Edição 1 655 -28/6/2000

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A culpa é da inflação

Ilustração Pepe Casals

Brasileiros falam demais. Ninguém consegue ficar calado por mais de cinco minutos. É a doença nacional. Basta entrar numa fila de banco, de cinema ou de supermercado que as pessoas logo começam a bater papo com você. É o único país do mundo, por exemplo, em que motoristas de táxi puxam conversa com os passageiros. Se os passageiros respondem com monossílabos, os motoristas continuam a falar. Deveria ser como nos táxis americanos e ingleses, em que há um vidro separando o banco dos passageiros do motorista. Possivelmente, um vidro à prova de balas. Desse modo, além de limitar a conversa, o vidro protegeria os motoristas dos assaltos e eles parariam de falar sobre a violência, voltando a assuntos mais tradicionais como trânsito, futebol ou previsão do tempo.

O caso do seqüestro do ônibus no Rio de Janeiro foi um prato cheio para os motoristas de táxi logorréicos. Contra a minha vontade, ouvi mais de vinte motoristas de táxi falando a esse respeito. Mas falar sobre a violência não é privilégio dos motoristas. Todos os colunistas da imprensa comentaram a tragédia. O melhor foi Roberto Pompeu de Toledo, na última edição de VEJA. Fiquei com inveja do artigo dele. Quanto aos outros, disseram exatamente as mesmas coisas que os motoristas de táxi. Os colunistas contrários ao governo afirmaram que a violência era o resultado direto da miséria e do desemprego, provocados pela nossa atual política econômica, ditada pelo FMI. Os colunistas favoráveis ao governo mudaram radicalmente o enfoque, afirmando que a violência era fruto do acúmulo de 500 anos de miséria.

Nenhuma das duas teorias me convence. Acho que a miséria presente e a miséria passada justificam um nível fisiológico de violência, que pode ser maior ou menor, dependendo da conjuntura, mas não explicam a violência estratosférica dos dias de hoje. Para mim, a origem da atual explosão de violência encontra-se na hiperinflação dos anos 80. Dê uma espiada na idade dos criminosos que andam por aí. A maioria deles nasceu ou cresceu naquela década maléfica. Os requintes de sadismo que aplicam contra os comerciantes só podem ser motivados pelo fato de, durante a hiperinflação, os salários se desvalorizarem ao longo do mês, enquanto os comerciantes se defendiam remarcando os preços diariamente. A hiperinflação destruiu as bases da convivência civil.

Quem melhor falou sobre isso foi o escritor Elias Canetti, em seu livro Massa e Poder. Ele descreve a explosão de ódio na Alemanha inflacionária, após a I Guerra Mundial. Hitler e o nazismo brotaram do ressentimento e da histeria coletivos gerados pela hiperinflação. Por que o Brasil não pode ter produzido seus pequenos monstros nesse período?

O problema, agora, é saber como combatê-los. Fernando Henrique Cardoso sempre foi criticado por sua falta de coragem. Pois foi muito corajoso ao dizer, logo depois do seqüestro do ônibus, que a solução para a violência não é sair distribuindo dinheiro público. Distribuir dinheiro público significa aumentar os riscos de inflação. E inflação gera violência. O Brasil precisa urgentemente limpar a polícia e humanizar as cadeias. Depois precisa deixar o tempo passar, até superar o trauma dos anos 80.