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Ponto
de vista: Lya Luft
Falta alegria
em
nossas vidas
"Erico Verissimo, velho amigo amado,
uma de
minhas mais duras perdas, me disse quando
eu era muito jovem: 'Lya, em certos momentos
o que nos salva
nem é o amor, é o humor'"
Meu Deus, como andamos chatos, dei-me conta
outro dia.
Não paramos de reclamar. Muitas vezes
com razão: os impostos, o custo de vida, o desemprego, a
violência, a prolongada adolescência dos filhos, a súbita
falsidade de alguém em quem confiávamos tanto, a velhice
complicada dos pais, a pouca autoridade das autoridades, a nossa
própria indecisão. As rápidas mudanças
na sociedade, alguns ainda tentando arrastar o cadáver dos
valores que precisam ser mudados, outros tentando impor a anarquia
quando a gente devia era renovar, não bagunçar.
Pensei que uma das coisas que andam ficando
raras é a alegria, e comentei isso. Alguém arqueou
uma sobrancelha:
Alegria? A palavra está até
com cheiro de mofo... Tanta coisa grave acontecendo, tanta tragédia,
e você fala em alegria?
Ilustração Ale Setti
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Pois comecei a me entusiasmar com a idéia, e provocativamente
fui contando nos dedos os motivos que deveriam levar a que o grupo
se alegrasse: a lareira crepitava na noite fria, uma amizade generosa
circulava entre nós, três bebês dormiam ali perto,
na sala ao lado, ouviam-se risadas e, apesar de sermos na pequena
roda mais ou menos calejados pelas perdas da vida, tínhamos
os nossos ganhos em experiência, amores, conhecimento, esperança.
Nenhum de nós desistira da jornada.
Nenhum de nós era um malfeitor, um ser humano desprezível,
ao contrário: a gente estava na luta, tentando ser decente,
tentando superar os próprios limites.
Havia marcas da passagem do tempo em todos
os rostos: ninguém se fizera deformar pelo fanatismo da juventude
eterna, mas todos se gostavam o suficiente para não se deixar
cair feito um trapo velho.
Olhei em torno e gostei de nós: ali
se viam belos cabelos pintados e belos cabelos brancos, rostos interessantes
que tinham visto muita coisa, bocas marcadas que haviam dado muitas
risadas e pronunciado palavras amorosas, mas também falado
coisas duras, silenciado quem sabe ternuras difíceis, ocultado
queixas que deveriam ter sido lançadas.
Mãos que tinham segurado bebês,
conduzido crianças, confortado adolescentes, cuidado de velhos
doentes, fechado pálpebras, dirigido automóveis, segurado
ombros, fendido ondas, tapado o rosto em pranto solitário
quantas vezes?
Éramos tão humanos, tão
desvalidos e tão guerreiros, o pequeno grupo de amigos diante
de uma lareira na noite fria, como centenas, milhares de outros,
homens, mulheres, crianças, entre os dois mistérios
do nascer e do morrer.
Repeti a minha pequena heresia:
Eu acho que uma das coisas que andam
faltando, além de emprego, decência e tanta coisa mais,
é alegria. A gente se diverte pouco. Andamos com pouco bom
humor.
Erico Verissimo, velho amigo amado, uma de
minhas mais duras perdas, me disse quando eu era muito jovem: "Lya,
em certos momentos o que nos salva nem é o amor, é
o humor".
Um riso bom ou um sorriso terno em meio a
toda a crueldade, falsidade, hipocrisia, violência de acusações
abjetas, de calúnias vis, de corrupção escandalosa,
de desagregação familiar melancólica, de mentira
secreta e venenosa podem nos confortar e devolver a esperança.
Lya Luft é escritora
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