Edição 1962 . 28 de junho de 2006

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Auto-retrato
Carlos Gutiérrez


Junko Kimura/Getty Images


O secretário de Comércio dos Estados Unidos é o negociador-chefe de seu país nas questões que envolvem negócios internacionais. Portanto, o homem com quem o Brasil deve conversar sobre as divergências comerciais entre os dois países. Nascido em Cuba há 52 anos, ele foi presidente da Kellogg, a multinacional dos cereais matinais. No cargo desde 2005, Carlos Gutiérrez falou ao editor Diogo Schelp no Rio de Janeiro.

AS CONVERSAÇÕES SOBRE A ÁREA DE LIVRE-COMÉRCIO DAS AMÉRICAS FRACASSARAM. POR QUE A ALCA AINDA FAZ PARTE DA RETÓRICA DO GOVERNO AMERICANO?
A colaboração, a integração e a parceria entre os países do continente fazem sentido para nós. O mundo está ficando mais competitivo e há integrações regionais em diferentes lugares. É justo que a população americana se beneficie da prosperidade que essa integração pode trazer. Chame-a de Alca ou como quiser.

AINDA É POSSÍVEL CRIAR A ALCA?
Apesar do posicionamento contrário à Alca na Cúpula das Américas de Mar del Plata, continuamos a buscar acordos de livre-comércio. Os treze anos do Nafta, a área de livre-comércio entre Estados Unidos, México e Canadá, já demonstraram como esse tipo de acordo produz benefícios mútuos. Nosso volume de comércio com o Chile aumentou 80% com o acordo bilateral. Temos acordos semelhantes com o Peru e a Colômbia e estamos em negociação com o Panamá. Concluímos recentemente a área de livre-comércio com a América Central, o Cafta.

HÁ SENTIDO EM FAZER ACORDOS BILATERAIS COM PAÍSES MENORES E DEIXAR DE FORA O BRASIL, QUE TEM O MAIOR MERCADO?
O Brasil representa um grande mercado. Reconhecemos sua influência econômica nas Américas e no mundo. Seria melhor com o Brasil? Sim. Mas, se não temos o Brasil, precisamos seguir em frente.

QUAIS SÃO OS OBSTÁCULOS NAS RELAÇÕES COMERCIAIS ENTRE BRASIL E ESTADOS UNIDOS?
Devemos partir da premissa de que há aspectos positivos nessa relação comercial de 40 bilhões de dólares. Os presidentes Lula e Bush criaram uma relação próxima e a parceria aumentou. Os Estados Unidos são o país que mais investe no Brasil e seu principal parceiro comercial. Muito ainda pode ser feito para aumentar esse comércio. Precisamos melhorar a estrutura logística, como na área portuária, para ampliar as exportações de um país para o outro. Temos também de trabalhar juntos na área de propriedade intelectual.

QUE ARGUMENTOS O SENHOR USARIA PARA CONVENCER OS BRASILEIROS DE QUE ELES TAMBÉM SE BENEFICIAM COM O COMBATE À PIRATARIA DE PRODUTOS ESTRANGEIROS?
Os brasileiros são inovadores. O Brasil cresceu e evoluiu de um país que dependia de commodities para uma nação que agora vende produtos de valor agregado. É líder em energia e está fabricando aviões. Proteger a propriedade intelectual é do interesse dos negócios e dos trabalhadores brasileiros.

OS ESTADOS UNIDOS BUSCAM ALTERNATIVAS AO PETRÓLEO E O BRASIL É O MAIOR PRODUTOR DE ETANOL. POR QUE ENTÃO COLOCAM RESTRIÇÕES À IMPORTAÇÃO DE ÁLCOOL BRASILEIRO?
Reconhecemos os avanços do Brasil na área energética. O presidente George W. Bush disse que um dos elementos de nossa estratégia energética é diversificar, o que certamente inclui o uso do etanol. Ainda estamos estudando o que fazer em relação a esse tema. Há várias opções, entre elas uma colaboração mais estreita com o Brasil.

O AVANÇO ECONÔMICO CHINÊS PREOCUPA O GOVERNO AMERICANO?
Devemos nos preocupar em ser mais competitivos, produtivos e eficientes. A economia americana cresceu 3,5% no ano passado e o desemprego está abaixo da média das últimas quatro décadas. Como conseguimos esse desempenho? Por meio da competição, tentando ser o mais produtivos possível, abrindo o nosso mercado e sendo receptivos aos investimentos estrangeiros. A palavra hoje é competitividade. O desafio de qualquer mercado é criar empregos e crescer. Essa é uma das razões para acreditar que a colaboração, a parceria e a integração da América nos ajudarão a ser mais competitivos.

 
 
 
 
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