|
|
Entrevista: Bob
Woodward
Bush manda em tudo
O repórter que mais tem acesso
à Casa Branca conta o que acontece
nos bastidores do poder nos EUA

Gabriela Carelli
|
AP

|
"Os assessores nunca
se sentaram com o presidente para questionar a guerra.
Bush sabia o que cada um pensava, mas não os levou
em conta. Ele não ouve ninguém" |
|
O loirinho bonito que derrubava presidentes
ficou no passado. Aos 61 anos, no topo de uma carreira jornalística
lendária, que o transformou em estrela internacional quando
desvendou o escândalo de Watergate, provocando a renúncia
de Richard Nixon, Bob Woodward tende para o conservadorismo. Sob
o impacto do 11 de Setembro, escreveu um livro excessivamente apologético
sobre o ataque ao Afeganistão, Bush em Guerra. A invasão
do Iraque propiciou uma nova obra, Plano de Ataque, a ser
lançada no Brasil nas próximas semanas. Independentemente
de suas simpatias, continua a ser uma usina de processamento de
informações. Woodward teve também um acesso
sem paralelos à Casa Branca para escrever Plano de Ataque.
Entrevistou 75 funcionários do alto escalão do governo
americano e teve vários encontros com o próprio presidente
George W. Bush, captando detalhes preciosos de sua personalidade
e forma de agir. "Ele está sempre no comando", disse nesta
entrevista, de Washington, a VEJA.
Veja O
Executivo americano funciona como nos filmes de Hollywood, em que
o presidente se reúne com uma série de conselheiros,
escuta todo mundo e então toma a decisão final?
Woodward
O governo atual é diferente porque tem seu
perfil determinado pela personalidade e pelas necessidades do presidente
George W. Bush. Na Casa Branca de Bill Clinton, tudo era debatido,
até mesmo depois que as decisões tinham sido tomadas.
Na de Ronald Reagan, havia uma série de regras. As pessoas
costumavam escutá-lo, mas o presidente não se envolvia
em detalhes. Já a Casa Branca de Nixon funcionava como uma
quadrilha dedicada ao crime organizado.
Veja
Em que outros aspectos o governo Bush é diferente?
Woodward No caso da invasão
do Iraque, os principais assessores nunca se sentaram com Bush para
questionar os argumentos dele em favor da guerra. O presidente provavelmente
sabia o que cada um pensava. Tinha conhecimento, por exemplo, das
advertências do secretário de Estado, Colin Powell,
sobre as conseqüências e responsabilidades de uma guerra.
Mas o presidente não levou isso em consideração.
Bush não ouve ninguém. Em relação a
Saddam Hussein, o presidente tinha uma convicção muito
forte de que ele deveria ser tirado do poder, e o mais cedo possível.
Essa foi a lição que tirou do 11 de setembro: não
hesitar jamais.
Veja O
vice-presidente Dick Cheney, um dos grandes defensores da guerra
no Iraque, tem fama de ditar as regras no governo Bush. Isso é
verdade?
Woodward
Não há dúvida de que Cheney teve
extrema importância na questão da guerra. Ele é
provavelmente um dos homens mais poderosos do presidente. No caso
do Iraque, descrevo Cheney como uma roda que fez o carro andar.
Não por seus conselhos, mas, sim, porque o presidente sabia
que Cheney era um negociador persistente e habilidoso. Sem alguém
como ele para agir nesse campo quando fosse preciso, talvez Bush
mudasse de idéia. Sua influência na guerra parou por
aí. Todas as evidências, todas as fontes que ouvi abertamente
ou em sigilo afirmam que, ao contrário do que dizem, não
foi Cheney quem convenceu Bush a ir à guerra. Foi uma decisão
única e exclusiva do presidente. Bush achava que Saddam Hussein
era um problema e que tinha de derrubá-lo.
Veja
Por que tanta gente continua achando que Cheney é quem
realmente manda no governo?
Woodward Criou-se um
mito em torno da influência dele, mas isso é coisa
de quem não conhece o funcionamento da Casa Branca. O presidente
é o detentor absoluto do poder. O vice não tem poder
nenhum. Zero. Não dá para dizer sequer que ele é
um conselheiro capaz de mudar a cabeça de Bush. Cheney se
refere a Bush da maneira mais formal do mundo: "Senhor presidente,
preciso conversar com o senhor, precisamos ouvir outras pessoas".
Há uma deferência natural de Cheney para com o presidente.
Veja
Depois de entrevistar o presidente e dezenas de pessoas próximas
a ele, como o senhor definiria o perfil psicológico de Bush?
Woodward Ele é
direto, dedicado, responde a todas as perguntas nas entrevistas.
Não é tão articulado quanto Henry Kissinger
ou Bill Clinton, usa frases truncadas e não é capaz
de enunciar um parágrafo do começo ao fim. Na verdade,
não se expressa de forma nítida quando fala. Mas deixa
claro o que quer dizer. Não negou nenhuma informação
durante as entrevistas que fiz, mas sugeriu que fui maldoso uma
ou duas vezes em determinados temas e que eu não deveria
abordá-los novamente. Ele é amigável, mas durão.
Está sempre no comando e é muito confiante. Confiante
até demais. Tem intuição forte, mas, por ser
muito dono de si, às vezes não dá atenção
a informações importantes. Seu faro lhe disse que
as dúvidas sobre a existência de armas de destruição
em massa no Iraque poderiam lhe causar problemas. Mas, mesmo assim,
ele foi em frente e fez Colin Powell afirmar na ONU, seis semanas
antes de a guerra começar, que elas existiam.
Veja
Por que Bush costuma dar apelidos às pessoas mais
próximas? Para firmar sua superioridade?
Woodward
Esse hábito de Bush pode realmente soar estranho
quando não se está acostumado com ele. Eu, que estive
com ele durante alguns dias, por horas seguidas, de um momento para
outro percebi que não era mais Bob era Woody. Mas
ele não faz isso para desmerecer ninguém e nem de
forma jocosa. É uma maneira que encontrou para se lembrar
das pessoas.
Veja
Bush fala sério quando diz que tem uma missão divina
a cumprir?
Woodward Acho que sim.
Perguntei a ele sobre isso e ele respondeu que tinha a missão
de libertar as pessoas, que se sentia investido dela. Perguntei
também se ele não achava que estava sendo perigosamente
paternalista. Ele repetiu que tinha a obrigação de
velar pelo povo. De outra feita, disse que vê a oportunidade
de atingir grandes objetivos, que quer fazer uma coisa importante.
Pareceu-me muito sincero. Algumas pessoas concordam com essa forma
de encarar o mundo, outras discordam e acham que ele está
no caminho errado.
Veja
Como o senhor explica que Bush, um conservador
tradicional, tenha se convencido a mergulhar num projeto de ocupação
ambicioso, que pretendia transformar o Iraque numa democracia exemplar?
Woodward
Ele acredita na democracia, nos benefícios
de um lugar onde todos são tratados de forma igualitária.
Muitas pessoas concordaram com ele. Outras acharam que ele extrapolou,
que a democracia no Iraque era um objetivo distante demais. Um dia
perguntei a ele sobre como a história iria julgar essa guerra
e seus planos ambiciosos. Ele tirou as mãos do bolso, fez
um gesto de quem não pode fazer nada e disse: "História?
A gente não sabe sequer se vai estar vivo amanhã".
Veja A
ocupação no Iraque tem se mostrado desastrosa. Em
algum momento, antes da guerra ou em seu decorrer, Bush considerou
a hipótese de fracassar?
Woodward
Bush previa dificuldades, mas não da forma
como aconteceu. Não esperava a insurreição,
a violência organizada nem imaginava um resultado tão
sombrio.
Veja O
que o alto escalão da Casa Branca pensa hoje sobre a situação
no Iraque?
Woodward
Publicamente eles não mudaram de idéia.
Continuam com o discurso de que fizeram a coisa certa. Mas, internamente,
estão a todo momento tentando se justificar e se explicar.
No ano passado, o quadro era muito diferente. Antes da guerra, os
principais envolvidos jamais consideraram a hipótese de rever
seus conceitos e suas posições, de justificar os erros,
mesmo entre eles.
Veja
A guerra no Iraque foi deflagrada porque o governo realmente
acreditava que Saddam tinha armas de destruição em
massa? Ou sabia que não havia armas e decidiu continuar assim
mesmo?
Woodward Eles tinham
pistas que apontavam para a existência dessas armas e acreditavam
realmente que elas existiam. Ainda acreditam e continuam procurando.
O problema é que o diretor da CIA, George Tenet, cometeu
um erro grave ao afirmar com veemência que elas existiam,
sem ter certeza.
Veja
Como um diretor da CIA pode ser tão mal informado, como
aconteceu com Tenet?
Woodward Ele não
estava mal informado. Agiu de forma errada. Deveria ter feito relatórios
confidenciais afirmando que não havia certeza sobre a existência
das armas. O problema é que isso tornaria a guerra mais difícil.
Veja Se
o senhor tivesse de avaliar o arrependimento de Bush de 1 a 10,
que nota daria?
Woodward
Ele não se arrependeu.
Veja
Em nenhum momento?
Woodward Acho que ele
ainda acredita que fez o que era necessário, apesar das más
notícias e de armas proibidas não terem sido encontradas.
Quando o entrevistei, ele continuava a ter certeza de que havia
agido corretamente. Disse-me de maneira muito incisiva, sem nenhuma
dúvida.
Veja
O senhor é um dos poucos jornalistas que tiveram acesso
aos bastidores da Casa Branca. O que realmente acontece lá?
Woodward Na maior parte
do tempo, o presidente tem uma agenda cheia. Ele só relaxa
quando vai para sua fazenda, um lugar muito bonito. Nas ocasiões
em que estive na Casa Branca, não aconteceu nada de excepcional.
Ninguém dá festas, não há nenhum tipo
de bebida alcoólica. Bush me ofereceu uma bebida, sim: Coca-Cola.
Podia escolher entre a versão diet e a normal. Optei pela
diet.
Veja
Desde o caso Watergate, os presidentes americanos passaram a
ter a vida cada vez mais vigiada. O senhor acredita que esse controle
tem de ser tão absoluto a ponto de entrar na vida pessoal
do chefe de Estado, como aconteceu com Bill Clinton?
Woodward Acredito que
o trabalho da imprensa é vigiar o que o presidente e os poderosos
estão fazendo e informar os leitores sobre o que encontrarem.
No caso de Clinton, descobriram a relação com Monica
Lewinsky. Uma coisa que posso dizer com certeza sobre a Casa Branca
é que não há indício nenhum de que algo
desse gênero esteja acontecendo agora.
Veja
Mas todo mundo sabia que John Kennedy tinha vários casos
e, na época, ninguém se importava. Por que foi tão
diferente com Clinton?
Woodward Não,
ninguém sabia àquela época. A vida privada
dos presidentes era muito mais preservada. Nem sobre o caso de Kennedy
com Marilyn Monroe se sabia. As pessoas, inclusive os jornalistas,
tinham menos acesso às notícias. Os tempos eram outros
também. Hoje vivemos a era do politicamente correto, qualquer
deslize pode ser usado contra você. Principalmente quando
se trata de pessoas públicas. Sinceramente, não sei
se deveríamos preservá-los nessas situações.
É uma questão muito complicada, pois envolve valores
morais. As pessoas elegem os políticos por inúmeras
razões, inclusive pelos princípios.
Veja
Os críticos de seu trabalho argumentam que desde Watergate
o senhor se tornou um jornalista oficialesco. Costumam contrapô-lo
a outro grande nome da imprensa americana, o jornalista Seymour
Hersh, da revista The New Yorker, que publica reportagens
que enfurecem a Casa Branca.
Woodward
Eu não estou aqui para fazer julgamentos. Estou
aqui para contar a história de fato. Como tudo realmente
aconteceu.
Veja
Que tipo de acordo o senhor faz para ter acesso às informações
publicadas em seu livro?
Woodward O mesmo que
Hersh faz: dou garantias de que não vou revelar minhas fontes.
Só isso. Com a diferença de que consigo convencer
muitas pessoas a falar sem exigir sigilo, como o presidente Bush
e o secretário de Defesa Donald Rumsfeld. Tenho, além
dos bastidores, o lado oficial da história.
Veja
A pergunta inevitável: quando o senhor vai contar os detalhes
que faltam e revelar a identidade de "Garganta Profunda", a sua
principal fonte no caso Watergate?
Woodward A história
será recontada com ele como personagem, mas isso só
vai acontecer se ele mudar de idéia, o que não ocorreu
ainda. Ou se ele morrer. Nesse caso, eu mesmo direi de quem se trata.
Se eu ainda estiver neste mundo, é claro.
|