O governo nega, mas trabalha nos
bastidores pela recriação do "imposto do cheque"
Otávio
Cabral
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Sergio Lima/Folha Imagem
Senado
extingue a CPMF: bom senso deu fim ao imposto que o governo quer ressuscitar
Dar
a César o que era de César custava, ao tempo do imperador Augusto
(63 a.C.-19 d.C.), dois dias de trabalho por ano de um súdito do império
romano, que, em troca, desfrutava o mais duradouro período de paz e prosperidade
da Antiguidade clássica. Os brasileiros deste começo de século
XXI trabalham quase cinco meses por ano para o Leão do Fisco, esse pantagruélico
César dos nossos dias. Em troca, não recebem quase nada e são
obrigados a pagar por saúde, educação, segurança e
transporte, tudo o que o estado glutão deveria prover com o dinheiro dos
impostos, mas não o faz. Por essa razão foi tão comemorada
a extinção pelo Senado no ano passado do "imposto do cheque",
a CPMF, ou contribuição provisória sobre movimentação
financeira. Pois não é que agora se fala na recriação
da CPMF? Está marcada para esta semana a votação de uma emenda
que prevê o aumento de 10 bilhões de reais no orçamento destinado
à saúde. O governo alega que não tem de onde tirar esses
recursos e seus aliados no Congresso, malandramente, apontam a volta da CPMF como
única opção capaz de impedir um provável veto ao projeto.
O
deputado Maurício Rands, do PT: CPMF renderia 10 bilhões por ano
Pois
que se vete e que o sistema de saúde faça o que tem de fazer e direito
com os recursos bilionários que os cidadãos brasileiros lhe destinam
a cada ano. Segundo dados da Organização das Nações
Unidas, o Brasil gasta em saúde 782 dólares por ano, por habitante,
mais que muitos países emergentes. Cobrar mais impostos ainda dos brasileiros
é uma desfaçatez que deveria gerar uma revolta popular. Sintomaticamente,
a proposta surgiu no mesmo dia em que a Receita Federal anunciou que a arrecadação
nos primeiros quatro meses de 2008 atingiu novo recorde. Mesmo sem a CPMF, foram
31 bilhões de reais a mais que no mesmo período do ano passado.
São três novas CPMFs a mais pagas com o suor dos súditos do
Leão do Fisco. "Não há justificativa para a recriação
da CPMF. O governo arrecada cada vez mais e esbanja dinheiro com redução
de tributos e desonerações, como as feitas dos combustíveis
e do trigo", analisa Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda.
Por ser tão cruel e despropositada, a nova facada nas costas dos brasileiros
trafega no Congresso sem paternidade definida. Ninguém quer assumir o crime
às claras.