ONGs e padres ajudaram
a armar os índios que
atacaram o engenheiro da Eletrobrás no Pará
Ronaldo Soares
André Penner/AP
O engenheiro Paulo Rezende: espancado
e ferido após explicar projeto
As cenas de um grupo de selvagens amazônicos atacando
o engenheiro Paulo Fernando Rezende, da Eletrobrás, rodaram
o mundo na semana passada. Ele foi agredido na última
terça-feira, ao término da palestra em que defendeu
a construção da hidrelétrica de Belo Monte,
no Rio Xingu. Sua participação era a parte mais
aguardada de um evento internacional promovido por ONGs e ambientalistas.
O tema era o projeto de 7 bilhões de reais que deverá
produzir 11 181 megawatts de energia e alagar uma área
de 440 quilômetros quadrados, do tamanho da cidade de
Curitiba. Rezende falou durante 25 minutos, defendendo seu ponto
de vista diante de uma platéia hostil. Foi interrompido
por vaias duas vezes. Assim que concluiu sua exposição,
a índia caiapó Tuíra se levantou e começou
a dançar, facão em punho. Ouviu-se um grito de
guerra. Foi a senha para que outros caiapós, também
armados e igualmente pintados para a guerra, começassem
a dançar e imediatamente o cercassem. Eles rasgaram sua
camisa, o jogaram no chão, chutaram, encostaram a mão
em seu rosto e o golpearam com facão. O corte foi profundo.
A ira dos índios
era previsível. No vídeo que anunciava o evento,
na internet, e nos jornais das organizações não-governamentais
(ONGs), destacava-se a cena em que Tuíra, há dezenove
anos, encostou um facão no rosto do então diretor
da Eletronorte, José Antonio Muniz Lopes, hoje presidente
da Eletrobrás. Havia a intenção deliberada
de voltar a intimidar o representante do projeto, e novamente
com o uso do facão, pela mesma índia, Tuíra,
dando ao evento um pretenso simbolismo. A armação
terminou em um crime executado por índios, mas tramado
e incentivado por ambientalistas brancos selvagens. Em seu depoimento,
ao qual VEJA teve acesso, Rezende registrou: "...rasgaram
minha camisa e me jogaram no chão. Tudo isso sem que
houvesse manifestação dos organizadores".
Durante a semana, integrantes de entidades que organizaram o
evento, entre eles um padre, foram filmados comprando facões
em uma loja de Altamira, acompanhados de um índio. Segundo
o delegado federal Jorge Eduardo Oliveira, havia o intuito de
gerar um clima hostil na discussão sobre a hidrelétrica.
"Possivelmente, os índios foram usados como massa
de manobra", disse Oliveira. O delegado acredita que a
intenção era impressionar os jornalistas estrangeiros
austríacos, ingleses, alemães e franceses
que cobriam o evento.
André Penner/AP
A caiapó Tuíra, alçada a símbolo
da resistência: manipulação
Não foi a primeira demonstração de insensatez
por parte dos opositores ao projeto de Belo Monte. A discussão
se arrasta há vinte anos e é cercada de obscurantismo.
O andamento do projeto foi paralisado por ações
judiciais durante anos, antes mesmo da conclusão de um
estudo de impacto ambiental, como notou o ex-ministro de Minas
e Energia Antonio Dias Leite em seu livro A Energia do Brasil:
"Entre as peripécias do processo, cabe destacar
a ação do Ministério Público Federal...
Impedir que se estude!", escreveu, demonstrando seu espanto.A discussão foi retomada agora porque a Justiça
deu sinal verde para que os levantamentos prossigam. O consumo
de energia no Brasil cresce à razão de 5,5% ao
ano, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
Gerar mais energia (seja em Belo Monte ou não) é
fundamental. Como a obra é considerada estratégica
pelo governo, os estudos são imprescindíveis.
Ainda mais porque a construção de barragens é
considerada por especialistas de todo o mundo a mais prejudicial
entre as intervenções humanas na natureza. Avaliar
a viabilidade ambiental é urgente. A projeção
do lago que será formado já foi reduzida de 18
000 quilômetros quadrados para os atuais 440. Note-se
que foram as pressões dos índios e ambientalistas
que produziram esse e outros avanços. Tudo isso só
demonstra a importância do debate.
A Polícia
Federal fará agora uma perícia antropológica
para avaliar se os índios que participaram do ataque
tinham consciência dos seus atos. Em caso positivo, serão
processados por lesão corporal, como qualquer brasileiro.
Caso contrário, quem os armou poderá ser incriminado.
A PF tinha informações de que o clima da manifestação
ia ser pesado dado que os caiapós são tradicionalmente
agressivos. Eles chegaram pintados para a guerra, mas nem a
PF nem a Secretaria de Segurança Pública do Pará
se preocuparam em impedir que entrassem com facões e
bordunas. "Os índios entram sempre com apetrechos
que comumente utilizam em suas manifestações.
Não podemos dizer que estavam armados, pois esses objetos
também são instrumentos de trabalho", disse
o superintendente da PF no Pará, Manoel Fernando Abbadi.
Um policial antropólogo é o que faltava para o
crime se perpetuar na Amazônia. Os pistoleiros que matam
por dinheiro na região agora podem alegar que seus revólveres
e espingardas são apenas "instrumentos de trabalho".