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André
Petry
Moralismo de araque
"A acusação de
que Lula é um bêbado é o
primeiro grande exemplo de golpe rasteiro
e ofensa pessoal na atual campanha"
A oposição deu agora
para acusar Lula de ser bêbado. O primeiro a fazê-lo
foi o senador José Jorge, candidato a vice na chapa do tucano
Geraldo Alckmin. Num encontro partidário, embriagado pela
platéia de 30.000 pessoas, disse que Lula "bebe muito, como
dizem por aí". Depois de descer do palanque, questionado
sobre a acusação, José Jorge confirmou, rindo:
"Disse isso mesmo". Na semana passada, foi a vez do pefelista José
Roberto Arruda, candidato ao governo do Distrito Federal. Durante
outro encontro de tucanos e pefelistas, Arruda contou uma anedota
na qual descobria que um piloto de avião era um "companheiro
de boteco" e, sem citar nomes, comparou o Brasil ao avião
e Lula ao piloto bêbado. "O Brasil é o avião
e eu não gostaria de encontrar pilotando esse avião
um antigo companheiro de boteco", disse Arruda, aquele que violou
o painel eletrônico do Senado, mentiu da tribuna que não
sabia nada da história e depois confessou da tribuna que
sabia da história toda e renunciou ao mandato para
fugir da cassação. Fez tudo isso sóbrio.
A acusação de que
Lula é um bêbado é o primeiro grande exemplo
de golpe rasteiro e ofensa pessoal na atual campanha. O jogador
Ronaldo, que agora voltou a ser fenômeno, pode dizer essas
diatribes porque não é político e vive de jogar
futebol além de estrelar comercial de cerveja, é
claro, que dá mais dinheiro. A oposição, não.
É baixaria que deseduca. A tentativa de desmoralizar um adversário
ao acusá-lo de beber demais é uma tacada do velho
moralismo de araque, que associa a bebida à malandragem e
sugere altas virtudes na abstinência. Não é
casual que, ao acusar Lula de beber demais, José Jorge tenha
emendado que ele é "um presidente que não trabalha".
Faz sentido que Lula seja acusado de corrupto, como a oposição
tem feito com base em investigações que trazem indícios
monumentais de que ele sabia de tudo o que ocorria no seu governo
e a corrupção é um crime. Beber não
é crime. Na mais extremada e dolorosa das hipóteses,
é doença.
A família de Lula tem
um histórico dramático de excessos com a bebida. No
monumental livro Lula, o Filho do Brasil, escrito pela jornalista
Denise Paraná, fica-se sabendo que sua avó materna,
a vó Otília, "era muito bonita, mas bebia que nem
a peste" e que seu pai, Aristides, "se pudesse beber cinqüenta
pingas, ele bebia". A bebida já levou um irmão de
Lula à internação clínica e um meio-irmão
à morte. É público que Lula gosta de beber
prefere uísque, ao contrário do folclore que
lhe atribui gosto pela cachaça e não há
problema algum nisso. O problema seria o excesso, mas também
não se tem notícia disso, nem de que a bebida tenha
causado qualquer prejuízo ao cumprimento de suas funções
presidenciais. Assim, a tentativa de criminalizar o gosto de Lula
pela bebida não passa de um ranço moralista. Talvez
haja, aí, até mesmo um pouco do eco do preconceito
social, que acha elegante o acadêmico beber vinho mas não
tolera que o operário beba cachaça.
Winston Churchill salvou a Inglaterra
do nazismo e também gostava de beber no almoço,
no jantar e antes de se deitar, diariamente. Quando seus soldados
estavam nos arredores de Paris, conclamou: "Lembrem-se, cavalheiros.
Não é só pela França que estamos lutando,
é também pelo champanhe!". Seria pedir demais que
nossa oposição tivesse um pouquinho do humor de Churchill?
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