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Diogo
Mainardi Minha vida de Coiote
"Depois
de quatro anos, com dezenas de artigos sobre o Papa-Léguas
lulista, o esquema se desgastou. No ano que vem, mudo de
assunto. Até lá, espero concluir algumas das histórias
a que me dediquei. O resultado do meu esforço será o mesmo
de sempre" Lula é o
Papa-Léguas. Eu sou o Coiote. Por quatro anos, imitei o desenho animado.
Recorri a todas as artimanhas para capturar a presa: catapultas, foguetes, patins
a jato, elásticos gigantes, tintas invisíveis, rochas desidratadas,
comprimidos de terremoto. Nada deu certo. Lula sempre conseguiu escapar. E depois
de escapar, como o Papa-Léguas, grasnou aquele estridente bip-bip em minha
orelha, assustando-me e fazendo-me cair num abismo, em geral com uma pedra de
10 toneladas na cabeça. O maior
achado do desenho animado de Chuck Jones é sua absoluta essencialidade.
Os dois protagonistas, mudos, confrontam-se num panorama deserto, onde só
há pedras e cactos, cujos espinhos terminam invariavelmente fincados na
pele do Coiote. O Papa-Léguas é uma besta primária, um oportunista
microcéfalo perfeitamente adaptado ao seu meio, que sabe apenas fugir e
se esquivar das ciladas preparadas pelo Coiote. O Coiote, por sua vez, é
a caricatura do humanista otário que acredita no triunfo da racionalidade,
do conhecimento, do engenho humano, da lei, do progresso social, da tecnologia.
E é repetidamente punido por causa disso. Se o Coiote é Lamarck,
o Papa-Léguas é Darwin. Se o Coiote é o humanista Settembrini,
o Papa-Léguas é o jesuíta Naphta. Se o Coiote é Bouvard
e Pécuchet, o Papa-Léguas é a tempestade que devasta sua
lavoura. A comicidade do Coiote e
do Papa-Léguas não está na variedade das piadas. Pelo contrário:
está no repisamento infinito da mesma piada. O Coiote prepara uma armadilha.
O Papa-Léguas passa incólume por ela. O Coiote se revolta e cai
na própria armadilha. Quando se recupera de seus efeitos calamitosos, prepara
outra armadilha, num ciclo interminável. Chuck Jones definiu o Coiote como
um fanático, citando o filósofo George Santayana, para quem "um
fanático é aquele que redobra seu empenho quando já esqueceu
seu objetivo". Foi a fórmula que, semana após semana, tentei plagiar
aqui na coluna. Com Lula no papel do Papa-Léguas e eu no do Coiote.
Chuck Jones dirigiu episódios do desenho animado de 1949 a 1965. Eu resisti
bem menos. Depois de quatro anos, com dezenas de artigos sobre o Papa-Léguas
lulista, o esquema se desgastou. No ano que vem, mudo definitivamente de assunto.
Até lá, espero concluir algumas das histórias a que me dediquei
no último período: do meu processo contra Lula, que já está
no STF, à denúncia de que ele possui uma conta num paraíso
fiscal. Da ação popular que pretendo mover contra a empresa de seu
filho, que arrendou ilegalmente um canal de TV, à revelação
de novos casos de financiamento ilícito ao PT. O resultado de meu esforço
será o mesmo de sempre. O Papa-Léguas passará por mim a toda
a velocidade, buzinando seu bip-bip. Eu, estupidamente, tentarei descobrir o que
deu errado em meus planos e, de uma hora para outra, me verei caindo num abismo.
Mas não ria. Porque você cairá junto comigo. |