Edição 1962 . 28 de junho de 2006

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Dois Ronaldos
e o pai de Fred

As angústias de dois astros da seleção e as
alegres
aventuras de um mineiro na Europa

Dois homens tristes habitavam a concentração da seleção brasileira na Alemanha, até o jogo contra o Japão. Um se chama Ronaldo. O outro também se chama Ronaldo. A vitória folgada, com dois gols de um dos Ronaldos e boa atuação do outro, aliviou-lhes a situação. Até quando? Já se gastou muito comentário tentando explicar por que nem um nem outro começaram a Copa do jeito que se esperava deles. Como uma tese a mais ou a menos não faz diferença, aqui vai outra: o problema é eles terem o mesmo nome. A questão é de uma clareza solar. Quem mandou se chamarem, os dois, Ronaldo?

Houve tempo, no futebol, em que quando havia dois jogadores de nome igual um era chamado de "Primeiro" e o outro de "Segundo". Assim, se havia dois Silvas no time, um era o Silva Primeiro e o outro o Silva Segundo. Adotava-se o sistema dos reis e dos papas. Mas, ao contrário do que ocorre nos reinos ou no papado, o "Segundo", mesmo que jogasse muito, lembraria sempre uma réplica menor do "Primeiro". Mais recentemente, passou-se a distinguir os jogadores homônimos pelo estado de origem. Entre muitos outros casos semelhantes, temos o Juninho Pernambucano e o Juninho Paulista. Pelo menos, ninguém fica com o estigma de "segundo". Mas a homonímia continua a gerar efeitos desagradáveis. O Juninho Paulista era apenas "Juninho" até o outro cruzar seu caminho. Passou a ser "Juninho Paulista" e nunca mais foi o mesmo.

O Ronaldo mais velho, também conhecido como Ronaldo Fenômeno, reinava absoluto com esse nome. Aliás, nem Ronaldo era. Era "Ronaldinho". Chegou o outro – e era "Ronaldinho" também. O nome era tão igual que precisou vir acompanhado de um "Gaúcho". O impacto, imenso, da chegada desse outro até acabou rebatizando o antigo Ronaldinho de Ronaldo. Eis a nova situação: ele, o grande, o incomparável primeiro Ronaldinho, não só tinha sua supremacia futebolística desafiada por um recém-chegado como até o nome lhe era usurpado. Os dois se dão bem, vivem trocando sorrisos e brincadeiras. Mas, no fundo, no fundo... Como pode se sentir um Ronaldo tão brutalmente atropelado por outro Ronaldo? Quanto a esse outro Ronaldo, o Gaúcho, quando no mesmo time que o primeiro, não pode se sentir à vontade. Enfrenta o constrangimento, talvez até o sentimento de culpa, do aluno que não só supera o mestre como lhe herda os títulos e até lhe rouba o nome. Se um dos dois se chamasse Raimundo, não seria uma rima, mas podia ser uma solução.

Para os dois Ronaldos, assim como para outros jogadores, a Copa do Mundo traz ansiedades, mas para o seu Juá é só alegria. Seu Juá, ou Juarez Pinheiro Guedes, que se apresenta também com o elegante apelido de "Boleirão", é o pai de Fred, o centroavante reserva da seleção, ex-jogador do Cruzeiro, hoje na França. Seu Juá assiste a todos os jogos do Brasil e ronda a concentração. Nos bares da Alemanha, faz mágicas como pôr um palito na boca, um só, e depois tirar muitos, ou pedir para as pessoas se agacharem e fazer surgir um ovo debaixo delas. Na véspera do jogo contra a Austrália, previu que o filho entraria no time e faria um gol, e foi o que aconteceu. Naquela noite, para comemorar, tomou "uns vinte uísques". Também está tentando conquistar uma alemã (ele é viúvo). Ainda não conseguiu. De vez em quando sai da Alemanha e volta de carro à casa de Fred, na França. É para comer arroz com feijão.

Vai se sabendo da vida do pai de Fred na Alemanha pelo blog que ele inaugurou na internet. "De Teófilo Otoni para o mundo" é o slogan do blog, em homenagem à cidade onde ele e o filho nasceram. O blog recebe a cada dia dezenas de mensagens, a maioria da região de origem do blogueiro. Exemplos: "Sou sua vizinha mas não tive oportunidade de conversar com vc. Parabéns pelo filho maravilhoso"; "Olá meu amigo Juá, sou funcionário da Ademg. Fiquei conhecendo o primo Venâncio, gente boa"; "É muito triste saber que seu filho já é comprometido!!! mas fazer o q né... queria muito entrar na sua família"; "Aqui em Itambacuri todos ficam orgulhosos por saber que um vizinho nosso faz parte da seleção"; "Juarez, aqui é betão de t. otoni fui seu goleiro várias vezes, descola uma camisa do Dida p/ mim". A maioria das mensagens é de simpatia, mas há exceções. Uma delas: "Ele pode até ser humilde, mas não deixa de ser um véio mala".

Seu Juá contou à Folha de S.Paulo que Fred "meteu um checão de 12.000 euros" em sua mão. "E já perguntou se eu precisava de mais." Contou também que levou 38.000 dólares em pedras de sua região para a Europa. Vendeu-as e levantou 95.000 dólares. No dia seguinte, uma mensagem enviada ao blog recomendava-lhe cuidado com a Receita Federal. A maioria dos jogadores da seleção joga na Europa. Alguns estão por lá há tanto tempo que já se aculturaram. A figura do seu Juá nas cercanias lhes traz de volta um Brasil bruto, brasileiro.

 
 
 
 
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