Edição 1 655 -28/6/2000

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LIVROS

 
Carlos Fenerich
J. Miranda
Freyre: reedição de luxo

Intérpretes do Brasil, vários autores (organização de Silviano Santiago; Nova Aguilar; 4.701 páginas; 138 reais) – O número de páginas e o preço desta sugestão não devem assustar ninguém. Estamos falando em nada menos do que treze obras, reunidas em três volumes luxuosamente editados. Se o leitor resolvesse comprar cada um desses títulos separadamente, acabaria desembolsando muito mais: algo em torno de 365 reais. Mas, para além da pechincha, o que interessa mesmo é a qualidade do material. Pois bem: todos os treze livros são clássicos da cultura brasileira, tais como O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco, Os Sertões, de Euclides da Cunha, Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, ou Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. E não é só. Cada um deles vem precedido de um ensaio especial, redigido por um intelectual de peso. O resultado é em geral excelente e ajuda a ler, ou reler, essas obras fundamentais de análise do país. Destaque para o texto do historiador José Murilo de Carvalho a respeito de As Populações Meridionais do Brasil, de Oliveira Vianna. É um excelente retrato intelectual do país no começo do século.

A Vida dos Insetos, de Victor Pelevin (tradução de Lia Wyler; Rocco; 184 páginas; 23 reais) – Embora os figurões da crítica local o olhem com desconfiança, procurando ignorá-lo quando não o atacam, o russo Victor Pelevin é extremamente popular entre os jovens de seu país. Seu último romance, Geração P, foi um grande best-seller no ano passado, com vendas de 200.000 exemplares. Pelevin é um dos poucos escritores russos que conseguem viver exclusivamente de seu trabalho. É também um personagem curioso, adepto do zen-budismo, das calças de couro e dos óculos escuros. Ao contrário de outros romancistas de seu meio, obcecados pelo período anterior à queda do comunismo, ele não fala muito sobre o passado soviético. Prefere abordar os problemas do presente. A Vida dos Insetos é uma fábula política esquisita e divertida, cujos personagens são insetos e humanos ao mesmo tempo, que se metamorfoseiam no decorrer da história. Entre os personagens, há mosquitos contrabandistas de sangue, um besouro órfão e uma sedutora formiga rainha.

 

DISCOS

Deutsche Grammophon
J. Miranda
O inglês Pinnock: fiel a Bach

Concertos de Brandemburgo, The English Concert & Trevor Pinnock (Universal) – Quem perdeu as apresentações do regente inglês e seu conjunto no Brasil, em maio passado, pode redimir-se comprando esses dois excelentes CDs. Eles trazem na íntegra um dos ciclos mais celebrados do repertório de Johann Sebastian Bach (1685-1750). A gravação é fiel ao espírito do compositor. A orquestra usa instrumentos de época e faz uma bem equilibrada mistura entre austeridade alemã e vivacidade mediterrânea. Os Concertos de Brandemburgo são uma homenagem do maestro de Leipzig à música italiana. Essa dualidade transparece na interpretação de Pinnock.

Third World Cop, vários intérpretes (Trama) – O filme homônimo ainda não estreou por aqui, mas isso é o de menos: sua trilha sonora serve de vitrine para os novos talentos da música jamaicana. Não se trata de reggae tradicional. Os artistas do disco incorporam vibrantes ritmos eletrônicos e fraseados de rap. Uma rapaziada insolente, cujas letras – que falam sempre de violência – deixariam Bob Marley de tranças em pé. Como Man a Bad Man, em que a rapper Lady G enumera as maldades de um facínora. Outro destaque é a bela trilha instrumental, executada pela dupla Sly Dunbar e Robbie Shakespeare, nomes de ponta da música pop negra.

 

TELEVISÃO

Trama Macabra (Family Plot, Estados Unidos, 1976. Sábado às 21h45, no Telecine 3) – Na época de seu lançamento, o último filme de Alfred Hitchcock (1899-1980) foi recebido com sorriso amarelo pelos críticos – seria, para eles, uma obra menor do mestre do suspense. Trama Macabra realmente não tem o ritmo sufocante de Psicose ou Frenesi. Mas não se engane: trata-se de um filmaço de mistério. Sua amalucada história envolve uma vidente charlatã, seu namorado taxista, um joalheiro bandidão e sua parceira no crime. Estreando só agora na TV por assinatura, a fita contém qualidades insuspeitas do cineasta, como os planos longos e os diálogos sutilmente sarcásticos. É de arrepiar.

 

OS MAIS VENDIDOS — Crítica

Por muito tempo, o único produto de exportação da Noruega foi o bacalhau. Hoje, o país pode orgulhar-se também dos livros de Jostein Gaarder. Esse ex-professor secundário alcançou a fama em 1991, depois de lançar o romance juvenil O Mundo de Sofia. Desde então, tudo que faz é sucesso. Nada muda com este O Livro das Religiões (tradução de Isa Mara Lando; Companhia das Letras; 315 páginas; 26,50 reais), que Gaarder escreveu em colaboração com outros dois autores nórdicos, Victor Hellern e Henry Notaker. O livro aparece há seis semanas na lista de mais vendidos de VEJA.

Assim como O Mundo de Sofia procurava expor aos adolescentes a história e os conceitos mais importantes da filosofia, O Livro das Religiões descreve as crenças de diferentes épocas e de diferentes povos. O primeiro livro tinha um enredo ficcional com toques de mistério, enquanto este novo lançamento tem formato de ensaio. É mais para os jovens consultarem de vez em quando, se quiserem ter uma idéia do que seja sufismo ou xintoísmo, do que para lerem de uma tacada só. Seu aspecto mais simpático é a ausência de preconceitos, a adoção de uma perspectiva pluralista com relação às religiões. O livro não procura doutrinar ninguém – exceto, talvez, na idéia de que a tolerância deve ser cultivada. Uma palavra sobre a versão nacional: a editora tomou o cuidado de convidar um cientista social, Antônio Flávio Pierucci, para redigir um apêndice a respeito das religiões afro-brasileiras. Uma ótima iniciativa, que torna o livro mais completo do que o original.

Carlos Graieb

 

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Sulina, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva; Maceió: Sodiler; Recife: Sodiler, Saraiva; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Livraria Curitiba, Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Leitura, Siciliano.