Edição 1 655 -28/6/2000

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1- Salvou minha vida
A empresa em que Jorge Luiz da Silva, de 46 anos, trabalha exige check-ups anuais. Sedentário e ex-fumante, ele tentava evitá-los por achar os compromissos profissionais mais urgentes. Neste ano, fez. Ficou sabendo que tinha uma veia entupida e duas com obstruções de mais de 60%. Dez dias depois foi operado. "O check-up me deu uma chance de vida."

2- Mudou minha vida
O empresário Mauro Terepins, 46, faz check-up anual há seis anos. Nunca um exame deu alterado. Ele faz ginástica, mantém uma alimentação balanceada e controla o peso. Mas, como fuma desde os 16 anos, o médico sugeriu um exame a mais, a coronariotomografia ultra-rápida. Ele detectou placa de cálcio numa das coronárias. Terepins sabe que esse dado isolado não significa muito, mas assustou-se. "Parei de fumar. Era o único fator de risco."

Avanços na tecnologia e diagnósticos mais apurados transformam os exames médicos preventivos numa poderosa arma para salvar vidas e evitar doenças

Flávia Varella e Cristina Poles

Check-up já foi para pessoas doentes. No passado, quando os médicos se confundiam com um diagnóstico, submetiam o paciente a uma bateria de exames que o media dos pés à cabeça. Agora, cada vez mais pessoas sadias, em geral por volta dos 40 anos, estão sendo encaminhadas pelas empresas onde trabalham e por seus médicos para clínicas de check-up. A experiência tem sido impressionante. Com o avanço das técnicas de diagnóstico e uma enorme dose de bom senso, os médicos estão conseguindo detectar doenças em pessoas que se julgam sadias – e pegá-las quando ainda estão no estágio mínimo e podem ser combatidas com grande eficiência e uma chance de cura elevadíssima. Os centros médicos equiparam-se para oferecer atendimento de qualidade a um número crescente de indivíduos. Os aparelhos tornaram-se mais precisos, permitindo dimensionar e localizar problemas antes que se tornem de fato problemas.

Há uma nova filosofia nas clínicas. A última palavra em prevenção de doenças é o chamado "check-up personalizado" ou a medicina baseada em evidências fornecidas pela conversa disciplinada do médico com seu paciente. Significa também analisar exaustivamente o histórico clínico, os antecedentes familiares e o modo de vida do paciente antes mesmo de lhe tirar a primeira gota de sangue. Assim, ele pode ser encaminhado para exames específicos, mais adequados às suas necessidades que a batelada a que todo mundo era indiscriminadamente submetido nos check-ups do passado. O resultado de tudo isso é uma mercadoria de valor inestimável: maior quantidade de anos de vida saudável para quem aceita submeter-se a esses exames com regularidade.

 

Doente na gestação,
nasceu saudável

Ricardo Benichio
Mateus Martins
Bebê foi salvo pelo ultra-som antecipado

Descobrir doenças e curá-las antes mesmo de a criança nascer até pouco tempo atrás era coisa de ficção. Já é realidade também no Brasil. O pequeno Mateus, hoje com quase 2 anos, foi um dos pacientes pioneiros dessas técnicas de cirurgia intra-uterina. Seus pais, Alexandra de Mello Gondariz e Mauricio Martins, anteciparam a data de uma ultra-sonografia porque queriam saber logo o sexo do filho primogênito. O exame indicou que o bebê tinha problemas nos rins e nos pulmões. Os médicos desconfiaram que ele não tinha os rins e não sobreviveria. Com um ultra-som morfológico, ficou constatada a presença de líquido. A água no pulmão pressionava o coração e impedia os outros órgãos de se desenvolver.

O problema foi sanado com duas agulhas compridas enfiadas pela barriga da mãe até o bebê. Foram retirados 50 mililitros de líquido dos pulmões, um copo de água. "Foi aflitivo ver a agulha furando o nenê e saber do risco de aborto. Mas hoje nos lembramos daquilo como um momento sublime, de salvação", conta o pai. Os médicos analisaram o líquido amniótico, o do cordão umbilical e o sangue do feto para saber a causa da anomalia e se havia outro problema. Não descobriram mais nada. Com o tratamento, o bebê voltou a se desenvolver. Desde que nasceu, com mais de 3 quilos e perfeitamente normal, a única preocupação que Mateus causa a seus pais são suas peraltices.

No diagnóstico precoce, um dos maiores avanços da medicina fetal é o uso do ultra-som morfológico, capaz de identificar 90% das más-formações fetais, contra 20% dos exames comuns. Outro grande progresso é o teste de translucência nucal, que só começou a ser feito com mais freqüência nos últimos dois anos e indica com muito mais clareza se há risco de a criança ter síndrome de Down e outras alterações cromossômicas. O exame de nome difícil consiste apenas em medir a nuca do bebê por meio das imagens de uma ultra-sonografia.

O check-up talvez seja o único produto da medicina sem contra-indicações. A consulta regular com o clínico é, na maioria dos casos, suficiente para detectar grande parte dos problemas que podem atingir o adulto jovem. Por jovem entenda-se pessoas com menos de 40 anos. A partir dessa faixa etária, a medicina preventiva deve ser encarada como um fato da vida, na mesma categoria dos fios de cabelos grisalhos. Nessa fase, o organismo começa a ficar sujeito a enfermidades, o stress está no auge e um check-up anual detalhado torna-se mais urgente. Fazer um exame para descobrir um problema antes mesmo de a doença se manifestar não é mero exercício de adivinhação, nem desperdício de tecnologia e dinheiro. Muitas vezes é questão de vida ou morte (veja as tabelas 1 e 2).

Observe-se o que ocorre com os problemas cardíacos, que tiram 300 000 vidas por ano no Brasil, uma a cada dois minutos. Considerando-se as causas de morte em todas as idades, a parada cardíaca é mais mortal ainda que o câncer, o tiroteio e o atropelamento. Sabe-se que mesmo ligeiramente alterado o colesterol aumenta o risco de infarto e de derrame. Há dez anos os médicos conferem com mais rigor o índice dessa substância no sangue. Atualmente, não apenas esse exame passou a ser corriqueiro como ele é também mais preciso, detalhado, feito com muito mais freqüência. Os números sobre gorduras no sangue são pesados, tendo como pano de fundo outros fatores de risco, como a hipertensão, a glicemia, o sedentarismo e o fumo. Alguns médicos mais desconfiados pedem exames de outras substâncias relacionadas ao ataque cardíaco, como a homocisteína. Sua função ainda não é bem entendida, mas ela quase sempre aparece associada a uma disfunção do coração e pode ser medida pelos laboratórios. Alguns exames permitem enxergar dentro do coração – e até examinar a integridade do calibre das artérias. Enfim, ao atendimento preventivo atribui-se hoje a diminuição de 10% nos ataques cardíacos fatais de homens e mulheres entre 40 e 59 anos.

A segunda maior causa de mortes por razões naturais no Brasil é o câncer. Estima-se para este ano 284.000 novos casos e 114.000 mortes. O check-up alcança nessa doença os resultados mais espetaculares. Um tumor cancerígeno na próstata dobra de tamanho a cada dois anos e, nesse curto espaço de tempo, pode sair para fora da glândula. Diagnosticado em fase inicial, tem chance de cura que varia de 70% a 90%, conforme o tratamento. Depois de ter ultrapassado os limites da glândula e se espalhado pelo corpo, é praticamente incurável. Um homem que faça exames anuais de toque retal e PSA no sangue – uma proteína indicativa de câncer – dificilmente deixará de ter o diagnóstico a tempo. Só 6% dos casos escapam à combinação dos dois testes. Há alguns anos o diagnóstico precoce só podia contar com o toque retal, que não flagra 30% dos casos. Nesta década, com a disseminação da mamografia anual, as mortes por câncer de mama foram reduzidas em 30%. A mamografia de alta definição, cujo uso se popularizou nesta década, é capaz de perceber tumores de meio milímetro. Antes, as imagens borradas das radiografias não permitiam identificar a maioria dos tumores com menos de 1 centímetro cúbico. Detectados nessa fase, 90% deles têm possibilidade de cura. Se ultrapassar 5 centímetros, mata 70% das pacientes.

 

A doença escondida
no código genético

Omar Paixão
Exame de DNA
Testes para o risco de câncer: mutações

A ponta-de-lança tecnológica dos check-ups é o exame dos genes, as microscópicas sementes protéicas do núcleo das células em que se decide o futuro biológico das pessoas. Alguns desses exames já são feitos no Brasil. Com eles é possível descobrir certas doenças às quais a pessoa está biologicamente predisposta. Isso antes mesmo que qualquer sintoma tenha tido tempo de se manifestar. Muitos tipos de câncer, por exemplo, estão comprovadamente associados a alterações em um ou mais genes. Testes genéticos para identificar propensão a trombose e câncer de cólon, tireóide, mama, útero, ovário e próstata já estão disponíveis. Os exames custam entre 300 e 1 000 reais e são recomendados para quem tem histórico familiar da doença ou a desenvolveu em idade muito precoce. Comprovada a possibilidade, as medidas de prevenção são intensificadas e as chances de o paciente nunca vir a desenvolver a doença aumentam. Quem tem, por exemplo, mutação no "Fator V Leiden" corre risco cinco vezes maior de sofrer trombose, a formação de coágulos dentro dos vasos sanguíneos que podem levar a embolia pulmonar e problemas circulatórios graves. Quando a propensão genética é constatada, a pessoa deve tomar anticoagulantes por toda a vida para prevenir a doença. Quem herdou a predisposição genética para câncer de cólon tem quase 100% de probabilidade de desenvolvê-lo e, por isso, deve submeter-se anualmente a uma endoscopia para identificar pólipos, pequenas deformações do tecido que são diligentemente extirpadas para evitar que evoluam para o câncer.

Uma revolução está igualmente em curso na prevenção da osteoporose, a descalcificação severa dos ossos que afeta sobretudo as mulheres após a menopausa. Os aparelhos de densitometria óssea de última geração são capazes de perceber perdas de massa óssea a partir de 2%. Isso significa que uma jovem de 30 anos, no auge de seu vigor, pode tomar providências para evitar a osteoporose futura. Até meados da década de 80, a doença só podia ser detectada em estado avançado, quando começavam a ocorrer fraturas. O único método de diagnóstico era então a radiografia, que apenas identificava perdas superiores a 30% de massa óssea. Com o alerta precoce, pode-se brecar o processo e evitar a doença suspendendo os fatores que agravam o quadro, como álcool, cigarro e medicamentos com corticóides, bem como ingerindo mais alimentos ricos em cálcio e fazendo exercícios físicos regulares. A idéia de concentrar os exames preventivos na maratona do check-up tomou impulso nos anos 60, quando o mundo se viu fascinado com a intensidade do escrutínio médico a que eram submetidos os astronautas americanos. Só agora, contudo, nesta virada de milênio, a tecnologia deu aos médicos ferramentas que realmente permitem avançar fundo no diagnóstico e na intervenção antecipada. São coisas como os testes genéticos, que somente entraram para o arsenal da medicina preventiva nos anos 90 (veja quadro).

A avaliação preventiva feita em consultório ou clínica especializada começa com uma demorada conversa com o médico. "De nada adianta a tecnologia se ela não for empregada no caso certo", diz Nelson Carvalhais, diretor do departamento de check-up do Laboratório Fleury, em São Paulo. "Em cada pessoa devem ser investigadas doenças diferentes. Nem todo mundo tem propensão aos mesmos problemas de saúde." Nos primórdios dos check-ups simplesmente se ignoravam as evidências. Todos os pacientes passavam pela série completa de exames. Era como caçar um pato atirando para todos os lados. A pesquisa agora é bem mais focada. Tenta-se encontrar o mal antes mesmo que se revele, mas não atirando a esmo. Se a evidência não for ainda a tosse, pode ser o pai e o avô que morreram do coração ou o cigarro que o paciente acendeu na sala de espera do consultório. Quando fez seu primeiro check-up completo, há duas semanas, o administrador de empresas Sidney Rabinovitch, 43 anos, teve de passar por uma bateria de testes cardíacos e neurológicos. O médico fez essa recomendação depois de ouvir, durante a consulta, o preocupante histórico familiar de Sidney. Seu pai tem cinco pontes de safena implantadas e a mãe sofreu dois derrames. Além de procedimentos como o eletroencefalograma e o ecocardiograma, para checar respectivamente as funções cerebrais e cardíacas, Sidney submeteu-se a uma série de testes para detectar o nível de colesterol, a taxa de gordura no corpo e a capacidade aeróbica. O único problema observado foi o peso, acima do recomendável. Com 85 quilos e 1,77 metro de altura, Sidney precisa emagrecer pelo menos 2 quilos nas próximas semanas.

 

Ao prevenir, as empresas poupam

Antonio Milena
Exame em esteira
Detecção de doenças antes que elas se agravem corta custos

A corretora Merrill Lynch tem a reputação de ser a empresa americana que mais investe em check-ups de alta qualidade para seus empregados. Uma funcionária que perdeu a voz ganhou da companhia um equipamento especial sintetizador de voz que custa 6 000 dólares. Certa vez, a empresa mandou um jatinho resgatar a mulher de um funcionário que estava no Quênia, em férias, quando detectaram um coágulo em seu cérebro. O jato levou-a para ser tratada na Alemanha. Por que a Merrill Lynch investe tanto na prevenção? Por economia. "Ao oferecer excelência clínica, nós poupamos muito dinheiro", explica Kenneth Reifert, diretor de benefícios da Merrill Lynch. Nos últimos cinco anos, quando decidiu adotar a política de "excelência clínica", o grupo financeiro calcula ter economizado 6,5 milhões de dólares. No Brasil, um levantamento feito pela organização internacional Great Place to Work Institute entre as melhores empresas para trabalhar mostra que todas oferecem planos de saúde de alta qualidade. A Copesul, do ramo petroquímico, cobre despesas com psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e remédios. A Embraer oferece cobertura para dependência química e infertilidade.

A vida tem um valor humano inestimável. O assunto é delicado, mas estudos feitos por economistas da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, sugerem que esse valor pode ser medido, em moeda sonante, e que varia com a idade da pessoa. Ao observar quanto uma pessoa produz de trabalho e riqueza e quanto está disposta a gastar com equipamentos de segurança, eles concluíram que, em média, a vida de um americano vale entre 3 milhões e 7 milhões de dólares. Além do capital humano, é esse valor que uma empresa julga estar protegendo quando investe na prevenção de doenças de seus funcionários.

O administrador está numa fase de risco para o infarto. A freqüência de ataques do coração entre os brasileiros com menos de 55 anos é 40% maior que a média no resto do mundo. Doenças cardíacas e vasculares ainda são um desafio para a medicina preventiva. Não há como prognosticar com rigor o momento do infarto. Mas novos testes de sangue ajudam a detectar o risco de problemas. A investigação do colesterol, por exemplo. Além de dosar o LDL, chamado de colesterol ruim, mede-se também o HDL, o bom, porque da mesma forma que quanto mais alto for o LDL pior será para o paciente, também quanto maior o HDL, melhor. A ecocardiografia de stress, que mostra alterações de mobilidade da parede do coração, começou a ser usada há apenas três anos. Outro recurso é a cintilografia do miocárdio. O paciente ingere uma solução que percorre os vasos do organismo. Na tela do computador, os médicos acompanham a irrigação sanguínea do coração. Com esses exames, é possível identificar 80% das pessoas que têm obstrução de mais da metade de pelo menos uma artéria. O problema é que cerca de dois terços dos infartos acontecem com entupimentos menores. Por isso, os cientistas não param de buscar alternativas de diagnóstico ainda mais precisas.

Vários estudos recentes mostraram que as pessoas infartam, têm angina estável ou morte súbita pela presença de inflamação na placa arteroesclerótica. Buscou-se, então, a existência de marcadores sanguíneos indicadores dessa inflamação. Foram identificadas doze substâncias. A homocisteína e a proteína PCR são as mais importantes e já têm exames para dosagem, mas ainda são poucos os laboratórios que os fazem. Quem tem PCR alterado corre maior risco, cerca de quatro vezes e meia, de ter doença cardíaca nos três próximos anos. Alguns médicos estão animados com as possibilidades de um equipamento de 2,3 milhões de dólares, o coronariotomógrafo ultra-rápido, que detecta placas de cálcio nas artérias mesmo que a obstrução seja muito pequena. Ainda não está confirmada a relação entre placa de cálcio e a ocorrência de doença cardiovascular. Mesmo assim, muitos médicos prescrevem o exame por considerar que quanto mais informações tiverem melhor. "Essa técnica permite descobrir um problema coronariano muito no início e depois acompanhar sua evolução", diz Romeu Meneghelo, médico que pilota o único coronariotomógrafo ultra-rápido do Brasil, instalado na clínica de diagnóstico do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

A descoberta precoce de uma doença é um item cada vez mais valorizado na medicina moderna. Não apenas por razões puramente médicas, mas até por sua relevância econômica. Mais e mais empresas entendem que vale a pena os gastos com check-up de qualidade para seus funcionários porque isso economiza dinheiro ao preservar o capital humano (veja quadro). O custo de um check-up completo numa clínica de boa qualidade é de aproximadamente 1.600 reais. Nenhum plano de saúde prevê o custeio desse tipo de prevenção. Em geral, o segurado procura um médico, que então pede exames específicos que podem ou não ser cobertos pelo seguro. O Hospital Albert Einstein, um dos mais bem equipados do país, criou no ano passado uma unidade especial para diagnóstico cujo principal produto é o check-up para executivos de empresas, que já representam nove em cada dez pacientes. "O que se faz hoje é aliar a tecnologia ao perfil da pessoa", resume Fabio Nasri, diretor da unidade de diagnóstico do Albert Einstein. Se não detectar nenhum problema, o paciente volta para casa com orientações sobre como melhorar sua qualidade de vida. Se alguma coisa suspeita é percebida, entram em cena as máquinas e exames mais especializados. "Enquanto os check-ups avaliam o bem-estar, as máquinas de diagnóstico retratam qual é a gravidade do mal-estar", compara o neurocardiologista Luiz Antônio Portela, do Hospital do Coração, de São Paulo.

Os médicos costumam dizer que a parte mais importante do check-up acontece enquanto o paciente está vestido. Por três motivos. Primeiro, porque a conversa com o paciente é essencial. Segundo, porque há exames fundamentais e simples que não exigem mais do que arregaçar as mangas para tirar sangue ou abrir a boca. O glaucoma pode ser prevenido encostando uma caneta especial no olho para medir a pressão ocular. Diabetes, com uma picada de agulha. E os agressivos cânceres de boca e faringe, que matam metade de seus doentes, podem ser descobertos quando ainda inofensivos com uma boa olhada do médico na boca. Lesões pré-cancerígenas são tratáveis e levam até vinte anos para se transformar em câncer invasivo. "Em tese, bastam uma lanterna, um abaixador de língua, um espelhinho e o mínimo de conhecimento de quem examina para evitar as milhares de mortes anuais por esses cânceres", afirma o cirurgião de cabeça e pescoço Orlando Parise Junior. O terceiro motivo é a preleção sobre como o bom senso é tão eficiente quanto a tecnologia para a manutenção da saúde. Estima-se que mais da metade das doenças está relacionada ao estilo de vida. Cerca de 35% de todos os tumores estão associados ao cigarro e 15%, ao álcool. Se uma pessoa parar de fumar hoje, em pouco mais de um mês já terá o risco de ter um infarto reduzido. Entre dois e cinco anos, ele será tão pequeno quanto o de alguém que nunca pôs um cigarro na boca.

 

O diagnóstico do futuro

Sérgio Ruiz Luz

 
Ricardo Benichio

PET em operação
Câncer pulmonar no início: máquina identifica tumores com apenas 0,5 centímetro


As pesquisas de aperfeiçoamento dos aparelhos para diagnósticos avançam em ritmo acelerado. A cada dia, novos equipamentos chegam às clínicas, com um grau de precisão ais capacidade de definição de imagens. Dentro de dois anos, por exemplo, os tomógrafos dotados da nova tecnologia de "scanner em espiral" serão capazes de detectar minúsculas placas de gordura que ameaçam obstruir as artérias coronárias – a principal causa de infartos fulminantes nas pessoas com menos de 60 anos. Num futuro próximo também estarão acessíveis à maior parte da população exames com aparelhos de medicina nuclear prontos a identificar nódulos cancerígenos de apenas 0,5 centímetro –, tamanho em que ainda podem ser extirpados sem perigo para o organismo. Outra técnica vital em estágio avançado de pesquisas são os exames de marcadores moleculares para o diagnóstico do câncer. A idéia é desenvolver "biochips", verdadeiros computadores biológicos capazes de reconhecer doenças ainda no estágio molecular. Ou seja, em estruturas muito menores que as células.

A oncologia é a área mais beneficiada por esses avanços. Uma das maiores esperanças nos hospitais especializados é uma engenhoca batizada de Positron Emission Tomograph. Também conhecido sob a sigla de PET, o equipamento tem um feixe duplo de raios gama que perscrutam o corpo do paciente em busca da capacidade de consumo de glicose pelas células. O consumo de glicose em doses acima do metabolismo normal indica a existência de um foco cancerígeno na região. Essa técnica permite identificar com precisão tumores pulmonares com 0,5 centímetro. Os equipamentos convencionais só conseguem encontrar o nódulo cancerígeno quando ele atinge o dobro desse tamanho. "Parece uma diferença pequena, mas ela tem permitido antecipar em meses o início do tratamento", afirma Cláudio Meneghetti, diretor do serviço de medicina nuclear do Instituto do Coração, o único hospital do país que conta com uma dessas novas engenhocas.

 
Fotos: Divulgação

Alta definição
Imagens dos rins, do coração e do pulmão produzidas pelos novos tomógrafos: em dois anos, equipamento poderá detectar até minúsculas placas de gordura armazenadas nas artérias coronárias

Outra linha de equipamento que apresenta avanços formidáveis são os tomógrafos computadorizados. A máquina mais moderna desse tipo chegou ao Brasil recentemente, importada pelo Hospital do Coração, em São Paulo. Graças a uma nova técnica, que faz com que o feixe de raio X circunde o corpo do paciente, a definição de imagens desses aparelhos é cada vez maior. Eles são capazes de detectar hoje tumores em estágios muito precoces. Sua aplicação não é restrita ao tratamento de câncer. A cardiologia é outra área bastante beneficiada. Com essa tecnologia, que fornece imagens tridimensionais do coração, os médicos terão muito mais segurança no diagnóstico da extensão e da gravidade das lesões coronarianas. Até as perigosas crostas de gordura que entopem as artérias cardíacas, impossíveis de ser visualizadas com clareza pelos exames atuais não invasivos, vão poder ser identificadas em breve por esse equipamento.

 

Saiba mais
Da internet
  Hospital do Coração Online
  InCor
  Instituto Nacional de Câncer
  Hospital do Câncer AC Camargo