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Tales
Alvarenga
Heróis no túmulo
"A maioria das pessoas consideradas heróicas
matou ou foi morta. As sociedades aceitam e
estimulam esse ritual"
O presidente Lula lançou na semana passada
uma campanha para "resgatar a auto-estima do brasileiro". Segundo
o presidente, o brasileiro não tem heróis, além
de esportistas como Ayrton Senna ou Pelé. Lula acha que não
é suficiente. "Em qualquer lugar do mundo a que vou, tenho
de levar flores ao túmulo do herói nacional. A gente
não tem a figura que todo país do mundo tem." Ainda
bem que é assim. O Brasil precisa de gente bem equipada em
matéria de cérebro, imaginação, audácia
e capacidade de liderança. O Brasil não precisa de
heróis com túmulos floridos, como quer Lula.
O herói, de maneira geral, é
uma figura simbólica, escalada para representar valores que
inspirem a sociedade. No processo de criação de um
herói, há uma dose alta de manipulação
na qual a pessoa é aliviada das imperfeições
humanas para funcionar como objeto de culto. A maioria das pessoas
consideradas heróicas matou ou foi morta. As sociedades aceitam
e estimulam esse ritual. Do contrário, seria impossível
convencer jovens a ir morrer em guerras, revoluções
ou campanhas terroristas.
Entre os grupos radicais muçulmanos,
Osama bin Laden e sua gangue dos 19 são heróis. Fora
de seu círculo de admiradores, são assassinos. Os
franceses ergueram um imponente mausoléu para Napoleão
Bonaparte, seu herói. Pergunte a um russo, a um austríaco,
a um alemão ou a um inglês o que acha de Bonaparte.
Os ingleses preferem o duque de Wellington, que derrotou Napoleão
na Batalha de Waterloo, em 1815.
O mausoléu de Napoleão em Paris
só perde em exibicionismo mortuário para os túmulos
de Vladimir Lenin e Mao Tsé-tung. Lenin e Mao tiveram o cadáver
embalsamado e colocado em exposição pública
dentro de urnas de cristal, como a Branca de Neve. A múmia
de Lenin foi para um subsolo da Praça Vermelha, em Moscou,
e a de Mao, para um salão erguido na Praça da Paz
Celestial, em Pequim. Esses dois cavalheiros, heróis do comunismo
na União Soviética e na China, iniciaram em seus países
regimes totalitários que fizeram milhões de vítimas.
As estátuas de Lenin foram derrubadas
quando a União Soviética implodiu. Mao continua firme
em seu pedestal na China, mas tem os dias contados como semideus.
Obviamente, traços heróicos marcaram os grandes nomes
da história, como Bonaparte, Mao e Lenin. O que se procura
aqui não é negar as qualidades que esses homens tiveram
em vida. É simplesmente mostrar que esse negócio de
herói é muito relativo. Os heróis costumam
perder substância quando despojados da mitologia que os cerca.
Duvido que Lula tenha sido convidado a depositar
flores em monumentos erguidos para celebrar gênios da arte,
da ciência, grandes pensadores ou estadistas brilhantes que
nunca estiveram metidos numa guerra. Estas são grandezas
que deveriam ser celebradas. Outra é aquela que algumas pessoas
encarnam no cotidiano, sem espalhafato. Se você comparece
a uma creche toda semana para cuidar de crianças abandonadas
ou se vai a um asilo para trocar fraldas de velhos, sem remuneração
nem glória pública, você também é
um herói. Pelo menos, o meu herói.
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