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Edição
1 655 -28/6/2000
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A procissão, como marcha solene pelas cidades,
tem sua sucessora, nos dias que correm, nesse fenômeno
tão exemplar da vida contemporânea que é
a passeata. Não é mais o culto que se expõe
na rua, é a causa, não as velas acesas, e
sim as faixas de protesto, mas é a mesma a cenografia
de um povaréu que serpenteia pelos espaços
públicos no intuito de exibir força e união
na manifestação de fé em alguma coisa,
divina ou terrena. Não só pelo número
de aderentes como pela repercussão que causam e os
efeitos que produzem, as passeatas, seja de grevistas, seja
de sem-terra ou mesmo "do orgulho gay", como a que estava
programada para o fim de semana em São Paulo, gozam
hoje de prestígio incomparavelmente maior que as
procissões. Eis uma diferença entre os dias
de hoje e os de ontem. À era da devoção,
substituiu-se a era da reivindicação.
Ou, melhor, pensando bem... Considere-se o que ocorre numa cidade como São Paulo. Às 19 horas da última quarta-feira, véspera do feriado de Corpus Christi, havia, segundo as medições que o órgão responsável pelo trânsito costuma fazer na cidade, 202 quilômetros de congestionamento. Era a segunda maior marca do ano, só superada pelos 204 do início da Semana Santa. Tanto num caso como no outro, os congestionamentos eram provocados pela demanda maciça, peremptória e alucinada pela saída da cidade. Dia santo hoje é dia de ir à praia. Donde se segue que o que se escreveu acima está tudo errado. Não é a manifestação a sucessora da procissão. É o cortejo de automóveis, rumo às estradas. Não é a era da reivindicação. É a era da fruição que se substituiu à era da devoção.
Já não houve separação entre Estado e Igreja, no Brasil? Sim, houve. Então, por que o Estado permite a existência de feriados religiosos? Porque do contrário ofenderia os sentimentos religiosos do povo. Mas então por que não fazer feriado também nas datas sagradas das outras religiões, em vez de limitar-se às católicas? Porque os católicos são maioria. Mas todos não são iguais perante a lei, sem diferença de sexo, idade ou crença? Se isso está parecendo diálogo do Arc, o marciano que costuma freqüentar outra parte desta revista, não é mera coincidência. É que, se um marciano desembarcasse no Brasil, haveria de deparar com tais enigmas. E não só no Brasil. Até na França, onde se chegou a fazer uma sangrenta revolução para consagrar a separação entre Igreja e Estado, os feriados religiosos e só os católicos continuam existindo. O marciano poderia confortar-se imaginando que, bom, já que o povo deseja ir à igreja e acompanhar as procissões, nos dias santos, então compreende-se que o Estado lhe ofereça um feriado, mas então... Então lhe informam que não, o que a maioria faz é ir à praia, ou ao sítio, ou ao parque, ou ao clube ou ao cinema. O extraterrestre é tomado de grande perplexidade. Ora, marciano, você não entendeu nada. Santo, nos dias que correm, é o direito de pegar o carro e cair fora. De fugir para a piscina, o shopping center, o restaurante ou a discoteca. Vá alguém mexer com isso... Cai o governo. Revolução, hoje, se faria contra quem viesse a interpretar a separação entre Estado e Igreja tão ao pé da letra que viesse nos roubar esse tal dia de Corpus Christi, que ninguém sabe bem o que é, mas por cuja existência todos estamos muito gratos. Sagrado é o feriadão! |
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