Edição 1 655 -28/6/2000

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O Brasil precisa crescer

"Se não encontrarmos o rumo do crescimento
com brevidade, o ambiente social vai se
deteriorar mais e ninguém ganhará com isso"

Ilustração Ale Setti


Há muitas razões para comemorar quando olhamos o que aconteceu com o Brasil desde a crise da Ásia até hoje. Mas há também motivo para preocupações. Não estamos à beira do colapso social. Mas o ambiente social não está bom. Não estamos reféns do capital estrangeiro. Mas há pontos vulneráveis sérios no setor externo. Nossa economia não está sendo sucateada. Mas há regiões e empresas em crise, por causa de mudanças na economia que são positivas. Os custos de fechamento de empresas são compensados pela abertura de novos empreendimentos. Mas essas compensações não são imediatas e podem não ocorrer no mesmo espaço geográfico. Nosso mercado de capitais está definhando e o setor bancário não oferece crédito adequado ao investimento. Isso torna mais frágeis as empresas brasileiras, em comparação com as estrangeiras, que têm acesso a financiamento. Mas é preciso contar a grande quantidade de novos negócios e empresas de brasileiros que são abertos, aproveitando esse movimento de transformação econômica.

As crises da Ásia e, principalmente, da Rússia tornaram a estabilização mais difícil. Fomos revisitados pelo medo da inflação. Tivemos de fazer novos sacrifícios. A desvalorização foi desordenada e tumultuada, no calor de circunstâncias extremas. Mas, olhando a taxa de inflação dos primeiros cinco meses, de 1,4%, vemos que saímos mais rápido e com menor custo do que imaginávamos. Uma saída possibilitada pela reestruturação da indústria manufatureira, pela modernização da agroindústria e por uma nova atitude dos consumidores.

Tivemos de promover reformas institucionais e administrativas, para nos ajustar ao novo padrão fiscal mundial. Essa reforma está incompleta, e parte de nossas dificuldades presentes e futuras decorre daí. Mas fizemos avanços importantes. A privatização conseguiu, no mínimo, desonerar o Estado de uma série de compromissos já injustificáveis. Entre eles, subsídios a fornecedores e grandes consumidores das estatais e suas extensas folhas de privilégios. Os resultados – tanto fiscais quanto operacionais – estão aquém da expectativa, por causa de regras defeituosas e regulação deficiente. Os reguladores no Brasil nem sequer exigem o cumprimento da lei. Há muito que mudar no quadro regulatório, para corrigir as falhas de desempenho do setor privatizado da economia.

As novas práticas de confecção e gestão do Orçamento e a lei de responsabilidade fiscal representam uma revolução gerencial no gasto público. Mas o padrão de gasto ainda é ruim, com verbas carimbadas, gastos sem noção adequada da prioridade social, controles na boca do caixa.

Muitos desses problemas são típicos das transições de um modelo econômico mais atrasado para outro mais avançado. Nesses processos, há sempre uma defasagem dolorosa no tempo entre os sacrifícios e as perdas, de um lado, e os benefícios e os ganhos, de outro. Isso dificulta a decisão política. E o esforço só valerá se completarmos a travessia. Governo e sociedade devem esforçar-se para reduzir ao mínimo essa diferença no tempo entre o sacrifício e o benefício da mudança. É aqui que estamos falhando.

Estamos só ralando, sem ver a recompensa por tanto suor e lágrimas. A taxa de juros não cai, o crescimento não vem. O salário real não sobe porque a produtividade não avança. A produtividade não avança porque não há investimento suficiente em tecnologia. Não há investimento porque os juros estão altos e a economia não cresce.

É o pior dos mundos. Bloqueados no meio do caminho, vamos ficando pessimistas e descrentes. A confiança no governo e na economia se quebra de vez. A auto-estima, uma das maiores conquistas da estabilização, se esvai. Hoje, o desafio maior é enfrentar de vez as restrições que nos impedem de crescer. O Brasil não sabe viver sem crescimento. Mas também não pode crescer de qualquer jeito. A vantagem seria breve e a nova crise, mais dura. Se não encontrarmos o rumo do crescimento com brevidade, o ambiente social vai se deteriorar mais e ninguém ganhará com isso. Perdemos todos.

 

Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)