O sobrevivente
O sambista que escapou da chacina da
Candelária conta sua trajetória, dos
pequenos furtos a uma vida honesta
Marcelo Carneiro
Zé Araujo
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"Na rua tem
muita gente te puxando
para baixo. Nós somos humilhados,
não acreditamos
em nada"
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Fábio da Silva, o "Baby", passou raspando no vestibular
das ruas. Em 1993, aos 16 anos, escapou da morte na chacina
da Candelária, no centro do Rio de Janeiro. Foi por
puro acaso: um dia antes, brigou com um dos menores que
perambulavam pelo local e decidiu passar a noite em outro
lugar. Só ali perdeu oito amigos. Antes, já
havia perdido dois irmãos e um punhado de colegas
assassinados por grupos de extermínio em Diadema,
São Paulo, onde nasceu e viveu até os 10 anos.
Hoje, Fábio, 23 anos, divide-se entre o trabalho
como camelô e as apresentações do Candelária,
conjunto de pagode com letras açucaradas. Na tarde
de 12 de junho, Fábio viu pela TV o bandido Sandro
do Nascimento, o "Mancha", seqüestrar um ônibus
da linha 174 no Rio, o que resultou na morte da professora
Geisa Firmo Gonçalves. Sandro, assassinado pela polícia
dentro do camburão, era um sobrevivente da chacina
da Candelária. Fábio só reconheceu
o colega de rua no dia seguinte, ao ler os jornais. Semi-analfabeto,
ele é um sobrevivente da chacina e dos perigos que
levaram à morte outras dezenas de garotos que dormiam
em volta da Igreja da Candelária na época
da chacina. Mais de quarenta dos cerca de setenta menores
daquela turma barra-pesada foram mortos. Na semana passada,
Fábio conversou com VEJA e contou uma história
raríssima: a de um menino de rua brasileiro que escapou
da morte violenta e do banditismo.
Veja Por que você não virou
bandido?
Fábio Na rua tem muita gente te puxando
para baixo. Mas também há certas pessoas que
não têm dinheiro, mas têm algo de bom
para oferecer, como carinho e amizade, e abrem chance para
você tomar um caminho diferente. Mas muitos têm
a oportunidade e não sabem aproveitar. É a
mágoa, cara. A gente é muito humilhado.
Não acredita em nada. Quem foi menino de rua não
vota. Tenho título, mas não voto.
Veja Você já chegou a usar armas
para assaltar?
Fábio Nunca. Eu tentava ganhar a vida
esmolando. Não conseguia roubar. Fui atropelado ainda
pequeno e fiquei com um problema na coluna que me impedia
de correr.
Veja Mas seus amigos usavam armas, não?
Fábio A gente saía em um grupo
de oito ou nove garotos. A maioria levava um pedaço
de pau ou um cassetete. Como eu sempre fui o mais novo,
acabava obedecendo aos outros. Um dia, nós fomos
assaltar uma loja, mas os guardas reagiram. Todo mundo fugiu,
só eu fui preso. Como era muito pequeno, eles ficaram
com pena e me soltaram. No assalto seguinte, a uma casa,
pedi para não participar. Eles me pressionaram e
eu fugi para o Vale do Anhangabaú, onde conheci um
menino, também deficiente. Ficamos esmolando juntos.
Veja Você sabia que o Sandro do Nascimento,
que seqüestrou o ônibus da linha 174, foi menino
de rua da Candelária?
Fábio Eu estava trabalhando na minha
banquinha de iogurte. Na hora, tinha uma televisão
ligada no programa Cidade Alerta, dentro de uma padaria,
e dei uma olhada. Mas nem percebi que era o Sandro, os fregueses
me chamaram e eu tinha de voltar a trabalhar. Não
dava tempo para ficar vendo TV. Só fui saber que
ele foi sobrevivente da chacina da Candelária no
outro dia, lendo os jornais. O Sandro era uma pessoa raivosa,
um sujeito meio afastado, só aparecia na Candelária
à noite, para comer. Depois ia embora. Ele partiu
para a violência, não teve a nossa força
de vontade. Aquilo foi uma precipitação. Ele
devia estar preso, tinha de viver separado do nosso meio,
talvez numa prisão perpétua. Mas não
podia ser morto daquela forma.
Veja Você conversava com o Sandro?
Fábio Não, eu não era
amigo dele. Aliás, é muito raro um menino
de rua se abrir com outro. Cada um tem sua história
triste e não fica falando desses assuntos. Sempre
alguém vai ter uma história pior que a sua
para contar. É por isso que os meninos de rua parecem
tão fechados, sempre fugindo de todo mundo.
Veja Por que você saiu de casa e foi
parar nas ruas?
Fábio Saí de casa quando tinha
7 anos, em Diadema, onde nasci. Foi logo depois do suicídio
do meu pai. Ele pulou do 17º andar de um edifício.
Era anão, não conseguia muitos empregos, vivia
de biscates e me espancava muito. Eu tinha de catar papelão
para levar dinheiro para casa. Minha mãe morreu do
coração logo depois da morte dele. Além
de catar papelão, eu vendia bala no trem ou no ônibus
e dormia na rua. Mas aí chegou uma época de
muita matança na cidade, por causa da atuação
dos grupos de extermínio. Eu fazia parte de um grupo
que vivia praticando furtos nas lojas.
Veja Como agiam esses matadores?
Fábio Exatamente como era eu não
saberia explicar. Só posso dizer que a coisa funcionava
mais ou menos assim: de repente, sumia um garoto da nossa
turma, depois sumia outro, depois outro. A maioria dos corpos
eram jogados em um rio que corta a cidade. Eu não
tinha coragem de ver o resgate. Quando um companheiro nosso
sumia cinco dias, a gente já sabia que ele tinha
sido apanhado.
Veja O que aconteceu com seus irmãos?
Fábio Hoje tenho oito irmãos
ainda vivos, mas dois já morreram. Fui o único
a sair de casa, mas na época um deles também
me acompanhava e ficou muito visado pelos comerciantes.
Um dia, eu estava ouvindo música em uma loja e uma
funcionária de uma das associações
comerciais lá de Diadema veio conversar comigo. Eles
gostavam de mim, apesar de saber que eu também estava
envolvido nos roubos, e avisaram que eu devia me afastar
daquilo porque muita gente ia ser executada. Perdi dois
irmãos, assassinados pelos grupos de extermínio
de Diadema. Um tinha 9 anos, morreu logo depois que eu me
afastei. Tomou 21 tiros. O outro, que era mais velho, só
levou dois.
Veja Nem a morte de seus irmãos fez
você sair das ruas?
Fábio Saí de Diadema e fui
para São Paulo. Eu dormia todo dia na Praça
da Sé, e acabei na Febem do Tatuapé. Eu e
minha turma tínhamos quebrado as roletas do metrô
da Sé e fomos presos. Menti a idade para ficar menos
tempo na Febem, mas mesmo assim foi sinistro. Eu e mais
três parceiros entramos na ala B, a mais complicada.
Lá o couro come e ninguém vê. Você
tem de jogar no time deles, senão apanha muito. Um
moleque me chamou para pular um muro enorme. Falei que não
podia, tinha problema nas pernas e comecei a chorar. Apareceu
um agente e fomos levados para outra ala. Lá na Febem
eu tinha a proteção de um colega. Todo menino
tem um protetor, que é chamado de pai de rua. A gente
cheirava cola junto e ele nunca deixou ninguém chegar
perto de mim. Já morreu também.
Veja Você já tomou outro tipo
de droga?
Fábio Não, nunca provei cocaína
nem maconha. Só cola de sapateiro. A cola é
um alívio para a falta de comida. Com ela você
fica muito tempo sem fome. Havia dias em que eu só
conseguia pão para comer, e a cola me sustentava
em pé. Mas também faz muito mal. Eu era recordista
no hospital, sempre levado pelos meus amigos, com o nariz
sangrando.
Veja Quando você chegou ao Rio de Janeiro,
teve algum tipo de ajuda oficial ou de ONGs?
Fábio Sim. Em São Paulo, peguei
carona na boléia de um caminhão e me mandei
para o Rio. Eu tinha uns 10 anos e fui procurar o projeto
Flor do Amanhã (ONG que alfabetizava menores carentes
e os ensinava como trabalhar na montagem de um desfile de
escolas de samba), do carnavalesco Joãosinho
Trinta, no barracão da Beija-Flor. Eu mesmo aprendi
o pouco que sei lá. Todo mundo em São Paulo
falava para eu não vir, que o Rio era muito perigoso.
Mas vim como um aventureiro, com o objetivo de subir na
vida. Acabei parando nas ruas de novo. Dormia na Praça
Mauá, próximo ao local do projeto. Foi uma
época boa, cheguei a cantar o samba da escola mirim
na Eco 92. Mas o Flor do Amanhã acabou não
dando certo, e o Joãosinho largou o projeto. Foi
então que fui para a Candelária.
Veja Há centenas de ONGs e fundações
de assistência aos menores carentes, mas o problema
parece não diminuir. Você tem alguma explicação
para isso?
Fábio Vou dar um exemplo. Eu admiro
a Yvonne Bezerra de Mello (artista plástica,
mulher do dono da rede de hotéis Othon, que coordenava
um projeto social com os meninos da Candelária na
época da chacina), é uma excelente pessoa
e boa educadora, mas o projeto que ela mantém na
Favela da Maré, aqui no Rio, não é
bom. É tudo lindo, maravilhoso, mas é um projeto
voltado para as crianças pobres daquele local. Não
é para crianças de rua. Há diferenças
enormes entre uma criança pobre que tem uma casa,
uma família e uma criança de rua que dorme
no chão. Eles não entendem muito isso. A maioria
dos projetos é assim. Acho também que as ONGs
que realizam um bom trabalho não sabem mostrar claramente
à sociedade o que estão fazendo de positivo,
e por isso não recebem todo o apoio de que precisam.
Veja Alguém mais lhe ajudou?
Fábio Nenhuma autoridade ou político
prestou a menor atenção em mim na rua. Era
como se não existisse. Nem antes nem depois da chacina
da Candelária, o que é incrível, pois
apareci até no Jornal Nacional. Meu irmão
mais velho me procurou e ofereceu auxílio. Fazia
muito tempo que eu estava afastado de Diadema, e toda a
minha família pensava que eu tinha morrido. Mas eu
não queria voltar para São Paulo. Fui na Ana
Maria Braga e no Ratinho. A Ana Maria prometeu que iria
me ajudar se eu montasse um grupo musical. Até mandei
uma carta para ela e recebi uma resposta. Mas ela não
ajudou em nada. Nem o governo. O grande socorro que recebi
foi do Centro Brasileiro de Defesa dos Direitos da Criança
e do Adolescente, uma ONG dirigida pela Cristina Leonardo.
Veja Que tipo de apoio ela lhe deu?
Fábio Foi a ajuda mais básica,
mais fundamental. Você não sabe o que é
chegar em casa e não ter o abraço de uma mãe.
Pois ela fez um pouco disso por mim. Estendeu os braços
para uma criança.
Veja Por que você deu a seu conjunto
de pagode um nome associado à chacina?
Fábio Para falar a verdade, também
achei o nome estranho no início, mas só queria
mostrar que dali também era possível sair
coisa boa. De todos os integrantes do grupo, só eu
fui menino de rua, e isso me dá um chão, como
se fosse uma família. A gente também quer
mostrar que a música pode ser uma opção,
como fez o pessoal do Negritude Júnior em São
Paulo, que ensina música a garotos pobres. Muita
gente diz que eu uso o nome da Candelária para entrar
na mídia. Eu tenho esse direito, porque passei por
aquele sofrimento e só eu sei o que isso me trouxe
de ruim. Agora todo mundo voltou a falar da chacina. Devem
estar pensando que isso é bom para a gente, mas é
horrível. Sempre alguém aponta e diz: "Olha
aquele bandidinho". Nós estamos pagando pela atitude
violenta do Sandro.
Veja Por que você não estava
na Candelária na noite da chacina?
Fábio Tive a felicidade de sair de
lá um dia antes. Tinha arrumado uma confusão
com um dos líderes dos meninos, o "Come Gato". Ele
falou que ia me expulsar de lá. No dia 22 de julho
de 1993 eu fui embora. No dia 23, aconteceu.
Veja Até hoje há versões
conflitantes sobre o motivo da chacina. Na sua opinião,
qual foi a razão?
Fábio Depois que acabou o projeto
Flor do Amanhã, nós nos dispersamos.
Uma turma foi para a Candelária, outra para a Praça
Mauá, no centro do Rio. Na época, o clima
em torno da Candelária era péssimo, muito
tenso. Até as mulheres que iam lá à
noite para nos dar comida e ensinar a pintar sabiam que
a coisa estava quente. Havia uns cinqüenta garotos
por lá. Nós que somos da rua sabemos que as
pessoas que passavam por ali morriam de medo. E a gente
mandava ver mesmo. Os roubos começaram a ficar cada
vez mais freqüentes. O Come Gato queria mostrar para
a sociedade que os meninos de rua não eram bichos,
mas alguns deixavam a desejar. O clima foi ficando ruim
para nós, já que ali era a nossa casa.
Veja Você quase deixou escapar a oportunidade
que a música lhe deu, não?
Fábio Comecei a fazer música
na escola de samba Estácio de Sá, depois da
chacina. Arrumei um emprego de faxineiro ali e comecei a
compor. Em 1997, ganhei uma disputa. No ano seguinte, fui
para a Beija-Flor de Nilópolis e ganhei novamente.
Arrumei uma boa grana, mas também gastei muito. Com
o primeiro samba, faturei uns 6.000
reais, depois perdi tudo. Ajudei uma pessoa que morava comigo
a construir uma casa, acabei me endividando, pegando dinheiro
emprestado, e fiquei duro. Fui, então, para a Beija-Flor,
começar tudo de novo. Ganhei ainda mais dinheiro,
mas gastei tudo saindo com mulheres. Ia aos restaurantes,
tirava a onda que um menino de rua nunca poderia tirar.
Não guardei nada e hoje me arrependo muito. Tinha
19 anos, não estava preparado para o sucesso.
Veja Dá para viver de samba?
Fábio Depois de ganhar dois sambas,
resolvi criar meu próprio conjunto, o Candelária.
É um grupo de pagode, com sambas românticos,
mas ele ainda não dá dinheiro. Tenho de trabalhar,
vendendo iogurte na Praça da Bandeira (Zona Norte
do Rio). Moro em um quarto alugado, pago 120 reais.
Como faturo mais ou menos 250 reais por mês, sobra
alguma coisa.