram de forma alucinante:
a Semper augustus passou de 1.000 florins em 1623 para chegar,
no auge da "bolha", a 6.700, equivalentes a algo como 60.000 dólares
de hoje.
A Mania das Tulipas, como as correntes da felicidade, são paradigmas
de "bolha especulativa", exemplos preciosos de como os mercados podem
ser irracionais e destrutivos. Ao longo dos séculos, a lição
que sempre emerge ao fim dessas aventuras é a de que esses mercados
mais propensos a comportamento exuberante têm de ser regulados.
As "bolhas" fascinaram sucessivas gerações de pesquisadores,
pois fornecem uma instância quase anedótica de comportamento
coletivo irracional resultante de comportamentos individuais perfeitamente
inteligentes. O "coletivo" parece assumir uma identidade singular, diferente
da soma das racionalidades individuais, e a patologia "social" tem muito
a ver com posturas que têm todo o sentido quando vistas isoladamente.
O que faz mais sentido para você, leitor, tratando-se do dólar:
comprar na descida ou na subida? Olhar os "fundamentos" ou olhar o que
o mercado está pensando?
O presidente Fernando Henrique disse, com boa dose de razão, que
a crise que o Brasil parece viver é um produto espúrio das
expectativas de um mercado nervoso. Uma espécie de bolha, resultante
de um pessimismo exacerbado que parece inverter a ordem habitual dos eventos:
o pânico está ocorrendo antes da "exuberância". Uma
rara exuberância "ao contrário".
Tudo isso é verdade, mas não me parece que o governo esteja
totalmente inocente nessa história. O mesmo Fernando Henrique,
anos atrás, quando o presidente Sarney tentava o seu quinto ano
de mandato, perguntado sobre a crise política, teria respondido:
viajou! A crise não tinha propriamente raízes muito complexas;
a crise era o presidente.
Analogamente, a crise, hoje, não parece ter raízes demasiadamente
complicadas. Existe porque adotamos um sistema de política monetária
e cambial caracterizado pela passividade, ou pela intervenção
hesitante nos mercados, e diante disso surgiram indícios de bolha.
Há motivo para o dólar estar a 3 reais, ou para o risco
Brasil chegar a 2.000 pontos? Ou será que a crise não é
o fato de o dólar estar a 3 reais e o risco Brasil a 2.000? Aliás,
o que veio primeiro? Faz diferença o que veio primeiro?
O fato é que o dólar se tornou uma espécie de tulipa
verde. Sobe hoje porque as pessoas estão apreensivas, e essa condição
se vê agravada ainda mais com a própria subida do dólar,
que por sua vez reforça a fragilidade financeira das empresas e
parece confirmar a profecia. É uma bolha, sim, mas o que devem
fazer os governos e os reguladores quando os mercados mergulham em bolhas?
Quando a bolha é para cima, os reguladores podem ficar olhando,
desconfiados e armados da aparente sabedoria que emana de uma firme postura
de imobilidade, apostando na lei da gravidade. Aliás, consta que
o próprio Isaac Newton quebrou ao investir suas economias no episódio
conhecido como "a bolha dos Mares do Sul", em 1720, comprando ações
quando os preços estavam praticamente no seu pico. Ninguém
está livre desses perigos. Mas e quando a bolha é para baixo?
Vamos ficar olhando?
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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