|
O inferno do craqueEm campanha para recuperar a imagem, Maurício Cardoso e Roberta Paixão
A polícia apura as atividades da brasileira Lázara Souza de Morais, a Lara. Radicada em Milão, ela é acusada de explorar uma casa de prostituição de alto luxo e promover festinhas sexuais turbinadas com cocaína. Segundo o jornal italiano Il Messaggero, uma das fotos que compõem o inquérito policial mostra o jogador com a cafetina sentada em seus joelhos. Nessa foto, ela aparece usando uma cinta-liga. Ainda segundo os jornais italianos, uma prostituta contratada por Lara declarou à polícia que Ronaldo lhe pagou 1,5 milhão de liras (cerca de 1.500 reais) em troca de serviços sexuais. Tratada com o estardalhaço habitual que a imprensa italiana dispensa aos fatos da vida de gente famosa, a notícia provocou a indignação de Ronaldo: "Não conheço nenhuma Lara", disse ele a VEJA na última sexta-feira. "Como vivem me arrumando namoradas, pode ser mais uma querendo aparecer. Nunca vi essas fotos e nunca mostraram uma calcinha com esperma meu para provar que eu estive com uma prostituta." Ronaldo fazia referência ao vestido manchado de esperma apresentado por Monica Lewinsky como prova de seus encontros com o presidente Bill Clinton. Efeito de uma bomba – Oficialmente, Ronaldo não é acusado de cometer crime algum. Ele não foi convocado para depor nem como testemunha no inquérito policial. A história, no entanto, teve o efeito de uma bomba entre os torcedores do Internazionale, o time de Ronaldo em Milão. O caso ganhou tanta repercussão porque, entre os italianos, o craque brasileiro é tratado como um astro. Cada passo seu, cada declaração, cada festa a que é convidado, cada mulher que aparece a seu lado vira notícia. Além de comemorar seus gols e jogadas geniais em campo, os torcedores também querem saber com quem anda, o que faz e como se comporta na vida privada. Seria, portanto, de esperar que o aparecimento do jogador como personagem numa investigação sobre rede de prostituição provocasse o barulho que se viu na semana passada. Seu nome e suas fotos estão sendo usados, junto com os de várias outras pessoas, para comprovar as atividades da brasileira Lara. A polícia acaba de enviar o inquérito para a Justiça. Por mais naturais que se considerem encontros amorosos de um rapaz de 22 anos com mulheres de vida airada, a história ganhou expressão porque Ronaldinho é famoso. E também porque o caso ultrapassou a fronteira da simples fofoca de jornal sensacionalista. Há um processo recheado de documentos e fotos. E se falará ainda mais de tudo isso na fase de julgamento do processo em que os fatos serão exaustivamente detalhados. Lara, uma goiana de 33 anos estabelecida na Itália há pelo menos seis anos, está em prisão domiciliar desde fevereiro, quando virou notícia na Itália. Alertada por uma denúncia anônima de exploração de prostituição e tráfico de drogas, a polícia fez uma batida em seu apartamento em Milão. Ali, os policiais acharam 26 gramas de cocaína e o equivalente a 150.000 dólares em dinheiro e cheques. Apreenderam também uma agenda preta e uma coleção de fotos. Foi a divulgação dos nomes existentes nessa agenda que colocou Ronaldo entre os personagens do escândalo. Além do brasileiro, aparecem na lista Nicola Berti, ex-jogador da seleção italiana, o russo Igor Shalimov, colega de Ronaldo no Internazionale, e o ator de cinema Luca Barbareschi, além de empresários cujos nomes foram mantidos em segredo. Em declarações à Justiça, Berti admitiu que era cliente de Lara, a quem encarregava de organizar festas de embalo em sua casa. Berti contou também que foi ele quem apresentou Lara a Ronaldo em uma festa. "Apresentei-a como uma amiga brasileira sem entrar em detalhes sobre o tipo de atividade que ela desenvolvia", disse o jogador. As fotos apreendidas no apartamento de Lara estão anexadas ao processo, mas até agora não foram divulgadas pela polícia. Seriam ao todo 36 fotos. O craque brasileiro aparece em pelo menos sete cercado por algumas das quinze meninas de Lara. Numa dessas fotos, Ronaldo está de calção preto e descalço abraçado a duas garotas. No fundo aparecem uma foto do presidente Clinton e uma televisão sintonizada num jogo de futebol. Os detalhes mais constrangedores estão no depoimento da também brasileira Sandra Regina Elias ao promotor Alfredo Robledo, encarregado do inquérito. Sandra diz trabalhar como prostituta contratada por Lara. Conta que manteve relações sexuais com Ronaldo numa festinha em um apartamento no centro de Milão. Estava acompanhada de Lara, um outro rapaz brasileiro que ela identifica apenas como Sérgio e de uma prostituta russa e outra chamada Ohana. "Ronaldo me pagou pessoalmente 1,5 milhão de liras", declarou Sandra ao promotor. Contou também que na festinha havia cocaína: "Eu consumi a droga, mas Ronaldo não tocou no pó". Esses são os fatos que estão movimentando o noticiário dos jornais italianos. Os envolvidos contestam. Como Ronaldo, Lara diz que é tudo mentira. "Ronaldo é meu ídolo, uma pessoa limpa, não merece tudo isso", afirma. Mas a cafetina difere do jogador num ponto. Ela admite que o conhece, sim, e que tirou as fotos com ele.
Na semana passada, ao ouvir da repórter Roberta Paixão, de VEJA, a descrição da foto em que Ronaldo aparece com Lara no colo, a modelo Susana Werner, ex-namorada do jogador, ficou lívida e deu um grito. "Você está brincando comigo?", reagiu. "Só acredito vendo." Susana e Ronaldo romperam no mês passado, em circunstâncias que nenhum dos dois explicou até agora. "O Ronaldo nunca me traiu durante os três anos de namoro", diz ela. "Posso garantir também que ele nunca usou nenhum tipo de droga." Susana conta, porém, que não gostava do tipo de pessoa com que o jogador estava envolvido na Itália e no Rio de Janeiro. "Ele às vezes saía à noite sem dar satisfação, sem dizer para onde ou com quem ia, e não tinha hora para voltar", lembra. "Ele andava em más companhias." Ídolo mundial – Ronaldo é um dos maiores fenômenos do esporte mundial nos últimos anos. Aos 16 anos, já era reconhecido internacionalmente. Foi tetracampeão do mundo aos 17, na Copa de 1994, nos Estados Unidos. Aos 19 ganhava um salário de 2 milhões de dólares por ano. Hoje, aos 22 anos, tem renda anual avaliada em mais de 10 milhões de dólares, incluindo salários e cachês de propaganda. Já acumulou uma fortuna estimada em cerca de 20 milhões de dólares. Se parasse de ganhar dinheiro hoje e botasse tudo isso na poupança, um investimento conservador, ainda assim receberia rendimentos de 2,5 milhões de dólares ao ano – mais de 200.000 por mês. Vive numa cobertura tríplex de 300 metros quadrados no bairro de San Siro, em Milão. Dentro do apartamento tem academia de ginástica, sala de jogos eletrônicos e piscina, e seu passatempo predileto é navegar na internet. Fica horas diante do computador, batendo papo com fãs sem se identificar. O restaurante favorito de Ronaldo na cidade italiana é um brasileiro, o Picanha's, que lhe reserva sempre uma sala particular. Também gosta muito de ir ao cinema. Para driblar o assédio dos torcedores, entra bem antes do horário e se refugia no banheiro até o filme começar. Freqüenta os desfiles de moda realizados na cidade e gaba-se de ser amigo do estilista Giorgio Armani, criador de sua grife preferida. Ninguém deve imaginar que um garoto nessa idade, rico, famoso e ainda por cima solteiro, vá comportar-se como um monge na vida privada. Antes de aparecerem anotados na agenda de Lara de Milão, seu nome e seu número de telefone já estavam anotados nas listas de mulheres lindas, algumas das quais ficaram famosas por se aproximar do craque. Duas das primeiras namoradas, Nádia França e Viviane Brunieri, depois de dispensadas formaram uma dupla musical para aproveitar os quinze segundos de glória que desfrutaram a seu lado. O grupo se chamava As Ronaldinhas. Na Holanda, para onde se transferiu em 1994, Ronaldo namorou a filha do presidente do PSV, o clube em que jogava. Na época, era ainda menor de idade. Com a tenista russa Anna Kournikova, um dos rostos mais bonitos do circuito mundial de tênis, trocou beijinhos nas arquibancadas do estádio de Roland Garros, em Paris. Ao terminar o namoro de três anos com Susana, circulou o boato de que ele estaria saindo com a lolita russa, mas quem se apresentou na área foi a modelo Fabiana Andrade, uma morena que ostenta em seu currículo o título de rainha do bumbum. Fabiana contou que em abril, quando Ronaldo ainda estava com Susana, foi hospedada por ele em um hotel de Milão. Ela diz que o jogador ia visitá-la todas as tardes depois dos treinos. "Eu não sou santo, mas faço sexo seguro", admite Ronaldo. "Ele tem mais é que sair", aprova Nélio Nazário, o pai de Ronaldo. "Na idade dele eu tinha um monte de mulheres." Morena e bonita – Mantida em prisão domiciliar há mais de cinco meses, Lara, a pivô do escândalo na Itália, só tem se manifestado por meio de seus advogados. Sabe-se pouco sobre ela. Saiu de Goiás, onde nasceu, atrás de Ayrton Senna, de quem se dizia fã. Depois de assistir a um Grande Prêmio de Monza de Fórmula 1, resolveu ficar em Milão. "Adorei a Itália", diz ela. Morena, alta e bonita – "muito mais exuberante do que aparece nas fotos do inquérito", segundo os jornais italianos –, logo obteve a proteção do dono de um restaurante no centro de Milão, que lhe conseguiu um visto de residência na Itália. Depois começou a agenciar prostitutas para gente famosa. Sua lista, segundo a polícia italiana, inclui quinze garotas brasileiras, italianas, russas e de outras nacionalidades. Uma hora de programa de suas garotas custava um mínimo de 500 reais, dos quais ela ficava com 20%. Esse tipo de serviço sexual é bastante comum nas grandes cidades. Em 1993, a polícia de Los Angeles prendeu a cafetina Heidi Fleiss, em cuja agenda Gucci estavam anotados datas, locais e horários de encontros de prostitutas com pessoas famosas, agenciados por ela. Entre os nomes escritos na agenda apareciam os do ator Jack Nicholson e o do cantor Mick Jagger. Heidi, conhecida como "Madame Hollywood", acabou condenada a três anos de prisão. As revelações da semana passada causaram surpresa porque, ao contrário de Romário, Edmundo, Renato Gaúcho e outros craques do futebol, Ronaldo sempre se esforçou para cultivar a imagem de bom menino. Garoto que saiu da pobreza para a glória, era um símbolo para todos os brasileiros que sonham com oportunidades de uma vida melhor. "O problema de Ronaldo é que ele se tornou um deus, obrigado a ser perfeito dentro e fora do campo", diz o ex-jogador Tostão, hoje comentarista de futebol. "Romário nunca teve esse problema. Suas virtudes e fraquezas estão à vista da torcida. Embora seja mesmo um bom moço, Ronaldo se preocupa demais em fazer tudo certinho. Uma pessoa que nunca comete falhas não é normal, é um mito." Dentro dos campos de futebol, a trajetória de Ronaldo tem sido construída aos solavancos. Em seis anos de carreira, ele subiu aos céus e desceu aos infernos (veja quadro) sem tempo para refletir sobre o que estava ocorrendo à sua volta. Nesse curto período ele se tornou profissional, participou de duas Copas do Mundo e foi eleito duas vezes o melhor jogador do mundo. Sua vida sofreu uma reviravolta na Copa de 1998, onde teve uma misteriosa convulsão momentos antes da desastrosa final contra a França. Ronaldo não foi nem sombra do que costuma ser em campo naquela partida, o Brasil perdeu de 3 a 0 e ele parece não ter mais se recuperado do choque. Na última temporada de futebol italiano, viu de fora do campo o seu time, o Internazionale, perder sucessivamente a Copa dos Campeões da Europa, a Copa da Itália e o Campeonato Italiano de Futebol. Dos 34 jogos do time no campeonato italiano, ele participou de apenas dezenove e marcou catorze gols, a metade de pênalti. O resto da temporada passou às voltas com uma persistente dor nos joelhos. "Toda vez que entrava em campo sentia uma dor alucinante", ele conta. "Isso me deixava arrasado. Tentava todo tipo de tratamento e não tinha resultados." Mesmo sem jogar, Ronaldo tem de se manter em evidência para preservar sua imagem colocada a serviço de cinco importantes produtos comerciais, entre eles o do maior fabricante de material esportivo do mundo, o da maior produtora de cerveja do Brasil e o de um dos maiores grupos industriais da Itália. "Se eu estivesse fazendo gols, ninguém ia ligar com quem eu saía ou que carro comprei", reclama. Sua maré de azar melhorou um pouco na Copa América, a primeira competição desde a Copa do Mundo que disputou do começo ao fim sem sentir dores nos joelhos. Apesar dos altos e baixos, terminou como artilheiro, ao lado de Rivaldo, com cinco belos gols. A dúvida que permanece é se ele poderá voltar a ser o melhor jogador do mundo, propósito que persegue obsessivamente. "Fiquei muito satisfeito com meu desempenho na Copa América e acho que agora, com mais confiança, posso voltar a ser o mesmo jogador", diz ele. Em seus planos de carreira, Ronaldinho sonha em jogar mais três Copas, o que igualaria o recorde mundial do mexicano Carbajal e do alemão Mathäus. "Ele precisa jogar bem a próxima para ter seu nome incluído entre os grandes da história", diz Tostão. "Se falhar novamente, a torcida não vai perdoar." A prova de fogo para sua recuperação deverá ser o próximo campeonato italiano. Exibicionismo – Além de voltar a jogar seu bom futebol, outra obsessão de Ronaldo está ligada à sua imagem. Acha que cometeu alguns tropeços nessa área. Um deles foi quando resolveu comprar no Brasil uma Ferrari. O carro custa 500.000 reais, mas Ronaldo teve direito a um desconto de 20%. Sua saída da agência de automóveis foi um acontecimento. "Já tenho uma igual na Itália, mas dirigir uma Ferrari no Brasil é outra coisa", explicou o jogador. Muita gente o criticou pela cena de exibicionismo, num país com tanta pobreza. Durante a Copa América, disputada no Paraguai, Ronaldo resolveu abrir a carteira e fazer compras em Ciudad del Este. Torrou 20.000 reais de uma só tacada. Diante da repercussão, novamente negativa, decidiu cancelar as compras e devolver os produtos. Assustado com tanto rebuliço em torno de tudo que faz que não seja gol, Ronaldo contratou um especialista em marketing para ajudá-lo. Uma das primeiras iniciativas do novo auxiliar Rodrigo Paiva, ex-assessor de imprensa do Flamengo e de Romário, foi aconselhar Ronaldinho a viajar, sumir por uns tempos da atenção dos torcedores. Nesta quarta-feira o jogador embarca para Los Angeles. Nessa história toda de envolvimento com prostitutas, Ronaldinho fez o que todo rapaz na sua idade faz. A diferença é que, quando pessoas famosas se envolvem nessas coisas, vira escândalo.
|
|
Com reportagem de
Sérgio Ruiz Luz,
|