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Edição 2062

28 de maio de 2008
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A última fronteira da auto-ajuda

A história (tocante) de um doente terminal
e suas lições (vazias) sobre a vida e a morte


Jerônimo Teixeira

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Quadro: Mortes exemplares
Exclusivo on-line
Trecho do livro

Randy Pausch, americano, 47 anos, casado, três filhos pequenos, está morrendo. Sofre de um câncer de pâncreas, com metástase em outros órgãos vitais, e recentemente teve uma crise cardíaca e renal. Em setembro de 2007, já desenganado pelos médicos, Pausch deu uma palestra de despedida para cerca de 400 pessoas na Carnegie Mellon, universidade em que lecionava computação. Gravada em vídeo, essa conferência foi vista mais de 2 milhões de vezes no site YouTube. Ao longo de uma hora e dezesseis minutos, Pausch exibe tomografias, diz que ainda se sente bem (para prová-lo, faz flexões no palco), fala de seus sonhos de infância – flutuar em gravidade zero, trabalhar para a Disney (ambos realizados), jogar em um time profissional de futebol americano (não realizado) – e dá lições genéricas sobre felicidade, realização profissional, determinação. Em suma, nada que se desvie do otimismo que infla a maioria dos livros de auto-ajuda. Muito apropriadamente, a palestra inspirou uma obra do gênero, composta por Pausch em parceria com o jornalista Jeffrey Zaslow, que escreveu sobre a conferência final no The Wall Street Journal. Primeiro lugar na lista de mais vendidos do The New York Times na semana passada, A Lição Final (tradução de Laura Alves e Aurélio Rebello; Agir; 256 páginas; 34,90 reais), que chega nesta semana às livrarias brasileiras, leva a alegria empacotada da auto-ajuda a sua última fronteira: a morte.

A atitude elevada com que Pausch encara seu fim iminente é talvez admirável, mas não tão incomum quanto se imagina. Pesquisas em psicologia atestam que as pessoas saudáveis – que constituirão previsivelmente a maioria dos leitores de A Lição Final – costumam superestimar a angústia que sentiriam diante de uma condenação médica (o psicólogo americano Daniel Gilbert explica bem esse descompasso cognitivo no livro O que Nos Faz Felizes). Na verdade, os doentes terminais tendem a assumir uma postura conciliada, até mesmo feliz, uma vez superado o choque inicial da má notícia. A serenidade diante da morte também tem numerosos testemunhos na literatura e na filosofia (para não falar dos incontáveis casos de bravura militar e martírio religioso). Condenado a tomar cicuta, Sócrates mostrou-se mais espirituoso do que seus chorosos discípulos, de acordo com o relato de Xenofonte em Apologia de Sócrates. Um tal de Apolodoro, "alma simples" que seguia o filósofo, reclamou de vê-lo morrer injustamente. "Meu caro Apolodoro, então preferias ver-me morrer justamente?", retrucou Sócrates. Com essa pergunta irônica, o filósofo grego apontou para a injustiça cósmica da morte. Morremos todos. Diante desse fato inescapável, as circunstâncias políticas que cercaram a morte de Sócrates – e que tanto revoltavam Apolodoro – tornam-se insignificantes.

Divulgação
Randy Pausch com os filhos: sua maior tristeza é saber que eles crescerão sem um pai


Esse foi Sócrates, século IV a.C. Eis como Randy Pausch traduz a mesma constatação – a morte é injusta e incontornável – para o século XXI d.C.: "Não podemos trocar as cartas que recebemos, mas apenas pensar como jogar". É o tipo de analogia vagabunda que todo autor de auto-ajuda faz, uma fórmula aplicável para qualquer situação difícil, do congestionamento no trânsito ao câncer pancreático. Pausch tem várias dessas pérolas do lugar-comum (aliás, ele admite que adora clichês). Ele ensina, por exemplo, que "uma desculpa ruim é pior do que nenhuma", e que "adquire-se experiência quando não se consegue o que se queria" (e quando a gente consegue o que quer – isso não conta como experiência?). Ah, ele também adora falar em "muralhas" – metafóricas, bem entendido –, que existem não para nos deixar de fora, mas para "nos dar uma chance de mostrar a força de nossas aspirações".

A Lição Final não traz nenhuma especulação religiosa sobre o além, nem uma só linha de revolta, de raiva, de medo. Tem, sim, páginas tocantes, de engasgar mesmo o leitor mais cínico. Pausch conta que Jai, sua mulher, estava aniversariando no dia anterior à palestra final na Carnegie Mellon, e ele a homenageou trazendo um bolo para o palco e convocando o público a cantar o Parabéns a você. Jai o abraçou e sussurrou em seu ouvido: "Por favor, não morra". O autor também reflete sobre o futuro de seus três filhos, com idades entre 2 e 6 anos, e se entristece não porque não os verá crescer – mas porque eles não terão um pai enquanto crescem. É uma pena que esses momentos esparsos se percam no meio de tantos conselhos ligeiros (por exemplo: se você vai pedir a alguém que realize uma tarefa aborrecida, é de bom-tom dar a essa pessoa uma caixa de chocolates mentolados). A última lição não é necessariamente a mais sábia.


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