Edição 1962 . 28 de junho de 2006

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André Petry
Moralismo de araque

"A acusação de que Lula é um bêbado é o primeiro grande exemplo de golpe rasteiro
e ofensa
pessoal na atual campanha"

A oposição deu agora para acusar Lula de ser bêbado. O primeiro a fazê-lo foi o senador José Jorge, candidato a vice na chapa do tucano Geraldo Alckmin. Num encontro partidário, embriagado pela platéia de 30.000 pessoas, disse que Lula "bebe muito, como dizem por aí". Depois de descer do palanque, questionado sobre a acusação, José Jorge confirmou, rindo: "Disse isso mesmo". Na semana passada, foi a vez do pefelista José Roberto Arruda, candidato ao governo do Distrito Federal. Durante outro encontro de tucanos e pefelistas, Arruda contou uma anedota na qual descobria que um piloto de avião era um "companheiro de boteco" e, sem citar nomes, comparou o Brasil ao avião e Lula ao piloto bêbado. "O Brasil é o avião e eu não gostaria de encontrar pilotando esse avião um antigo companheiro de boteco", disse Arruda, aquele que violou o painel eletrônico do Senado, mentiu da tribuna que não sabia nada da história e depois confessou da tribuna que sabia da história toda – e renunciou ao mandato para fugir da cassação. Fez tudo isso sóbrio.

A acusação de que Lula é um bêbado é o primeiro grande exemplo de golpe rasteiro e ofensa pessoal na atual campanha. O jogador Ronaldo, que agora voltou a ser fenômeno, pode dizer essas diatribes porque não é político e vive de jogar futebol – além de estrelar comercial de cerveja, é claro, que dá mais dinheiro. A oposição, não. É baixaria que deseduca. A tentativa de desmoralizar um adversário ao acusá-lo de beber demais é uma tacada do velho moralismo de araque, que associa a bebida à malandragem e sugere altas virtudes na abstinência. Não é casual que, ao acusar Lula de beber demais, José Jorge tenha emendado que ele é "um presidente que não trabalha". Faz sentido que Lula seja acusado de corrupto, como a oposição tem feito com base em investigações que trazem indícios monumentais de que ele sabia de tudo o que ocorria no seu governo – e a corrupção é um crime. Beber não é crime. Na mais extremada e dolorosa das hipóteses, é doença.

A família de Lula tem um histórico dramático de excessos com a bebida. No monumental livro Lula, o Filho do Brasil, escrito pela jornalista Denise Paraná, fica-se sabendo que sua avó materna, a vó Otília, "era muito bonita, mas bebia que nem a peste" e que seu pai, Aristides, "se pudesse beber cinqüenta pingas, ele bebia". A bebida já levou um irmão de Lula à internação clínica e um meio-irmão à morte. É público que Lula gosta de beber – prefere uísque, ao contrário do folclore que lhe atribui gosto pela cachaça – e não há problema algum nisso. O problema seria o excesso, mas também não se tem notícia disso, nem de que a bebida tenha causado qualquer prejuízo ao cumprimento de suas funções presidenciais. Assim, a tentativa de criminalizar o gosto de Lula pela bebida não passa de um ranço moralista. Talvez haja, aí, até mesmo um pouco do eco do preconceito social, que acha elegante o acadêmico beber vinho mas não tolera que o operário beba cachaça.

Winston Churchill salvou a Inglaterra do nazismo e também gostava de beber – no almoço, no jantar e antes de se deitar, diariamente. Quando seus soldados estavam nos arredores de Paris, conclamou: "Lembrem-se, cavalheiros. Não é só pela França que estamos lutando, é também pelo champanhe!". Seria pedir demais que nossa oposição tivesse um pouquinho do humor de Churchill?

 
 
 
 
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