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De olho na cocaínaEspecialista diz que as empresas Daniela Pinheiro
Uma das principais preocupações das empresas é o consumo de álcool e drogas por seus funcionários. Não é uma inquietação moralista, mas uma legítima preocupação com os efeitos da cocaína e da bebida sobre a produtividade. Além do temor de ver o nome da firma envolvido num escândalo policial. O consultor americano John Burns é papa no assunto. Companhias como Johnson & Johnson, Caterpillar, Avon, BankBoston e Goodyear o contratam para ouvir sobre como evitar que o vício se alastre. A todos, Burns dá um conselho: testem a urina dos funcionários para identificar os viciados. A sugestão é rigorosa, mas Burns possui estatísticas para mostrar que a medida funcionou nos Estados Unidos. Ph.D. em filosofia, ele conhece os efeitos do vício. Em 1976, foi eleito funcionário padrão do Departamento de Justiça americano. Ia bem até que começou a beber. Acabou sendo chamado pelo chefe e convidado a se internar numa clínica. Aos 68 anos, recuperado e morando no Brasil, Burns conta como o dependente pode prejudicar a empresa. Veja – Por que algumas empresas decidiram intensificar o combate ao consumo de drogas e álcool entre os funcionários? Burns – Quem não conhece o assunto tem dificuldade em acreditar nos dados a respeito do consumo de álcool e drogas nas empresas. É estarrecedor, mas estima-se que o vício atinja pelo menos 10% do quadro de funcionários de todas as corporações. Dá para imaginar um viciado em cada grupo de dez pessoas? O abuso de drogas e bebida nas firmas é um problema no mundo todo, mas no Brasil as empresas têm pena de punir o viciado. Demiti-lo, então, nem pensar. Mesmo as multinacionais, que são guiadas por uma cultura estrangeira, acabam sendo condescendentes. De uns anos para cá, esse comportamento está se alterando. E há um conjunto de razões para isso. Numa economia global, é preciso evitar qualquer desperdício de receita ou de imagem. Com honrosas exceções, a regra é que o funcionário viciado não trabalha como os outros, e isso diminui a produtividade. É triste, mas é verdade. No limite, ele pode até ser um elemento desagregador para o departamento em que dá expediente. Veja – E qual o efeito do álcool ou das drogas na imagem da companhia? Burns – A empresa não tem o direito de exigir do funcionário que pense dessa ou daquela maneira, que vote nesse ou naquele candidato, mas é direito seu exigir um comportamento do empregado que não prejudique os negócios. Imagine só o que acontece se existe um traficante na mesa ao lado da sua. E aqui eu nem falo do problema do desempenho ou da rede de segredo e medo que se forma em torno dessa pessoa. Mas vamos para um problema concreto. Essa pessoa está sujeita à intervenção da polícia. Quer dizer, o viciado está trabalhando, vem o Departamento de Narcóticos à empresa, leva o funcionário preso e algemado e, no outro dia, o episódio sai em todos os jornais. Mas o que vai sair não é o nome do funcionário, mas sim o da empresa em que ele trabalha. Veja – A droga então preocupa mais do que o álcool? Burns – O problema central é o uso de cocaína. Sabemos que pelo menos 80% dos usuários têm emprego, porque a dependência custa caro e a pessoa precisa de uma renda. Um fenômeno novíssimo é que o tráfico passou a ser feito dentro do local de trabalho. A explicação é que a cocaína é extremamente negociável. É um pozinho inodoro que você compra por 10 reais e esconde na mão. Ninguém nem repara. Algumas multinacionais estão identificando os traficantes pelo gerente do banco. O processo de compra e venda da droga é tão fácil que nem é preciso levantar da cadeira. É feito pela internet. Veja – Pela internet? Como? Burns – Pela internet, é possível transferir 10, 15, 50 reais para a conta do traficante, que, da própria mesa, controla o dinheiro pingando na conta. Quando constata o recebimento do crédito, ele levanta, coloca a droga num envelope, deixa em cima da mesa do colega como se fosse uma correspondência qualquer e pronto: está concluído o tráfico. Ninguém trocou uma palavra. Impressionante, não? Veja – Qual a melhor maneira de prevenir e controlar o consumo de drogas e álcool no ambiente de trabalho? Burns – Uma boa alternativa é implantar programas nos moldes dos Alcoólicos Anônimos, dos Narcóticos Anônimos dentro do prédio da empresa. No Brasil, isso é viável porque aqui as relações no ambiente de trabalho são muito humanas, pessoais. Dessa forma, o funcionário pode se tratar sem precisar internar-se. A internação é ruim porque tira o funcionário de sua rotina. Mas meu conselho principal para as empresas é fazer testes antidoping periódicos na urina de todos os funcionários de forma compulsória. Sei que é difícil, mas trata-se da única solução. Veja – Um tanto radical, não? Burns – É preciso ser radical. Só assim se previne e se controla o problema. Se você sabe que pode ser sorteado e ter a urina examinada, vai pensar duas vezes antes de usar droga. É como esses radares nas estradas para multar o excesso de velocidade. Você pode ter um BMW, que ande a 220 quilômetros por hora. Mas, como tem o radar, você dirige a 80 mesmo. É compreensível que as pessoas achem que sua liberdade individual foi atingida, mas é preciso ter clareza sobre limites. A liberdade individual não pode sobrepor-se à liberdade coletiva. Quem trafega com o BMW a 220 por hora tem menos tempo para frear, corre mais risco de cometer um erro e tem mais possibilidade de matar alguém. Qual é o direito que deve ser ferido: o do motorista, que não vai poder correr? Ou o do resto da sociedade, que não quer morrer atropelada? No caso das drogas na firma é a mesma coisa. Quem usa drogas expõe a todos. Veja – Não seria uma forma de preconceito mapear a intimidade da pessoa? Como demitir quem tem Aids ou quem está grávida... Burns – Há empresas que não admitem quem fuma cigarro. A Albarus, que é uma das maiores fornecedoras nacionais de peças pesadas para automóveis, é um exemplo. O BankBoston proíbe fumar em qualquer lugar do prédio. É um critério, como pedir à pessoa que tenha curso superior. No caso de quem tem Aids, é totalmente diferente. A pessoa não vai colocar em risco a vida de ninguém, não vai prejudicar o trabalho nem seu desempenho. Ela é uma pessoa doente, que faz um tratamento. Como alguém que tem úlcera. As empresas buscam profissionais confiáveis, que se superem, que tenham estabilidade na execução de suas funções. O dependente não tem esse perfil. Fatalmente, ele começa a chegar atrasado, o que vai prejudicar seu desempenho. Depois, começa a faltar, o que é pior. E, em casos extremos, pode chegar a roubar para sustentar o vício. É uma situação extremamente grave. Veja – Como a empresa pode fazer o teste? Burns – Isso já é feito em algumas firmas. Na Caterpillar são feitos cinqüenta testes por mês entre os 2.000 funcionários, do executivo ao office-boy. É barato. Custa 50 reais por teste. Com o tempo e o aumento da demanda, esse valor tende a diminuir ainda mais. É muito simples: o funcionário recebe um telefonema, desce ao ambulatório e faz o exame – que consiste em urinar dentro de um copinho na presença de outra pessoa. Veja – Na presença de outra pessoa? Burns – É assim que fazem os atletas nos exames antidoping. Se você dá um copinho para o funcionário dependente levar para casa, é possível que ele traga a urina do gato ou do cachorro. Se deixa entrar sozinho na cabine, ele pode estar levando uma amostra de outra pessoa no bolso e trocar os vidros. Tem de ser na frente de um inspetor, sim. Veja – Mas isso não é um abuso? Burns – Há uns anos, eu visitei a fábrica de canetas Sheaffer. Todo dia, depois do trabalho, os funcionários entravam numa salinha, tiravam a roupa e eram revistados para ver se não estavam levando nenhuma peça da caneta para casa. E isso era normal. Inspecionar funcionários que deixam o local de trabalho é comum aqui no Brasil. É tudo uma questão de costume. Há vinte anos os americanos fazem a testagem nas empresas. Hoje, 80% das empresas americanas aplicam o teste. É feito na hora da admissão e também periodicamente. É rotina, não tem drama. Veja – As empresas podem obrigar os funcionários a fazer o antidoping? Burns – Sim. A lei de entorpecentes é clara: empresas, nacionais ou internacionais, têm o dever de colaborar com o combate ao tráfico e ao uso ilícito de drogas que causem dependência física. Nós conseguimos um parecer da doutora Ivete Senise Ferreira, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, afirmando ser possível e legal as empresas exigirem teste de urina para seus funcionários. A testagem não vai ser para desmascarar ninguém. É só para conhecer o tamanho do problema. Nos Estados Unidos, depois da implantação dos testes, houve redução de 90% nas faltas, 88% nos problemas disciplinares, 93% nos erros e 97% nos acidentes de trabalho. É impressionante. Veja – E se o teste der positivo, o que acontece? Demissão? Burns – Demissão é a arma-limite, a punição máxima para as transgressões. Eventualmente, sim. Pode haver demissão, mas a idéia é outra. Proponho a reeducação dos doentes e dos demais empregados da empresa. Uma vez, na Caterpillar, presenciei uma cena sensacional. O gerente dos soldadores reuniu a equipe para dizer que um dos operários estava voltando depois de um tratamento e que queria que ele fosse bem recebido. O chefe dizia: "Daqui para a frente, ele não vai mais beber com vocês. Se começar a beber de novo vamos ter de demiti-lo, e nós não queremos isso, não é mesmo?" Todos os funcionários bateram palmas e no outro dia o operário foi recebido de braços abertos. Veja – Todo mundo deve ser testado? Burns – Ainda é uma questão controversa. A princípio, devemos usar o bom senso. Nenhuma empresa vai demitir uma secretária ou um office boy só porque ficou sabendo que fumaram maconha numa festinha. Isso seria ridículo. No entanto, se se trata de um motorista de caminhão, com a responsabilidade de transportar uma carga muito valiosa, ele precisa estar são e, portanto, deve ser testado. Se cuida de toda a rede de computadores, se controla a principal engrenagem de uma montadora ou a área de refinamento de uma usina, também. Normalmente, o teste é aplicado nas classes de C a E. Ainda é tabu entre os megaexecutivos. No caso deles, costumam ser afastados de maneira nobre. Ganham duas secretárias e ficam lá contando clipes. É o que chamam de "cair para cima". Recebem uma promoção, mas na prática não fazem nada. Esse executivo acaba sendo afastado do mercado horizontalmente, sem o choque de uma ruptura brusca com a empresa. Veja – Mas o patrão pode preferir não mexer com aquele funcionário que esteja produzindo bem mesmo tendo ciência do vício... Burns – O funcionário que usa drogas é realmente muito produtivo no princípio. Mas essa energia logo acaba. Erra quem vê a cocaína como um energético. Se fosse, poderia ser vendida nas farmácias como vitamina. Veja – Um dos argumentos para justificar o abuso de drogas e álcool é que ambos aumentam a criatividade, abrem novos horizontes de percepção. É verdade? Burns – Os escritores John Steinbeck e Ernest Hemingway foram prêmio Nobel e eram alcoólatras. Mozart morreu jovem por causa do álcool. Agora, a pergunta é: ele é produtivo por causa das drogas ou apesar das drogas? Ninguém costuma falar sobre a relação das drogas com a criatividade. O Raul Seixas me falou uma vez que só conseguia ter aquela inspiração maravilhosa quando se drogava ou bebia muito. Sóbrio, não fazia nada. É esse o problema: a pessoa já é criativa, mas acha que é a droga que a faz assim. No caso do funcionário dependente que é considerado produtivo, é só uma questão de tempo. Normalmente ele é jovem, e por isso consegue virar noites trabalhando sem problema. No entanto, com o passar do tempo, o organismo e a mente vão se deteriorando a um ponto tal que ele não vai mais conseguir raciocinar, apesar de fisicamente estar bem. Mas de que adianta ele virar a noite e ficar prostrado em frente do computador sem fazer nada direito? Veja – Como identificar que um colega de trabalho tem problemas com álcool ou drogas? Burns – Em primeiro lugar, o isolamento. Físico e emocional. É aquele sujeito que não conversa com ninguém, que era entrosado e mudou de comportamento de repente. Ou aquele que toda segunda-feira tem um tio que morre. Outro exemplo é o do funcionário que, na festa da empresa, toma um porre, abusa na gracinha com a secretária, dá mil vexames e no outro dia aparece como se nada tivesse acontecido. É que ele não se lembra de nada. Outro indicador é que os dependentes têm um mesmo discurso. Ficam intransigentes e irritados quando abordamos esse assunto. Eles sempre respondem: "Meu problema não é o álcool ou as drogas. São essas pessoas idiotas e esse trabalho infame. Graças a Deus, eu tenho um copo que faz a vida viável". Esse discurso é básico. Veja – Quais as experiências de sucesso na recuperação de dependentes em empresas brasileiras? Burns – Temos várias. O exemplo da Goodyear é maravilhoso. Havia cinqüenta dependentes. Depois de um ano de tratamento, 90% estavam em firme recuperação e as faltas se reduziram de dezenove ocorrências mensais para apenas três. O número de acidentes de trabalho no primeiro ano caiu a zero. Na Petrobras, dos 55 funcionários tratados, apenas três desistiram do tratamento depois de seis meses. E as faltas não justificadas diminuíram 88%.
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