Edição 1 655 -28/6/2000

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O sobrevivente

O sambista que escapou da chacina da
Candelária conta sua trajetória, dos
pequenos furtos a uma vida honesta

Marcelo Carneiro

 
Zé Araujo

"Na rua tem muita gente te puxando para baixo. Nós somos humilhados, não acreditamos em nada"

Fábio da Silva, o "Baby", passou raspando no vestibular das ruas. Em 1993, aos 16 anos, escapou da morte na chacina da Candelária, no centro do Rio de Janeiro. Foi por puro acaso: um dia antes, brigou com um dos menores que perambulavam pelo local e decidiu passar a noite em outro lugar. Só ali perdeu oito amigos. Antes, já havia perdido dois irmãos e um punhado de colegas assassinados por grupos de extermínio em Diadema, São Paulo, onde nasceu e viveu até os 10 anos. Hoje, Fábio, 23 anos, divide-se entre o trabalho como camelô e as apresentações do Candelária, conjunto de pagode com letras açucaradas. Na tarde de 12 de junho, Fábio viu pela TV o bandido Sandro do Nascimento, o "Mancha", seqüestrar um ônibus da linha 174 no Rio, o que resultou na morte da professora Geisa Firmo Gonçalves. Sandro, assassinado pela polícia dentro do camburão, era um sobrevivente da chacina da Candelária. Fábio só reconheceu o colega de rua no dia seguinte, ao ler os jornais. Semi-analfabeto, ele é um sobrevivente da chacina e dos perigos que levaram à morte outras dezenas de garotos que dormiam em volta da Igreja da Candelária na época da chacina. Mais de quarenta dos cerca de setenta menores daquela turma barra-pesada foram mortos. Na semana passada, Fábio conversou com VEJA e contou uma história raríssima: a de um menino de rua brasileiro que escapou da morte violenta e do banditismo.

Veja – Por que você não virou bandido?
Fábio –
Na rua tem muita gente te puxando para baixo. Mas também há certas pessoas que não têm dinheiro, mas têm algo de bom para oferecer, como carinho e amizade, e abrem chance para você tomar um caminho diferente. Mas muitos têm a oportunidade e não sabem aproveitar. É a mágoa, cara. A gente é muito humilhado. Não acredita em nada. Quem foi menino de rua não vota. Tenho título, mas não voto.

Veja – Você já chegou a usar armas para assaltar?
Fábio –
Nunca. Eu tentava ganhar a vida esmolando. Não conseguia roubar. Fui atropelado ainda pequeno e fiquei com um problema na coluna que me impedia de correr.

Veja – Mas seus amigos usavam armas, não?
Fábio –
A gente saía em um grupo de oito ou nove garotos. A maioria levava um pedaço de pau ou um cassetete. Como eu sempre fui o mais novo, acabava obedecendo aos outros. Um dia, nós fomos assaltar uma loja, mas os guardas reagiram. Todo mundo fugiu, só eu fui preso. Como era muito pequeno, eles ficaram com pena e me soltaram. No assalto seguinte, a uma casa, pedi para não participar. Eles me pressionaram e eu fugi para o Vale do Anhangabaú, onde conheci um menino, também deficiente. Ficamos esmolando juntos.

Veja – Você sabia que o Sandro do Nascimento, que seqüestrou o ônibus da linha 174, foi menino de rua da Candelária?
Fábio –
Eu estava trabalhando na minha banquinha de iogurte. Na hora, tinha uma televisão ligada no programa Cidade Alerta, dentro de uma padaria, e dei uma olhada. Mas nem percebi que era o Sandro, os fregueses me chamaram e eu tinha de voltar a trabalhar. Não dava tempo para ficar vendo TV. Só fui saber que ele foi sobrevivente da chacina da Candelária no outro dia, lendo os jornais. O Sandro era uma pessoa raivosa, um sujeito meio afastado, só aparecia na Candelária à noite, para comer. Depois ia embora. Ele partiu para a violência, não teve a nossa força de vontade. Aquilo foi uma precipitação. Ele devia estar preso, tinha de viver separado do nosso meio, talvez numa prisão perpétua. Mas não podia ser morto daquela forma.

Veja – Você conversava com o Sandro?
Fábio –
Não, eu não era amigo dele. Aliás, é muito raro um menino de rua se abrir com outro. Cada um tem sua história triste e não fica falando desses assuntos. Sempre alguém vai ter uma história pior que a sua para contar. É por isso que os meninos de rua parecem tão fechados, sempre fugindo de todo mundo.

Veja – Por que você saiu de casa e foi parar nas ruas?
Fábio –
Saí de casa quando tinha 7 anos, em Diadema, onde nasci. Foi logo depois do suicídio do meu pai. Ele pulou do 17º andar de um edifício. Era anão, não conseguia muitos empregos, vivia de biscates e me espancava muito. Eu tinha de catar papelão para levar dinheiro para casa. Minha mãe morreu do coração logo depois da morte dele. Além de catar papelão, eu vendia bala no trem ou no ônibus e dormia na rua. Mas aí chegou uma época de muita matança na cidade, por causa da atuação dos grupos de extermínio. Eu fazia parte de um grupo que vivia praticando furtos nas lojas.

Veja – Como agiam esses matadores?
Fábio –
Exatamente como era eu não saberia explicar. Só posso dizer que a coisa funcionava mais ou menos assim: de repente, sumia um garoto da nossa turma, depois sumia outro, depois outro. A maioria dos corpos eram jogados em um rio que corta a cidade. Eu não tinha coragem de ver o resgate. Quando um companheiro nosso sumia cinco dias, a gente já sabia que ele tinha sido apanhado.

Veja – O que aconteceu com seus irmãos?
Fábio –
Hoje tenho oito irmãos ainda vivos, mas dois já morreram. Fui o único a sair de casa, mas na época um deles também me acompanhava e ficou muito visado pelos comerciantes. Um dia, eu estava ouvindo música em uma loja e uma funcionária de uma das associações comerciais lá de Diadema veio conversar comigo. Eles gostavam de mim, apesar de saber que eu também estava envolvido nos roubos, e avisaram que eu devia me afastar daquilo porque muita gente ia ser executada. Perdi dois irmãos, assassinados pelos grupos de extermínio de Diadema. Um tinha 9 anos, morreu logo depois que eu me afastei. Tomou 21 tiros. O outro, que era mais velho, só levou dois.

Veja – Nem a morte de seus irmãos fez você sair das ruas?
Fábio –
Saí de Diadema e fui para São Paulo. Eu dormia todo dia na Praça da Sé, e acabei na Febem do Tatuapé. Eu e minha turma tínhamos quebrado as roletas do metrô da Sé e fomos presos. Menti a idade para ficar menos tempo na Febem, mas mesmo assim foi sinistro. Eu e mais três parceiros entramos na ala B, a mais complicada. Lá o couro come e ninguém vê. Você tem de jogar no time deles, senão apanha muito. Um moleque me chamou para pular um muro enorme. Falei que não podia, tinha problema nas pernas e comecei a chorar. Apareceu um agente e fomos levados para outra ala. Lá na Febem eu tinha a proteção de um colega. Todo menino tem um protetor, que é chamado de pai de rua. A gente cheirava cola junto e ele nunca deixou ninguém chegar perto de mim. Já morreu também.

Veja – Você já tomou outro tipo de droga?
Fábio –
Não, nunca provei cocaína nem maconha. Só cola de sapateiro. A cola é um alívio para a falta de comida. Com ela você fica muito tempo sem fome. Havia dias em que eu só conseguia pão para comer, e a cola me sustentava em pé. Mas também faz muito mal. Eu era recordista no hospital, sempre levado pelos meus amigos, com o nariz sangrando.

Veja – Quando você chegou ao Rio de Janeiro, teve algum tipo de ajuda oficial ou de ONGs?
Fábio –
Sim. Em São Paulo, peguei carona na boléia de um caminhão e me mandei para o Rio. Eu tinha uns 10 anos e fui procurar o projeto Flor do Amanhã (ONG que alfabetizava menores carentes e os ensinava como trabalhar na montagem de um desfile de escolas de samba), do carnavalesco Joãosinho Trinta, no barracão da Beija-Flor. Eu mesmo aprendi o pouco que sei lá. Todo mundo em São Paulo falava para eu não vir, que o Rio era muito perigoso. Mas vim como um aventureiro, com o objetivo de subir na vida. Acabei parando nas ruas de novo. Dormia na Praça Mauá, próximo ao local do projeto. Foi uma época boa, cheguei a cantar o samba da escola mirim na Eco 92. Mas o Flor do Amanhã acabou não dando certo, e o Joãosinho largou o projeto. Foi então que fui para a Candelária.

Veja – Há centenas de ONGs e fundações de assistência aos menores carentes, mas o problema parece não diminuir. Você tem alguma explicação para isso?
Fábio –
Vou dar um exemplo. Eu admiro a Yvonne Bezerra de Mello (artista plástica, mulher do dono da rede de hotéis Othon, que coordenava um projeto social com os meninos da Candelária na época da chacina), é uma excelente pessoa e boa educadora, mas o projeto que ela mantém na Favela da Maré, aqui no Rio, não é bom. É tudo lindo, maravilhoso, mas é um projeto voltado para as crianças pobres daquele local. Não é para crianças de rua. Há diferenças enormes entre uma criança pobre que tem uma casa, uma família e uma criança de rua que dorme no chão. Eles não entendem muito isso. A maioria dos projetos é assim. Acho também que as ONGs que realizam um bom trabalho não sabem mostrar claramente à sociedade o que estão fazendo de positivo, e por isso não recebem todo o apoio de que precisam.

Veja – Alguém mais lhe ajudou?
Fábio –
Nenhuma autoridade ou político prestou a menor atenção em mim na rua. Era como se não existisse. Nem antes nem depois da chacina da Candelária, o que é incrível, pois apareci até no Jornal Nacional. Meu irmão mais velho me procurou e ofereceu auxílio. Fazia muito tempo que eu estava afastado de Diadema, e toda a minha família pensava que eu tinha morrido. Mas eu não queria voltar para São Paulo. Fui na Ana Maria Braga e no Ratinho. A Ana Maria prometeu que iria me ajudar se eu montasse um grupo musical. Até mandei uma carta para ela e recebi uma resposta. Mas ela não ajudou em nada. Nem o governo. O grande socorro que recebi foi do Centro Brasileiro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, uma ONG dirigida pela Cristina Leonardo.

Veja – Que tipo de apoio ela lhe deu?
Fábio –
Foi a ajuda mais básica, mais fundamental. Você não sabe o que é chegar em casa e não ter o abraço de uma mãe. Pois ela fez um pouco disso por mim. Estendeu os braços para uma criança.

Veja – Por que você deu a seu conjunto de pagode um nome associado à chacina?
Fábio –
Para falar a verdade, também achei o nome estranho no início, mas só queria mostrar que dali também era possível sair coisa boa. De todos os integrantes do grupo, só eu fui menino de rua, e isso me dá um chão, como se fosse uma família. A gente também quer mostrar que a música pode ser uma opção, como fez o pessoal do Negritude Júnior em São Paulo, que ensina música a garotos pobres. Muita gente diz que eu uso o nome da Candelária para entrar na mídia. Eu tenho esse direito, porque passei por aquele sofrimento e só eu sei o que isso me trouxe de ruim. Agora todo mundo voltou a falar da chacina. Devem estar pensando que isso é bom para a gente, mas é horrível. Sempre alguém aponta e diz: "Olha aquele bandidinho". Nós estamos pagando pela atitude violenta do Sandro.

Veja – Por que você não estava na Candelária na noite da chacina?
Fábio –
Tive a felicidade de sair de lá um dia antes. Tinha arrumado uma confusão com um dos líderes dos meninos, o "Come Gato". Ele falou que ia me expulsar de lá. No dia 22 de julho de 1993 eu fui embora. No dia 23, aconteceu.

Veja – Até hoje há versões conflitantes sobre o motivo da chacina. Na sua opinião, qual foi a razão?
Fábio –
Depois que acabou o projeto Flor do Amanhã, nós nos dispersamos. Uma turma foi para a Candelária, outra para a Praça Mauá, no centro do Rio. Na época, o clima em torno da Candelária era péssimo, muito tenso. Até as mulheres que iam lá à noite para nos dar comida e ensinar a pintar sabiam que a coisa estava quente. Havia uns cinqüenta garotos por lá. Nós que somos da rua sabemos que as pessoas que passavam por ali morriam de medo. E a gente mandava ver mesmo. Os roubos começaram a ficar cada vez mais freqüentes. O Come Gato queria mostrar para a sociedade que os meninos de rua não eram bichos, mas alguns deixavam a desejar. O clima foi ficando ruim para nós, já que ali era a nossa casa.

Veja – Você quase deixou escapar a oportunidade que a música lhe deu, não?
Fábio –
Comecei a fazer música na escola de samba Estácio de Sá, depois da chacina. Arrumei um emprego de faxineiro ali e comecei a compor. Em 1997, ganhei uma disputa. No ano seguinte, fui para a Beija-Flor de Nilópolis e ganhei novamente. Arrumei uma boa grana, mas também gastei muito. Com o primeiro samba, faturei uns 6.000 reais, depois perdi tudo. Ajudei uma pessoa que morava comigo a construir uma casa, acabei me endividando, pegando dinheiro emprestado, e fiquei duro. Fui, então, para a Beija-Flor, começar tudo de novo. Ganhei ainda mais dinheiro, mas gastei tudo saindo com mulheres. Ia aos restaurantes, tirava a onda que um menino de rua nunca poderia tirar. Não guardei nada e hoje me arrependo muito. Tinha 19 anos, não estava preparado para o sucesso.

Veja – Dá para viver de samba?
Fábio –
Depois de ganhar dois sambas, resolvi criar meu próprio conjunto, o Candelária. É um grupo de pagode, com sambas românticos, mas ele ainda não dá dinheiro. Tenho de trabalhar, vendendo iogurte na Praça da Bandeira (Zona Norte do Rio). Moro em um quarto alugado, pago 120 reais. Como faturo mais ou menos 250 reais por mês, sobra alguma coisa.