Edição 1864 . 28 de julho de 2004

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Entrevista: Bob Woodward
Bush manda em tudo

O repórter que mais tem acesso
à Casa Branca conta o que acontece
nos bastidores do poder nos EUA


Gabriela Carelli

 

AP

"Os assessores nunca se sentaram com o presidente para questionar a guerra. Bush sabia o que cada um pensava, mas não os levou em conta. Ele não ouve ninguém"

O loirinho bonito que derrubava presidentes ficou no passado. Aos 61 anos, no topo de uma carreira jornalística lendária, que o transformou em estrela internacional quando desvendou o escândalo de Watergate, provocando a renúncia de Richard Nixon, Bob Woodward tende para o conservadorismo. Sob o impacto do 11 de Setembro, escreveu um livro excessivamente apologético sobre o ataque ao Afeganistão, Bush em Guerra. A invasão do Iraque propiciou uma nova obra, Plano de Ataque, a ser lançada no Brasil nas próximas semanas. Independentemente de suas simpatias, continua a ser uma usina de processamento de informações. Woodward teve também um acesso sem paralelos à Casa Branca para escrever Plano de Ataque. Entrevistou 75 funcionários do alto escalão do governo americano e teve vários encontros com o próprio presidente George W. Bush, captando detalhes preciosos de sua personalidade e forma de agir. "Ele está sempre no comando", disse nesta entrevista, de Washington, a VEJA.

Veja – O Executivo americano funciona como nos filmes de Hollywood, em que o presidente se reúne com uma série de conselheiros, escuta todo mundo e então toma a decisão final?
Woodward – O governo atual é diferente porque tem seu perfil determinado pela personalidade e pelas necessidades do presidente George W. Bush. Na Casa Branca de Bill Clinton, tudo era debatido, até mesmo depois que as decisões tinham sido tomadas. Na de Ronald Reagan, havia uma série de regras. As pessoas costumavam escutá-lo, mas o presidente não se envolvia em detalhes. Já a Casa Branca de Nixon funcionava como uma quadrilha dedicada ao crime organizado.

Veja – Em que outros aspectos o governo Bush é diferente?
Woodward – No caso da invasão do Iraque, os principais assessores nunca se sentaram com Bush para questionar os argumentos dele em favor da guerra. O presidente provavelmente sabia o que cada um pensava. Tinha conhecimento, por exemplo, das advertências do secretário de Estado, Colin Powell, sobre as conseqüências e responsabilidades de uma guerra. Mas o presidente não levou isso em consideração. Bush não ouve ninguém. Em relação a Saddam Hussein, o presidente tinha uma convicção muito forte de que ele deveria ser tirado do poder, e o mais cedo possível. Essa foi a lição que tirou do 11 de setembro: não hesitar jamais.

Veja – O vice-presidente Dick Cheney, um dos grandes defensores da guerra no Iraque, tem fama de ditar as regras no governo Bush. Isso é verdade?
Woodward – Não há dúvida de que Cheney teve extrema importância na questão da guerra. Ele é provavelmente um dos homens mais poderosos do presidente. No caso do Iraque, descrevo Cheney como uma roda que fez o carro andar. Não por seus conselhos, mas, sim, porque o presidente sabia que Cheney era um negociador persistente e habilidoso. Sem alguém como ele para agir nesse campo quando fosse preciso, talvez Bush mudasse de idéia. Sua influência na guerra parou por aí. Todas as evidências, todas as fontes que ouvi abertamente ou em sigilo afirmam que, ao contrário do que dizem, não foi Cheney quem convenceu Bush a ir à guerra. Foi uma decisão única e exclusiva do presidente. Bush achava que Saddam Hussein era um problema e que tinha de derrubá-lo.

Veja – Por que tanta gente continua achando que Cheney é quem realmente manda no governo?
Woodward – Criou-se um mito em torno da influência dele, mas isso é coisa de quem não conhece o funcionamento da Casa Branca. O presidente é o detentor absoluto do poder. O vice não tem poder nenhum. Zero. Não dá para dizer sequer que ele é um conselheiro capaz de mudar a cabeça de Bush. Cheney se refere a Bush da maneira mais formal do mundo: "Senhor presidente, preciso conversar com o senhor, precisamos ouvir outras pessoas". Há uma deferência natural de Cheney para com o presidente.

Veja – Depois de entrevistar o presidente e dezenas de pessoas próximas a ele, como o senhor definiria o perfil psicológico de Bush?
Woodward – Ele é direto, dedicado, responde a todas as perguntas nas entrevistas. Não é tão articulado quanto Henry Kissinger ou Bill Clinton, usa frases truncadas e não é capaz de enunciar um parágrafo do começo ao fim. Na verdade, não se expressa de forma nítida quando fala. Mas deixa claro o que quer dizer. Não negou nenhuma informação durante as entrevistas que fiz, mas sugeriu que fui maldoso uma ou duas vezes em determinados temas e que eu não deveria abordá-los novamente. Ele é amigável, mas durão. Está sempre no comando e é muito confiante. Confiante até demais. Tem intuição forte, mas, por ser muito dono de si, às vezes não dá atenção a informações importantes. Seu faro lhe disse que as dúvidas sobre a existência de armas de destruição em massa no Iraque poderiam lhe causar problemas. Mas, mesmo assim, ele foi em frente e fez Colin Powell afirmar na ONU, seis semanas antes de a guerra começar, que elas existiam.

Veja – Por que Bush costuma dar apelidos às pessoas mais próximas? Para firmar sua superioridade?
Woodward – Esse hábito de Bush pode realmente soar estranho quando não se está acostumado com ele. Eu, que estive com ele durante alguns dias, por horas seguidas, de um momento para outro percebi que não era mais Bob – era Woody. Mas ele não faz isso para desmerecer ninguém e nem de forma jocosa. É uma maneira que encontrou para se lembrar das pessoas.

Veja – Bush fala sério quando diz que tem uma missão divina a cumprir?
Woodward – Acho que sim. Perguntei a ele sobre isso e ele respondeu que tinha a missão de libertar as pessoas, que se sentia investido dela. Perguntei também se ele não achava que estava sendo perigosamente paternalista. Ele repetiu que tinha a obrigação de velar pelo povo. De outra feita, disse que vê a oportunidade de atingir grandes objetivos, que quer fazer uma coisa importante. Pareceu-me muito sincero. Algumas pessoas concordam com essa forma de encarar o mundo, outras discordam e acham que ele está no caminho errado.

Veja – Como o senhor explica que Bush, um conservador tradicional, tenha se convencido a mergulhar num projeto de ocupação ambicioso, que pretendia transformar o Iraque numa democracia exemplar?
Woodward – Ele acredita na democracia, nos benefícios de um lugar onde todos são tratados de forma igualitária. Muitas pessoas concordaram com ele. Outras acharam que ele extrapolou, que a democracia no Iraque era um objetivo distante demais. Um dia perguntei a ele sobre como a história iria julgar essa guerra e seus planos ambiciosos. Ele tirou as mãos do bolso, fez um gesto de quem não pode fazer nada e disse: "História? A gente não sabe sequer se vai estar vivo amanhã".

Veja – A ocupação no Iraque tem se mostrado desastrosa. Em algum momento, antes da guerra ou em seu decorrer, Bush considerou a hipótese de fracassar?
Woodward – Bush previa dificuldades, mas não da forma como aconteceu. Não esperava a insurreição, a violência organizada nem imaginava um resultado tão sombrio.

Veja – O que o alto escalão da Casa Branca pensa hoje sobre a situação no Iraque?
Woodward – Publicamente eles não mudaram de idéia. Continuam com o discurso de que fizeram a coisa certa. Mas, internamente, estão a todo momento tentando se justificar e se explicar. No ano passado, o quadro era muito diferente. Antes da guerra, os principais envolvidos jamais consideraram a hipótese de rever seus conceitos e suas posições, de justificar os erros, mesmo entre eles.

Veja – A guerra no Iraque foi deflagrada porque o governo realmente acreditava que Saddam tinha armas de destruição em massa? Ou sabia que não havia armas e decidiu continuar assim mesmo?
Woodward – Eles tinham pistas que apontavam para a existência dessas armas e acreditavam realmente que elas existiam. Ainda acreditam e continuam procurando. O problema é que o diretor da CIA, George Tenet, cometeu um erro grave ao afirmar com veemência que elas existiam, sem ter certeza.

Veja – Como um diretor da CIA pode ser tão mal informado, como aconteceu com Tenet?
Woodward – Ele não estava mal informado. Agiu de forma errada. Deveria ter feito relatórios confidenciais afirmando que não havia certeza sobre a existência das armas. O problema é que isso tornaria a guerra mais difícil.

Veja – Se o senhor tivesse de avaliar o arrependimento de Bush de 1 a 10, que nota daria?
Woodward – Ele não se arrependeu.

Veja – Em nenhum momento?
Woodward – Acho que ele ainda acredita que fez o que era necessário, apesar das más notícias e de armas proibidas não terem sido encontradas. Quando o entrevistei, ele continuava a ter certeza de que havia agido corretamente. Disse-me de maneira muito incisiva, sem nenhuma dúvida.

Veja – O senhor é um dos poucos jornalistas que tiveram acesso aos bastidores da Casa Branca. O que realmente acontece lá?
Woodward – Na maior parte do tempo, o presidente tem uma agenda cheia. Ele só relaxa quando vai para sua fazenda, um lugar muito bonito. Nas ocasiões em que estive na Casa Branca, não aconteceu nada de excepcional. Ninguém dá festas, não há nenhum tipo de bebida alcoólica. Bush me ofereceu uma bebida, sim: Coca-Cola. Podia escolher entre a versão diet e a normal. Optei pela diet.

Veja – Desde o caso Watergate, os presidentes americanos passaram a ter a vida cada vez mais vigiada. O senhor acredita que esse controle tem de ser tão absoluto a ponto de entrar na vida pessoal do chefe de Estado, como aconteceu com Bill Clinton?
Woodward – Acredito que o trabalho da imprensa é vigiar o que o presidente e os poderosos estão fazendo e informar os leitores sobre o que encontrarem. No caso de Clinton, descobriram a relação com Monica Lewinsky. Uma coisa que posso dizer com certeza sobre a Casa Branca é que não há indício nenhum de que algo desse gênero esteja acontecendo agora.

Veja – Mas todo mundo sabia que John Kennedy tinha vários casos e, na época, ninguém se importava. Por que foi tão diferente com Clinton?
Woodward – Não, ninguém sabia àquela época. A vida privada dos presidentes era muito mais preservada. Nem sobre o caso de Kennedy com Marilyn Monroe se sabia. As pessoas, inclusive os jornalistas, tinham menos acesso às notícias. Os tempos eram outros também. Hoje vivemos a era do politicamente correto, qualquer deslize pode ser usado contra você. Principalmente quando se trata de pessoas públicas. Sinceramente, não sei se deveríamos preservá-los nessas situações. É uma questão muito complicada, pois envolve valores morais. As pessoas elegem os políticos por inúmeras razões, inclusive pelos princípios.

Veja – Os críticos de seu trabalho argumentam que desde Watergate o senhor se tornou um jornalista oficialesco. Costumam contrapô-lo a outro grande nome da imprensa americana, o jornalista Seymour Hersh, da revista The New Yorker, que publica reportagens que enfurecem a Casa Branca.
Woodward – Eu não estou aqui para fazer julgamentos. Estou aqui para contar a história de fato. Como tudo realmente aconteceu.

Veja – Que tipo de acordo o senhor faz para ter acesso às informações publicadas em seu livro?
Woodward – O mesmo que Hersh faz: dou garantias de que não vou revelar minhas fontes. Só isso. Com a diferença de que consigo convencer muitas pessoas a falar sem exigir sigilo, como o presidente Bush e o secretário de Defesa Donald Rumsfeld. Tenho, além dos bastidores, o lado oficial da história.

Veja – A pergunta inevitável: quando o senhor vai contar os detalhes que faltam e revelar a identidade de "Garganta Profunda", a sua principal fonte no caso Watergate?
Woodward – A história será recontada com ele como personagem, mas isso só vai acontecer se ele mudar de idéia, o que não ocorreu ainda. Ou se ele morrer. Nesse caso, eu mesmo direi de quem se trata. Se eu ainda estiver neste mundo, é claro.

 
 
 
 
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