O Brasil precisa crescer
"Se não encontrarmos o rumo do crescimento
com brevidade, o ambiente social vai se
deteriorar mais e ninguém ganhará com isso"
Ilustração Ale Setti
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Há muitas razões para comemorar quando olhamos
o que aconteceu com o Brasil desde a crise da Ásia
até hoje. Mas há também motivo para
preocupações. Não estamos à
beira do colapso social. Mas o ambiente social não
está bom. Não estamos reféns do capital
estrangeiro. Mas há pontos vulneráveis sérios
no setor externo. Nossa economia não está
sendo sucateada. Mas há regiões e empresas
em crise, por causa de mudanças na economia que são
positivas. Os custos de fechamento de empresas são
compensados pela abertura de novos empreendimentos. Mas
essas compensações não são imediatas
e podem não ocorrer no mesmo espaço geográfico.
Nosso mercado de capitais está definhando e o setor
bancário não oferece crédito adequado
ao investimento. Isso torna mais frágeis as empresas
brasileiras, em comparação com as estrangeiras,
que têm acesso a financiamento. Mas é preciso
contar a grande quantidade de novos negócios e empresas
de brasileiros que são abertos, aproveitando esse
movimento de transformação econômica.
As crises da Ásia e, principalmente, da Rússia
tornaram a estabilização mais difícil.
Fomos revisitados pelo medo da inflação. Tivemos
de fazer novos sacrifícios. A desvalorização
foi desordenada e tumultuada, no calor de circunstâncias
extremas. Mas, olhando a taxa de inflação
dos primeiros cinco meses, de 1,4%, vemos que saímos
mais rápido e com menor custo do que imaginávamos.
Uma saída possibilitada pela reestruturação
da indústria manufatureira, pela modernização
da agroindústria e por uma nova atitude dos consumidores.
Tivemos de promover reformas institucionais e administrativas,
para nos ajustar ao novo padrão fiscal mundial. Essa
reforma está incompleta, e parte de nossas dificuldades
presentes e futuras decorre daí. Mas fizemos avanços
importantes. A privatização conseguiu, no
mínimo, desonerar o Estado de uma série de
compromissos já injustificáveis. Entre eles,
subsídios a fornecedores e grandes consumidores das
estatais e suas extensas folhas de privilégios. Os
resultados tanto fiscais quanto operacionais estão
aquém da expectativa, por causa de regras defeituosas
e regulação deficiente. Os reguladores no
Brasil nem sequer exigem o cumprimento da lei. Há
muito que mudar no quadro regulatório, para corrigir
as falhas de desempenho do setor privatizado da economia.
As novas práticas de confecção e
gestão do Orçamento e a lei de responsabilidade
fiscal representam uma revolução gerencial
no gasto público. Mas o padrão de gasto ainda
é ruim, com verbas carimbadas, gastos sem noção
adequada da prioridade social, controles na boca do caixa.
Muitos desses problemas são típicos das
transições de um modelo econômico mais
atrasado para outro mais avançado. Nesses processos,
há sempre uma defasagem dolorosa no tempo entre os
sacrifícios e as perdas, de um lado, e os benefícios
e os ganhos, de outro. Isso dificulta a decisão política.
E o esforço só valerá se completarmos
a travessia. Governo e sociedade devem esforçar-se
para reduzir ao mínimo essa diferença no tempo
entre o sacrifício e o benefício da mudança.
É aqui que estamos falhando.
Estamos só ralando, sem ver a recompensa por tanto
suor e lágrimas. A taxa de juros não cai,
o crescimento não vem. O salário real não
sobe porque a produtividade não avança. A
produtividade não avança porque não
há investimento suficiente em tecnologia. Não
há investimento porque os juros estão altos
e a economia não cresce.
É o pior dos mundos. Bloqueados no meio do caminho,
vamos ficando pessimistas e descrentes. A confiança
no governo e na economia se quebra de vez. A auto-estima,
uma das maiores conquistas da estabilização,
se esvai. Hoje, o desafio maior é enfrentar de vez
as restrições que nos impedem de crescer.
O Brasil não sabe viver sem crescimento. Mas também
não pode crescer de qualquer jeito. A vantagem seria
breve e a nova crise, mais dura. Se não encontrarmos
o rumo do crescimento com brevidade, o ambiente social vai
se deteriorar mais e ninguém ganhará com isso.
Perdemos todos.
Sérgio Abranches
é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)