Edição 1 655 -28/6/2000

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Vizinho

Na Colômbia o crime
já venceu

O que o Brasil pode aprender com a triste
realidade do nosso vizinho mais violento

Raul Juste Lores, de Bogotá

AP
Massacres na periferia de Bogotá: índice de homicídios está entre os maiores do mundo

A criminalidade na Colômbia vem consumindo a sociedade local de tal forma que os especialistas no assunto não são os antropólogos nem os sociólogos. Surgiram os violentólogos. Na opinião deles, uma das formas mais precisas de avaliar o grau de contaminação do crime num país é a análise da relação que VEJA publica no rodapé desta página. Ela reúne 27 manifestações marcantes da violência colombiana. Há dez anos, o Brasil possuía três dessas características. Hoje, tem treze. Acredita-se que, se o combate ao crime continuar a ser travado da maneira irresponsável como vem sendo feito atualmente, o Brasil pode vir a ter dezessete itens num prazo de cinco anos. Sabe-se lá o que vai acontecer em mais dez anos, caso fracasse o plano nacional antiviolência divulgado pelo governo na semana passada. A colombização do Brasil tornaria as metrópoles, hoje assustadoras, em campos de batalha. A Colômbia tem atualmente uma média de homicídios que é o dobro da brasileira – e uma taxa de seqüestro vinte vezes maior. Se dá medo conviver com as estatísticas paulistas e cariocas, imagine o que seria viver em Medellín ou Cali, as cidades mais violentas da Colômbia.

Nosso vizinho mais violento atingiu um padrão de criminalidade sem precedentes, a ponto de 40% do território do país estar entregue a narcotraficantes, paramilitares e aos guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), um fóssil venenoso da Guerra Fria. Como conseqüência desse processo de ocupação, estima-se que quase 2% da população – 800.000 pessoas – tenha abandonado o país nos últimos dez anos com medo da violência. Calcula-se que 1,5 milhão de camponeses fugiram da violência no campo para engrossar as favelas das grandes cidades. Um terço desse total está na capital, Bogotá. É o terceiro maior número de refugiados internos no mundo. Só perde para Angola e Sudão.

Essa realidade mostra que o Brasil, por pior que pareça, realmente poderia ser um lugar mais difícil para viver. Há uma indiscutível diferença no poder de fogo das organizações criminosas nos dois países. Mas a lógica de funcionamento é a mesma. O número de seqüestros no Brasil é pavoroso, as taxas de homicídios em algumas capitais só perdem justamente para as cidades colombianas e os dois países formam juntos a rota de tráfico de drogas mais importante do mundo. A CPI do narcotráfico feita em Brasília demonstrou que, a exemplo do que acontece no vizinho, a máfia brasileira da cocaína já corrompeu autoridades nos três poderes. Outra característica em comum: os bandidos dos dois países conseguem manter arsenais que fazem as armas da polícia parecer brinquedo de criança. Em agosto do ano passado, foram presos dois homens no Pará com um avião carregado de metralhadoras, quilos de munição fabricada na Líbia e dois mísseis – um antiaéreo e um antitanque.

Em muitas nações, os crimes que mais preocupam são o furto a residências, o roubo de carros ou o assalto a mão armada. Brasil e Colômbia chegaram a um patamar tal que as pessoas se sentem abençoadas quando, vítimas de uma gangue, têm a vida poupada pelos bandidos. Os três crimes que mais assustam a Colômbia são exatamente os três pavores do brasileiro: o homicídio, o latrocínio e o seqüestro. As taxas de homicídios duplicaram na Colômbia nos últimos dez anos. No caso de seqüestro, o aumento foi ainda maior. Na década de 80, o país tinha, em média, um por dia. Agora, tem dez. Sua média de duração é de quatro a cinco meses. Bogotá está literalmente sitiada. A população evita a todo custo deixar a cidade com medo dos seqüestros, que viraram rotina nas estradas que levam ao interior. A guerrilha criou a "pesca milagrosa", ao interditar trechos das rodovias principais e selecionar entre os motoristas quais deveriam ser seqüestrados. "Apesar de muito animados, os colombianos estão se acostumando a sair menos à noite e a ter mais cuidados", conta o executivo brasileiro Ricardo Luiz Marcos, diretor da White Martins em Bogotá. O medo aumentou após a entrevista coletiva dada em abril pelo chefe militar das Farc, Jorge Briceño "Jojoy". Ele anunciou ao país a lei número 2 da guerrilha, que determina que toda pessoa física ou jurídica que possua patrimônio superior a 1 milhão de dólares deverá pagar um imposto às Farc. Quem não fizer isso será "retido" até que a quantia seja paga.

O Ministério das Comunicações colombiano cede espaço gratuito em rádios e TVs para a divulgação de campanhas institucionais e de informações sobre as vítimas. Há até um programa de rádio chamado Em Busca da Liberdade Perdida, que abre espaço para que parentes e amigos de vítimas de seqüestro lhes mandem mensagens. Há dois anos, é transmitido às quartas-feiras, com uma hora de duração. Nos feriados, estações AM e FM o retransmitem em rede nacional. No domingo 18, Dia dos Pais na Colômbia, mais de 100 familiares de vítimas de seqüestros lotavam os estúdios para tentar mandar mensagens para seus familiares. Em Busca da Liberdade Perdida está entre os cinco programas de maior audiência no país. "Houve uma democratização do seqüestro. Qualquer um, pobre, rico, camponês, de classe média, pode ser vítima, o que instaurou um clima de pânico em toda a sociedade", conta Miguel Silva Pinzón, presidente da maior editora do país, Semana, ele mesmo ameaçado de seqüestro diversas vezes. Por precaução, está sempre acompanhado de seguranças e anda em carro blindado.

Só na Colômbia ocorrem casos como o do engenheiro Alfonso Manrique Van Damme, que esteve seqüestrado entre 1995 e 1997 pelas Farcs. Depois de ser trocado 23 vezes de cativeiro, tentou fugir uma vez e foi recapturado. Liberado após o pagamento do resgate, o engenheiro descobriu que um sobrinho seu de 15 anos passara quatro meses em cativeiro enquanto ele estava seqüestrado. Logo depois, um primo foi seqüestrado e ficou quase dois anos em cativeiro. Cinco empregados de seu escritório de engenharia foram seqüestrados nos últimos quatro anos, o último no mês passado. Van Damme é hoje diretor da ONG Fundación País Libre, que dá apoio às vítimas de seqüestro e seus familiares. Devido ao risco de viver na Colômbia, os executivos estrangeiros chegam a ganhar 20% de aumento no salário e pacotes de moradia. "A maioria dos executivos economiza muito em sua estada na Colômbia porque o custo de vida é a metade do de seu país de origem e porque recebe casa, colégio para os filhos, carro e viagens de férias pagos", conta o consultor Germán Herrera, da Egon Zehnder Executive Research, uma empresa que ajuda a "caçar" executivos no exterior.

Cenas típicas do cotidiano dos colombianos já são assustadoramente comuns no Brasil. Nos morros cariocas há zonas de domínio completo do tráfico. No interior do Nordeste existe uma região conhecida como polígono da maconha, onde se planta a droga e a criminalidade explodiu. No ano passado, o governo organizou a maior operação policial e militar da década para desalojar plantadores de maconha que sujeitavam a população. A ação surtiu efeito, mas poderia ter sido mais eficiente se o governo não tivesse anunciado o plano de ataque em entrevista coletiva. O índice de homicídios nas periferias de São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória e Recife é próximo ao das cidades mais violentas da Colômbia. Na semana passada, vinte homens armados com metralhadoras e fuzis resgataram 25 bandidos perigosos de uma penitenciária de segurança máxima no interior de São Paulo. Agiram com a audácia dos chefões para liberar da cadeia um líder de quadrilha. Operações desse tipo só funcionam porque o crime está rendendo, e muito. As chacinas eram uma peculiaridade colombiana. Há alguns anos, começaram a ser registradas em São Paulo e agora já ocorrem por quase toda a parte. Pernambuco registrou vinte chacinas neste ano, com setenta mortos.

Os colombianos levaram tempo demais para perceber o alcance da criminalidade gerada na esteira do narcotráfico. Na década de 80, quando floresceram os poderosos cartéis do pó, a Justiça tratava o tráfico de drogas como simples contrabando. Não existiam penas específicas para o crime de tráfico e os chefões viveram anos de vacas gordas. As fatias mais carentes da população tratavam os traficantes como seus benfeitores porque eles lhes davam emprego e proteção – quem já não viu esse filme nas favelas cariocas? Por uma década, o tráfico na Colômbia foi monopólio de apenas dois cartéis, o de Cali e o de Medellín. Essa reserva de mercado imposta na marra ajudou a lançar as bases de um negócio internacional, sólido e hiperlucrativo. Entre 1982 e 1998, os traficantes movimentaram 30 bilhões de dólares, segundo estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU). Pablo Escobar, dono do cartel de Medellín, chegou a ser o colombiano mais famoso do mundo, ao lado do escritor Gabriel García Márquez. Vitaminado por lucros exorbitantes, no começo da década de 90 o tráfico conquistou um poder assustador. Nas eleições de 1990, cinco candidatos à Presidência foram assassinados, mais de 100 juízes e um quinto dos prefeitos do país foram mortos. "O negócio cresceu muito, e ninguém se deu conta, só começou o combate quando a corda estava no pescoço", diz o general Rosso Serrano, ex-comandante da Polícia Nacional. "Há 25 anos, a Colômbia era um modesto produtor de maconha. E ninguém ligava. Hoje, é o primeiro produtor mundial de cocaína e segundo de heroína."

O processo de desmantelamento da sociedade colombiana contém um ingrediente que o Brasil desconhece: os guerrilheiros. Desde a década de 80, as florestas colombianas estavam coalhadas de guerrilheiros que pregavam a revolução socialista. Até ingressar no negócio das drogas, eles não assustavam ninguém. Não passavam de exércitos de esfarrapados armados com fuzis russos. Com o dinheiro da cocaína e da heroína, eles se equiparam e se expandiram. Estima-se que vaguem pela Colômbia cerca de 30.000 narcoguerrilheiros fortemente armados. O que começou como uma questão policial acabou em conflagração. Há dois anos, o governo tenta, sem sucesso, dialogar com os narcoguerrilheiros. O resultado é que o país está à beira da maior ofensiva militar conduzida na América desde a Guerra das Malvinas, em 1982. Na próxima semana, o presidente Andrés Pastrana embarca para a Europa com a missão de recolher ajuda em dinheiro para apertar a ofensiva contra os narcoguerrilheiros.

 
AP
A guerra contra o pó: repressão aumentou, mas não conseguiu deter o tráfico de drogas

As autoridades colombianas conviveram durante anos com índices de criminalidade intoleráveis e decidiram iniciar o combate tardio ao banditismo. Eleito em 1990, o presidente César Gaviria conseguiu acabar com o cartel comandado por Pablo Escobar e seu sucessor, Ernesto Samper, e desmantelar o de Cali. Com a chegada ao poder de Pastrana, o governo americano começou a colaborar com as Forças Armadas locais e a investir na luta antinarcotráfico. Alguns indicadores de violência baixaram, mas o poder dos criminosos continua alto. Apesar dos esforços de repressão, a produção de cocaína aumentou quase dez vezes. Mais de cinqüenta novos cartéis apareceram na Colômbia. Regra macabra: de onde se tira um chefão, outros menores aparecem. A explicação para isso é econômica. Na Colômbia e no Brasil, o tráfico está organizado de forma empresarial. A prisão do chefe da empresa não basta para liquidar o negócio. Sem perceber, o Brasil já conhece essa lição. A prisão do traficante Marcinho VP, o sumiço de Fernandinho Beira Mar, nada disso deteve o tráfico no Rio de Janeiro. Pelo contrário. Os morros estão cada vez mais perigosos. O governo colombiano pede agora aos Estados Unidos 1,6 bilhão de dólares para investir em equipamento e enfrentar os narcotraficantes. Os especialistas dizem que vale no combate ao crime a lógica da medicina. Uma pequena infecção pode ser tratada com um simples antibiótico. Uma vez que se alastra pelo organismo, é preciso operar ou, nos casos irreversíveis, encomendar a extrema-unção. "O Brasil já precisa de uma cirurgia", diz o senador colombiano Enrique Gomez.

 

Cenas de uma nação em pânico

A família do engenheiro civil Miguel Ángel Belza acertava na semana passada os últimos detalhes para deixar a Colômbia. Ele se demitiu do emprego e vendeu o apartamento e a casa de campo. Como muitos colombianos de classe média, eles vão para a Europa com medo dos seqüestros. O crime é tão comum que surgiu um programa de rádio em que parentes enviam mensagens às vítimas. Está entre os cinco de maior audiência.

Fotos: Ariana Cubillo/AP

Escapando do crime – Os Belza (acima), que vão deixar o país, e um camponês que abandonou o campo. Os bandidos fazem as leis
Rádio Seqüestro – Programa destinado às vítimas de seqüestros e seus familiares vai ao ar toda semana em rede nacional

 

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