|
|
Entrevista:
Paul Johnson O
motor do mundo O historiador inglês
defende que a criatividade é hoje a arma mais poderosa para o progresso
das nações  Gabriela
Carelli O inglês Paul Johnson é
um dos mais produtivos historiadores da atualidade. Em seus mais de quarenta livros
publicados, já se debruçou sobre grandes temas como a história
das religiões e do século XX. Observador arguto da cena internacional,
provoca polêmica nos artigos que escreve para as revistas Forbes
e The Spectator pelo entusiasmo com que fustiga as esquerdas com sua verve
franca e elegante. Aos 77 anos, Johnson acaba de lançar mais um livro,
Os Criadores, um mergulho na vida de dezessete personalidades criativas
da história, de Shakespeare a Walt Disney. O objetivo da obra, a segunda
de uma trilogia iniciada com Os Intelectuais, em 1988, e que terminará
com a publicação em breve de Os Heróis, é tentar
entender o que ele considera a característica mais importante do homem,
a criatividade. "Só a criatividade pode garantir o progresso. O problema
é que o homem tem uma propensão negativa a encontrar razões
científicas ou morais para frear a criatividade, seja na economia, na política
ou nas artes", diz Johnson nesta entrevista a VEJA.
Veja O senhor escreveu que o desenvolvimento
social e tecnológico humano não avançou tanto quanto poderia
por causa da eterna batalha entre duas forças antagônicas do homem:
sua criatividade e sua capacidade de crítica e destruição.
Como assim? Johnson Os seres humanos são naturalmente
criativos. Amam criar. Também são apaixonados pela destruição
e pela crítica. Acredito que todas as artes sendo que considero
formas de arte a política, o desenvolvimento tecnológico, econômico
e social, assim como a pintura e a literatura necessitam dessas duas forças
antagônicas. É a tese, a antítese e a síntese. Mas
é vital que a criatividade, a tese, supere seu adversário e vença,
pois só ela pode garantir o progresso. Não tenho dúvida de
que, se houvesse apenas a criatividade, a humanidade teria avançado muito
mais rapidamente. Veja
O senhor poderia citar exemplos de forças destrutivas que
impediram um avanço maior da nossa civilização?
Johnson O exemplo mais primário disso é o marxismo.
Marx compreendeu mal o capitalismo, foi desonesto com as evidências e sua
contribuição para o mundo foi totalmente negativa. Graças
a ele e a outros pensadores, por mais de um século muitos países
perderam a chance de crescer economicamente. Seus povos deixaram de ter acesso
à informação e à liberdade, fundamentais para o processo
criativo, milhares de pessoas foram mortas injustamente e muito dinheiro foi jogado
fora em vez de ser usado para a melhoria da qualidade de vida. Não há
absolutamente nada a dizer em favor do marxismo. Veja
O senhor afirma que o homem é propenso a encontrar razões
científicas ou morais para frear a criatividade. O que o leva a agir dessa
forma? Johnson O medo. Esse é, com certeza, o maior
estimulador do atraso. É o medo, por exemplo, que impede muitos países
de usar energia nuclear de forma consciente em substituição a outras
fontes de energia. Por causa de pretensos defensores da humanidade, impediu-se
a construção de usinas nucleares nos Estados Unidos e na Inglaterra.
Se bem usada, essa energia poderia minimizar os impactos energéticos do
crescimento econômico da China e da Índia, que provocaram escassez
de petróleo. Veja
Os chineses e os indianos são, hoje, mais criativos do que
os americanos? Johnson Até agora, os chineses e
os indianos meramente irritaram os americanos. Eles conseguem produzir novas idéias?
Até o momento, nada provou que eles sejam capazes de inovar. Apenas avançaram
em espaços já existentes. A China fez isso com sua indústria
pesada, formada por fábricas ultrapassadas que produzem produtos baratos
para exportação e garantem retorno rápido. A Índia,
por sua vez, arranhou os Estados Unidos com um bem-sucedido comércio intercontinental
de comunicação via call centers. Se a China e a Índia não
produzirem novas idéias além dessas, vão estagnar, como o
Japão. Veja
Qual dos dois países tem mais chance de ser bem-sucedido em termos de
crescimento? Johnson A Índia, porque é um
país onde existe liberdade. Novas idéias somente emergem onde as
pessoas são livres para pensar. Além disso, a Índia, apesar
de ser uma sociedade de castas, tem uma elite fluente em inglês, o que permitiu
ao país pular da era industrial para uma era de comunicação
avançada. Bangalore, a capital indiana da alta tecnologia, é uma
cidade totalmente imersa no século XXI. A Índia parece bastante
atrasada devido a suas tradições, muito preciosas, por sinal, mas
está criando as bases para um futuro formidável. O clima de liberdade
privilegia o país. Veja
Se a liberdade privilegia a Índia, como se explica o crescimento
acelerado da China? Johnson A China conseguiu se livrar
do legado terrível do marxismo primitivo de Mao Tsé-tung, mas não
será um competidor à altura da Índia enquanto não
desmantelar por completo seu sistema comunista. O país ainda depende do
trabalho escravo, assim como de camponeses mal remunerados recém-chegados
às cidades. Não está investindo o suficiente em alta tecnologia,
a não ser a militar, erro já cometido pelos soviéticos. A
China tem de substituir sua elite comunista por uma sociedade inovadora, com o
seu próprio dinamismo de idéias, ou entrará em colapso. Se
funcionar, será a grande lição da era moderna.
Veja Enquanto a Ásia cresce, a América
Latina continua presa aos problemas econômicos e sociais de sempre. Qual
a explicação? Johnson O problema da América
Latina está na sua origem histórica. A forma como foi colonizada,
destrutiva e negativa desde o princípio, repercute até hoje na desorganização
política, econômica e social. Não há estabilidade,
o que acaba diminuindo a liberdade. O Brasil, por exemplo, desde o descobrimento
nunca teve uma elite criativa e pragmática comparável à geração
de George Washington e Thomas Jefferson nos Estados Unidos, gente capaz de organizar
o país e direcioná-lo. Uma solução para melhorar o
que está estragado é investir na educação. A educação
permite a liberdade de idéias e o progresso. Bons exemplos são Coréia
do Sul, Taiwan e Cingapura. Veja
Como o senhor definiria um homem criativo? Johnson
É impossível definir criatividade, assim como não se
define genialidade. O estudo dos grandes criadores revela dois fatos. O primeiro
é que ninguém cria no vácuo. Todas as civilizações
evoluem de sociedades anteriores. Também ninguém vira um grande
criador por sorte. Todo ato criativo, mesmo quando ele surge num lampejo, é
fruto de muito trabalho, estudo e conhecimento.
Veja Quem o senhor apontaria como uma pessoa
de extrema criatividade? Johnson William Shakespeare, sem
dúvida nenhuma, é a pessoa mais criativa da história. Esse
dramaturgo inglês do século XVI alcançou o entendimento da
personalidade humana em todas as suas manifestações, da forma como
o ser humano interage em todas as situações possíveis. Era
dono de uma imaginação de altíssimo nível, bem como
de uma habilidade com as palavras até hoje nunca igualada.
Veja Ao falar sobre o próximo livro
de sua trilogia, Os Heróis, o senhor disse que o Ocidente precisa
urgentemente de pessoas com esse perfil. Por quê? Johnson
Os heróis inspiram, motivam e, no mínimo, legitimam uma guerra
que está sendo travada. Eles nos ajudam a distinguir o certo do errado
e a compreender os méritos morais da nossa causa. Não existe ninguém
hoje no Ocidente com esse perfil. Já o Oriente Médio tem seus heróis.
Osama bin Laden, por exemplo. Por mais monstruoso que possa ser, ele encarna a
figura do herói. É líder de milhares de muçulmanos,
escapou do mais poderoso Exército do planeta e inspira centenas de seguidores.
Faz parte de um grupo que convence jovens a se explodir por uma causa. Esses jovens,
por sua vez, também se transformam em heróis aos olhos do mundo.
São pessoas que tiram a própria vida para lutar contra os tanques
israelenses. Isso faz com que muitos observadores da guerra ao terror se sensibilizem
com a causa islâmica. Veja
Quem o senhor citaria como herói do Ocidente? Johnson
O último herói americano foi Ronald Reagan. Na Inglaterra,
Margaret Thatcher. Na Igreja Católica, João Paulo II. Todos foram
grandes líderes, com características de heróis. Provavelmente
estarão em meu próximo livro. Veja
Ronald Reagan? Johnson Sim. Muita bobagem
foi escrita sobre ele. Reagan era um homem de pensamentos claros e determinado
em seus objetivos. Tinha poucos méritos acadêmicos, mas era um orador
de primeiríssima linha. Enfatizou a necessidade da democracia e dos direitos
humanos. A história mostra que os melhores líderes políticos
são exatamente assim. Têm poucas idéias, mas elas são
muito bem executadas. Assim foram Winston Churchill, Charles de Gaulle e Margaret
Thatcher. Veja O
presidente Bush tem chance de ser visto como um herói? Johnson
Bush é um bom administrador, com um forte poder de decisão.
Mas tem uma imagem pública excepcionalmente ruim.
Veja O senhor defendeu a invasão do
Iraque em 2003. Os resultados desastrosos dessa guerra o fizeram mudar de opinião? Johnson
Não encaro os resultados como desastrosos. Ao destruírem
os regimes perversos do Afeganistão e do Iraque, prenderem seus líderes
ou transformá-los em fugitivos, os Estados Unidos estão mandando
uma mensagem importante para outros ditadores violentos e perigosos, como o presidente
do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que insiste no enriquecimento de urânio
e, além de tudo, propaga mentiras anti-semitas.
Veja Por que o presidente iraniano parece
não temer os Estados Unidos? Johnson O presidente
iraniano tem como modelo Adolf Hitler. O que aconteceu com Hitler? O perigo do
avanço em programas nucleares e na produção de armas de destruição
em massa em países do Oriente Médio existe e precisa ser combatido
pelos americanos. Só os Estados Unidos podem conter o Irã, talvez
com alguma ajuda da Inglaterra, caso Tony Blair permaneça como primeiro-ministro.
O resto da Europa é totalmente inútil e dispensável.
Veja A política
externa dos Estados Unidos provocou o crescimento do antiamericanismo, principalmente
na Europa. Como europeu, o que o senhor acha disso? Johnson
Justamente por ser europeu, posso afirmar que o antiamericanismo na Europa meramente
reflete a frustração e a fraqueza européias. A inveja da
América tornou-se um aspecto importante da política externa européia,
principalmente na França e na Alemanha. Os franceses acreditam que são
uma nação culturalmente superior e que os Estados Unidos querem
se impor na Europa. Acreditam que Bush e os americanos são ignorantes.
A história mostra que não é assim. Os americanos são
bons políticos e geopolíticos. A Constituição americana
tem 200 anos. Nesse tempo, a França teve mais de uma dezena de Constituições,
passou por monarquias, impérios e repúblicas. Não há
dúvidas de que existe inveja de um lado do Atlântico, mas também
existe o perigo de arrogância do outro. Essa inveja também tem fundamento
na falência européia. A Europa vem apresentando um péssimo
desempenho desde os anos 60 por causa do crescimento da burocracia, com altas
taxas de desemprego e estagnação econômica. Os Estados Unidos,
ao contrário, cresceram nos últimos 25 anos e continuam a crescer.
Veja Não é
natural que a opinião pública mundial se escandalize ao saber de
abusos cometidos por militares em prisões no Iraque ou das condições
extremas em que vivem os detidos na base de Guantánamo? Johnson
Os Estados Unidos encabeçam uma guerra internacional contra
a violência. Acabarão por vencê-la. A prisão de Guantánamo
foi criada com base numa interpretação sem precedentes da lei militar
por causa de uma ameaça sem precedentes. Apesar das críticas, o
sistema de justiça de Guantánamo tem sido uma forma de dissuadir
jovens muçulmanos que estavam decididos a tomar partido nessa guerra. Esses
jovens não temem nem o martírio nem a morte, mas eles temem ficar
trancados nessa prisão. Veja
Em um artigo, o senhor escreveu que o homem tem uma capacidade enorme
de arrumar problemas que inundam o mundo de ansiedade e que a atual preocupação
com o meio ambiente é um exemplo disso. O senhor não teme o fim
do mundo? Johnson Se eu temesse o fim do mundo, estaria
me contrariando. Seria uma prova de que não acredito na força criativa.
O Homo sapiens tem menos de 1 milhão de anos. A Revolução
Industrial ocorreu há 250 anos. A bomba atômica existe há
meio século. Os avanços têm acontecido de forma muito rápida,
numa velocidade inimaginável. Mais de 100 milhões de pessoas morreram
no século passado vítimas de regimes totalitários, mas não
foi por isso que as populações deixaram de se expandir. Acreditar
que o homem é incapaz de superar obstáculos, sejam eles naturais
ou não, é esquecer todo esse progresso. A história prova
o contrário: que temos habilidade e criatividade para vencer os desafios
que nos são impostos. Temos de aproveitar as riquezas do nosso planeta
e contar com a ajuda divina. Veja
O senhor parece otimista com a realidade. Por que recorrer à
ajuda divina? Johnson Ela é sempre necessária.
Hoje, mais do que nunca. |