A culpa é da inflação
Ilustração Pepe Casals
 |
Brasileiros falam demais. Ninguém
consegue ficar calado por mais de cinco minutos. É
a doença nacional. Basta entrar numa fila de banco,
de cinema ou de supermercado que as pessoas logo começam
a bater papo com você. É o único país
do mundo, por exemplo, em que motoristas de táxi
puxam conversa com os passageiros. Se os passageiros respondem
com monossílabos, os motoristas continuam a falar.
Deveria ser como nos táxis americanos e ingleses,
em que há um vidro separando o banco dos passageiros
do motorista. Possivelmente, um vidro à prova de
balas. Desse modo, além de limitar a conversa, o
vidro protegeria os motoristas dos assaltos e eles parariam
de falar sobre a violência, voltando a assuntos mais
tradicionais como trânsito, futebol ou previsão
do tempo.
O caso do seqüestro do ônibus
no Rio de Janeiro foi um prato cheio para os motoristas
de táxi logorréicos. Contra a minha vontade,
ouvi mais de vinte motoristas de táxi falando a esse
respeito. Mas falar sobre a violência não é
privilégio dos motoristas. Todos os colunistas da
imprensa comentaram a tragédia. O melhor foi Roberto
Pompeu de Toledo, na última edição
de VEJA. Fiquei com inveja do artigo dele. Quanto aos outros,
disseram exatamente as mesmas coisas que os motoristas de
táxi. Os colunistas contrários ao governo
afirmaram que a violência era o resultado direto da
miséria e do desemprego, provocados pela nossa atual
política econômica, ditada pelo FMI. Os colunistas
favoráveis ao governo mudaram radicalmente o enfoque,
afirmando que a violência era fruto do acúmulo
de 500 anos de miséria.
Nenhuma das duas teorias me convence.
Acho que a miséria presente e a miséria passada
justificam um nível fisiológico de violência,
que pode ser maior ou menor, dependendo da conjuntura, mas
não explicam a violência estratosférica
dos dias de hoje. Para mim, a origem da atual explosão
de violência encontra-se na hiperinflação
dos anos 80. Dê uma espiada na idade dos criminosos
que andam por aí. A maioria deles nasceu ou cresceu
naquela década maléfica. Os requintes de sadismo
que aplicam contra os comerciantes só podem ser motivados
pelo fato de, durante a hiperinflação, os
salários se desvalorizarem ao longo do mês,
enquanto os comerciantes se defendiam remarcando os preços
diariamente. A hiperinflação destruiu as bases
da convivência civil.
Quem melhor falou sobre isso foi
o escritor Elias Canetti, em seu livro Massa e Poder.
Ele descreve a explosão de ódio na Alemanha
inflacionária, após a I Guerra Mundial. Hitler
e o nazismo brotaram do ressentimento e da histeria coletivos
gerados pela hiperinflação. Por que o Brasil
não pode ter produzido seus pequenos monstros nesse
período?
O problema, agora, é saber
como combatê-los. Fernando Henrique Cardoso sempre
foi criticado por sua falta de coragem. Pois foi muito corajoso
ao dizer, logo depois do seqüestro do ônibus,
que a solução para a violência não
é sair distribuindo dinheiro público. Distribuir
dinheiro público significa aumentar os riscos de
inflação. E inflação gera violência.
O Brasil precisa urgentemente limpar a polícia e
humanizar as cadeias. Depois precisa deixar o tempo passar,
até superar o trauma dos anos 80.