Edição 1 655 -28/6/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
O absurdo da reserva de mercado
Pânico 3, pior que o 1, mas melhor que o 2
Dinossauro, o filme da Disney para as férias
A crítica brasileira
Laços de Família, a novela educativa
Colunas
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Os mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

Notas vadias em torno
de um feriado

Procissão de Corpus Christi é,
nos dias que correm, um cortejo
de carros fugindo da cidade

Faziam-se procissões, no Brasil, antes de haver Brasil. Ainda nas caravelas, em plena viagem, os tripulantes alinhavam-se atrás do padre – sempre havia um padre – e encenavam a piedosa caminhada, por estreito que fosse o espaço do convés, por bravo que estivesse o mar. Impossível deixar de marcar um dia santo com uma procissão. E, como havia muitos dias santos, se faziam muitas procissões. Onde houvesse um ajuntamento desse santo povo que é o português, no mar, em ilhas ignotas, no Oriente ou Ocidente, se faria uma. Antes de ser realizada a Primeira Missa, houve uma procissão, ou um arremedo de procissão. Isso ocorreu, segundo relata o escrivão Pero Vaz de Caminha, no momento de transportar a cruz até o lugar onde ela deveria ser plantada. O grupo encarregado da tarefa o fez cantando, "em maneira de procissão". Até os índios aderiram, e vieram atrás.

Não se fazem mais procissões como antigamente. Sim, elas ainda existem. O feriado de Corpus Christi, celebrado na última quinta-feira, é um de seus dias. Em cidades do interior se fazem tapetes de flores, por onde elas vão passar. Quando falta assunto, os noticiários da TV mostram o espetáculo, à noite. Se as procissões ainda existem, é porém como um exotismo. Em Ouro Preto e outras cidades mineiras, a Semana Santa é marcada por procissões que atraem bom número de visitantes. Alguns acorrerão por devoção, mas a maioria por impulso parecido àquele com que se vai ver, por exemplo, a troca da guarda da rainha, em Londres. É a visita a um outro tempo. O reencontro com um pedaço da Idade Média.

 

A procissão, como marcha solene pelas cidades, tem sua sucessora, nos dias que correm, nesse fenômeno tão exemplar da vida contemporânea que é a passeata. Não é mais o culto que se expõe na rua, é a causa, não as velas acesas, e sim as faixas de protesto, mas é a mesma a cenografia de um povaréu que serpenteia pelos espaços públicos no intuito de exibir força e união na manifestação de fé em alguma coisa, divina ou terrena. Não só pelo número de aderentes como pela repercussão que causam e os efeitos que produzem, as passeatas, seja de grevistas, seja de sem-terra ou mesmo "do orgulho gay", como a que estava programada para o fim de semana em São Paulo, gozam hoje de prestígio incomparavelmente maior que as procissões. Eis uma diferença entre os dias de hoje e os de ontem. À era da devoção, substituiu-se a era da reivindicação.

Ou, melhor, pensando bem...

Considere-se o que ocorre numa cidade como São Paulo. Às 19 horas da última quarta-feira, véspera do feriado de Corpus Christi, havia, segundo as medições que o órgão responsável pelo trânsito costuma fazer na cidade, 202 quilômetros de congestionamento. Era a segunda maior marca do ano, só superada pelos 204 do início da Semana Santa. Tanto num caso como no outro, os congestionamentos eram provocados pela demanda maciça, peremptória e alucinada pela saída da cidade. Dia santo hoje é dia de ir à praia.

Donde se segue que o que se escreveu acima está tudo errado. Não é a manifestação a sucessora da procissão. É o cortejo de automóveis, rumo às estradas. Não é a era da reivindicação. É a era da fruição que se substituiu à era da devoção.

 

Já não houve separação entre Estado e Igreja, no Brasil? Sim, houve. Então, por que o Estado permite a existência de feriados religiosos? Porque do contrário ofenderia os sentimentos religiosos do povo. Mas então por que não fazer feriado também nas datas sagradas das outras religiões, em vez de limitar-se às católicas? Porque os católicos são maioria. Mas todos não são iguais perante a lei, sem diferença de sexo, idade ou crença?

Se isso está parecendo diálogo do Arc, o marciano que costuma freqüentar outra parte desta revista, não é mera coincidência. É que, se um marciano desembarcasse no Brasil, haveria de deparar com tais enigmas. E não só no Brasil. Até na França, onde se chegou a fazer uma sangrenta revolução para consagrar a separação entre Igreja e Estado, os feriados religiosos – e só os católicos – continuam existindo. O marciano poderia confortar-se imaginando que, bom, já que o povo deseja ir à igreja e acompanhar as procissões, nos dias santos, então compreende-se que o Estado lhe ofereça um feriado, mas então... Então lhe informam que – não, o que a maioria faz é ir à praia, ou ao sítio, ou ao parque, ou ao clube ou ao cinema. O extraterrestre é tomado de grande perplexidade.

Ora, marciano, você não entendeu nada. Santo, nos dias que correm, é o direito de pegar o carro e cair fora. De fugir para a piscina, o shopping center, o restaurante ou a discoteca. Vá alguém mexer com isso... Cai o governo. Revolução, hoje, se faria contra quem viesse a interpretar a separação entre Estado e Igreja tão ao pé da letra que viesse nos roubar esse tal dia de Corpus Christi, que ninguém sabe bem o que é, mas por cuja existência todos estamos muito gratos. Sagrado é o feriadão!