Edição 1 655 -28/6/2000

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A muleta da lei

Reserva de mercado para o cinema nacional cai
de 49 para 28 dias por ano. Mas ainda é muito

 
Divulgação

Bossa Nova: filme bom não precisa de cota de exibição

A lei criada em 1992 que obriga os cinemas brasileiros a exibir filmes nacionais durante um determinado número de dias por ano é uma peça de ficção. O governo finge que está de olho, fixando todos os anos uma cota. Os exibidores fingem que acatam. No final, todo mundo faz o que quer e ninguém é punido. Ainda bem. Afinal de contas, é um absurdo autoritário obrigar o público a assistir ao que ele não quer. Neste ano, o governo resolveu fazer diferente. Em vez de determinar arbitrariamente a cota para filmes nacionais, como vinha fazendo, nomeou uma comissão formada por cineastas e exibidores. Chegou-se a um consenso: 28 dias para cada sala de projeção. Há também uma tabela para os cinemas do tipo "multiplex" – quem tem mais de uma sala ganha um "desconto progressivo" nesse número. A idéia é incentivar os exibidores a cumprir a lei. A cota deste ano é bem menor que a do ano passado (49 dias). Esta é a boa notícia. A ruim é que a lei continua existindo e ela é, em si, um atentado à liberdade. "Melhorou mas não é o ideal, pois somos obrigados a exibir obras de pouco apelo e acabaremos tendo prejuízo", lamenta Valmir Fernandes, presidente da rede Cinemark.

Com raras exceções, cinema brasileiro é sinônimo de falta de quantidade e de qualidade. No ano passado, estrearam apenas 27 filmes nacionais. A maior parte deles era tão ruim quanto Paixão Perdida, de Walter Hugo Khouri, que ficou 21 dias em cartaz e foi visto por apenas 3.300 desavisados. Obrigar o público a assistir a porcarias como O Guarani – filme pelo qual a diretora Norma Bengell está sendo investigada por desvio de dinheiro público – é um absurdo tão grande quanto seria impor que se lessem nas escolas os artigos idiotas do surfista quarentão Paulo Lima. Quando um filme nacional cai no gosto do público, ele não precisa ser empurrado goela abaixo. Bossa Nova, de Bruno Barreto, já foi visto por 500.000 pessoas e arrecadou 3,1 milhões de reais nas bilheterias. Produções brasileiras que têm demanda de mercado, como as de Xuxa, ou qualidade artística, como Central do Brasil, ficam muito mais que 28 dias em cartaz, sem necessitar da muleta da lei. E os outros? Seria melhor para os bolsos dos contribuintes – e para a cultura brasileira – que nem fossem produzidos.

 
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