Edição 1864 . 28 de julho de 2004

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Tales Alvarenga
Heróis no túmulo

"A maioria das pessoas consideradas heróicas
matou ou foi morta. As sociedades aceitam e
estimulam esse ritual"

O presidente Lula lançou na semana passada uma campanha para "resgatar a auto-estima do brasileiro". Segundo o presidente, o brasileiro não tem heróis, além de esportistas como Ayrton Senna ou Pelé. Lula acha que não é suficiente. "Em qualquer lugar do mundo a que vou, tenho de levar flores ao túmulo do herói nacional. A gente não tem a figura que todo país do mundo tem." Ainda bem que é assim. O Brasil precisa de gente bem equipada em matéria de cérebro, imaginação, audácia e capacidade de liderança. O Brasil não precisa de heróis com túmulos floridos, como quer Lula.

O herói, de maneira geral, é uma figura simbólica, escalada para representar valores que inspirem a sociedade. No processo de criação de um herói, há uma dose alta de manipulação na qual a pessoa é aliviada das imperfeições humanas para funcionar como objeto de culto. A maioria das pessoas consideradas heróicas matou ou foi morta. As sociedades aceitam e estimulam esse ritual. Do contrário, seria impossível convencer jovens a ir morrer em guerras, revoluções ou campanhas terroristas.

Entre os grupos radicais muçulmanos, Osama bin Laden e sua gangue dos 19 são heróis. Fora de seu círculo de admiradores, são assassinos. Os franceses ergueram um imponente mausoléu para Napoleão Bonaparte, seu herói. Pergunte a um russo, a um austríaco, a um alemão ou a um inglês o que acha de Bonaparte. Os ingleses preferem o duque de Wellington, que derrotou Napoleão na Batalha de Waterloo, em 1815.

O mausoléu de Napoleão em Paris só perde em exibicionismo mortuário para os túmulos de Vladimir Lenin e Mao Tsé-tung. Lenin e Mao tiveram o cadáver embalsamado e colocado em exposição pública dentro de urnas de cristal, como a Branca de Neve. A múmia de Lenin foi para um subsolo da Praça Vermelha, em Moscou, e a de Mao, para um salão erguido na Praça da Paz Celestial, em Pequim. Esses dois cavalheiros, heróis do comunismo na União Soviética e na China, iniciaram em seus países regimes totalitários que fizeram milhões de vítimas.

As estátuas de Lenin foram derrubadas quando a União Soviética implodiu. Mao continua firme em seu pedestal na China, mas tem os dias contados como semideus. Obviamente, traços heróicos marcaram os grandes nomes da história, como Bonaparte, Mao e Lenin. O que se procura aqui não é negar as qualidades que esses homens tiveram em vida. É simplesmente mostrar que esse negócio de herói é muito relativo. Os heróis costumam perder substância quando despojados da mitologia que os cerca.

Duvido que Lula tenha sido convidado a depositar flores em monumentos erguidos para celebrar gênios da arte, da ciência, grandes pensadores ou estadistas brilhantes que nunca estiveram metidos numa guerra. Estas são grandezas que deveriam ser celebradas. Outra é aquela que algumas pessoas encarnam no cotidiano, sem espalhafato. Se você comparece a uma creche toda semana para cuidar de crianças abandonadas ou se vai a um asilo para trocar fraldas de velhos, sem remuneração nem glória pública, você também é um herói. Pelo menos, o meu herói.

 

 
 
 
 
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