Civilização neles
Manoel Carlos, autor de Laços
de Família, acha
que novela tem de educar. Ele está certíssimo
Ricardo Valladares
Benedito Ruy Barbosa, autor de Terra Nostra, é
o rei das sagas camponesas. Carlos Lombardi, de Uga Uga,
tornou-se conhecido pela obsessão por seios e bumbuns
de fora. A marca registrada de Manoel Carlos, o autor de
Laços de Família, é transmitir
conselhos ao público por meio de seus personagens.
Na atual novela das 8 da Rede Globo, ele vem caprichando.
A protagonista Helena, interpretada por Vera Fischer, não
pára de falar das virtudes nutritivas das saladas,
da importância de se usar camisinha nas relações
sexuais e de como o cinto de segurança pode evitar
que as pessoas se machuquem em acidentes de carro. Outros
seguem a mesma linha (veja quadro).
"Incluir esse tipo de toque nos diálogos é
uma decisão exclusivamente minha", afirma Manoel
Carlos. "Considero uma prestação de serviço.
Mais vale um personagem carismático recomendar o
uso de preservativo do que o governo gastar milhões
para dizer a mesma coisa." O autor de Laços de
Família começou a mostrar essa preocupação
em Baila Comigo, de 1981, quando o personagem doutor
Plínio, interpretado por Fernando Torres, dava dicas
de leitura à ala jovem da novela.
Ao incluir esse tipo de fala nos diálogos, Manoel
Carlos arrisca transformar seus personagens em chatos de
galochas. No entanto, graças à sua habilidade,
isso raramente acontece. Num país como o Brasil,
em que uma parcela significativa da população
não tem acesso ao ensino básico, a televisão
deve, sim, exercer uma função educativa. Seria
ótimo, por exemplo, que os protagonistas das novelas
recriminassem quem joga lixo na rua ou faz suas necessidades
nas calçadas. Outro alvo poderiam ser os pichadores
que emporcalham as paredes de casas e prédios em
praticamente todas as capitais brasileiras.
Beijos realistas Os conselhos embutidos
nas cenas de Laços de Família têm
seu avesso nas frases politicamente incorretíssimas
das duas personagens prostitutas, interpretadas por Giovanna
Antonelli e Vanessa Mesquita. Elas costumam criticar quem
ganha a vida de maneira mais ortodoxa e fazem a apologia
de sua antiquérrima profissão. Embora tudo
indique que ambas deverão sofrer revezes e mudar
de ramo, muitos espectadores já enviaram protestos
à emissora. Além disso, há quem ache
que os beijos de Vera Fischer e Reynaldo Gianecchini andam
realistas demais. Para estes, Laços de Família
não é tão família assim.
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