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Edição 1 766 - 28 de agosto de 2002
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O presidente e os mercados





 

O presidente e os mercados


Ed Ferreira/AE
Fernando Henrique no Uruguai: "Dissonância cognitiva"

É crescente a irritação de Fernando Henrique Cardoso com a irracionalidade dos mercados financeiros. Em visita ao Uruguai, na semana passada, o presidente brasileiro disse que as instituições financiadoras internacionais e as agências de avaliação de risco sofrem de "dissonância cognitiva" em relação à realidade brasileira. FHC deu publicidade a uma série de números favoráveis sobre a economia real e as finanças públicas do país, cuja análise isenta, segundo o presidente, só poderia conduzir a um diagnóstico positivo sobre o Brasil. O que se vêem, no entanto, são avaliações desastrosas vindas de fora igualando a 11ª economia do mundo à de nações de padrão africano. Essas avaliações trazem como conseqüência nefasta imediata o estrangulamento do crédito externo às empresas brasileiras "como nunca se viu, nem mesmo no período da moratória da dívida externa nos anos 80", como lembrou o presidente.

A irritação de FHC certamente é compartilhada por todos os brasileiros. A seqüência de crises de origem externa que se abateram sobre o Brasil nos últimos anos desafia as almas mais pacientes. A que agora nos angustia tem nas eleições presidenciais que se aproximam um de seus componentes. O fator mais significativo, porém, é a dramática mudança para pior do ambiente externo. Abalados pela quebra da Argentina, pela revelação de escândalos corporativos e pela lenta recuperação da economia americana, os investidores estrangeiros estão alérgicos ao risco. Preferem ver seu dinheiro em segurança, remunerado com apenas 1% ao ano nos Estados Unidos, a, na percepção deles, correr riscos para ganhar dez vezes mais nos mercados financeiros latino-americanos. Simplesmente, não existe agora interesse dos investidores em colocar dinheiro nos países emergentes. Até o sacrossanto investimento direto, do qual o Brasil abocanhou 145 bilhões de dólares de 1996 a 2001, não está chegando no mesmo volume. No ano passado, os países ricos cortaram quase pela metade seus investimentos globais. Até que a fonte externa volte a jorrar, o Brasil passará apertos.

 
 
   
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