Dono de um Nobel há
33 anos, o biólogo diz que a cura da aids
ainda está longe e conclama o Brasil a pesquisar células-tronco
André Petry, de Nova
York
"Acredito que devemos investir
tempo, dinheiro
e energia nas pesquisas com células-tronco embrionárias"
O biólogo David Baltimore,
70 anos, é um daqueles pioneiros da pesquisa que a academia
americana produz com certa freqüência. Por isso,
quando vem a público, como faz nesta entrevista, para
dizer que a cura da aids está longe, tão longe
que nem é possível afirmar que será descoberta,
os cientistas o escutam com atenção. O vírus
HIV, causador da aids, foi descoberto há 25 anos, data
marcada por um encontro científico realizado em Paris
na semana passada. Apesar do insucesso das pesquisas, Baltimore
não é um pessimista. Ao contrário. É
um entusiasta da ciência que, mesmo tendo recebido o Nobel
de Medicina com apenas 37 anos, ainda se mantém ativo
no laboratório e fascinado com a profissão. "Eu
me entusiasmo quando estou diante de um bom texto científico,
de um bom trabalho, mesmo de uma boa conversa." Além
de ser um defensor convicto das pesquisas com células-tronco,
ele está seguro de que esse trabalho terá resultado
mais profícuo que as pesquisas sobre a cura da aids e,
mais cedo ou mais tarde, trará bons resultados para a
humanidade. Nesta entrevista a VEJA, Baltimore fala do desafio
que o HIV representa para a ciência e convida o Brasil
a integrar o mutirão científico autorizando a
pesquisa com células-tronco embrionárias, tema
que o Supremo Tribunal Federal julgará nesta quinta-feira,
em Brasília.
Veja Por
que os experimentos para encontrar uma vacina contra a aids
até hoje não chegaram a lugar algum? Baltimore O caminho
é dificílimo. É tão difícil
que, neste momento, não sei afirmar quando teremos uma
vacina, nem se a teremos um dia. Tenho esperança de que
a comunidade científica terá sucesso nessa empreitada,
mas até hoje não descobrimos um caminho que nos
dê segurança de que chegaremos a uma vacina. É
fundamental que os cientistas prossigam com as pesquisas, mas
o vírus HIV, pela própria constituição,
é praticamente insensível a anticorpos, e a maioria
das vacinas trabalha com anticorpos. Talvez o caminho do combate
à aids seja outro.
Veja Qual
é o outro caminho? Baltimore Estamos
explorando uma linha de pesquisa com terapia genética.
Nossos estudos pretendem descobrir se podemos modificar o sistema
imunológico de uma pessoa. Se conseguirmos isso, podemos
dotar o sistema imunológico da capacidade de fazer coisas
que naturalmente ele não sabe fazer, como combater o
HIV.
Veja A terapia
genética, se funcionar para combater o HIV, funcionaria
também contra o câncer? Baltimore Sim,
inclusive neste momento também estamos trabalhando com
câncer nas nossas pesquisas.
Veja Que
linha de pesquisa está mais próxima do sucesso
contra a aids: a terapia genética ou a vacina? Baltimore É
difícil dizer. Há grandes desafios técnicos
tanto numa linha quanto na outra. O fato é que o HIV
está desafiando as habilidades da ciência atual.
Veja O que
o senhor sentiu quando viu um vírus HIV pela primeira
vez? Baltimore Foi
logo que descobriram a existência do vírus, no
início dos anos 80. Quando me dei conta do que estava
diante de mim, confesso que fiquei pasmo e assustado. Fiquei
realmente assustado. Era a primeira vez que eu via um retrovírus.
Ele era capaz de fazer coisas que nunca tínhamos visto
antes. De causar imunodeficiência, ou seja, de tornar
ineficiente nosso sistema imunológico. Foi impressionante
e assustador.
Veja A Justiça
brasileira vai decidir em breve se autoriza ou não a
pesquisa com células-tronco de embriões humanos
descartados nas clínicas de fertilização.
Quem é contra diz que destruir um embrião equivale
a um assassinato. O que o senhor acha? Baltimore
Não sei falar a respeito do aspecto jurídico do
assunto, mas do ponto de vista científico é uma
discussão sem sentido. Afinal, os embriões humanos
foram descartados porque o casal já teve o número
de filhos que queria ou por qualquer outra razão. O fato
é que os embriões serão destruídos
de qualquer modo. A questão é saber se serão
destruídos fazendo o bem a outras pessoas ou não.
A meu ver, a resposta é óbvia.
Veja Sendo
um país onde a pesquisa científica ainda engatinha,
o Brasil pode fazer alguma diferença entrando para o
clube das nações que realizam pesquisas com embriões? Baltimore Sem
dúvida. Nunca estive no Brasil, mas conheço cientistas
brasileiros e tenho colegas que já lecionaram no país.
Por isso, posso dizer que, se o Brasil adotar uma linha de pesquisa
de alto nível, sua contribuição poderá
ser enorme.
Veja Cientistas
que defendem a preservação dos embriões
nas clínicas de fertilização costumam dizer
que as pesquisas com células-tronco adultas são
tão ou mais promissoras que as com células-tronco
embrionárias. É verdade? Baltimore Se eu
fosse fazer uma aposta, diria que as células-tronco adultas
serão as primeiras a nos apresentar resultados concretos,
porque nós as conhecemos melhor, sabemos mais sobre seu
funcionamento. Nesse sentido, quando se trata de buscar resultados
mais imediatos, as células-tronco adultas são
mais promissoras. Mas, a longo prazo, as células-tronco
embrionárias são muito mais promissoras, porque
têm potencial de transformação muito superior.
Elas têm capacidade de evoluir para qualquer tecido humano,
mas ainda não as conhecemos tão bem. Produzir
resultados a partir das células-tronco de embriões,
portanto, é algo que vai levar mais tempo. Mas a tendência
é que os resultados, quando surgirem, sejam mais importantes
do que os advindos das pesquisas com células-tronco adultas.
Veja O senhor
recomendaria que a pesquisa se concentrasse nas células-tronco
adultas porque o resultado tende a ser mais rápido? Baltimore Não
é prudente paralisar nenhum caminho promissor de pesquisa,
mas acredito que devemos investir tempo, dinheiro e energia
nas pesquisas com células-tronco embrionárias.
Como elas têm potencial de evolução praticamente
ilimitado, os experimentos aí vão produzir mais
conhecimento científico.
Veja Há
risco de as pesquisas com células-tronco consumirem tempo,
dinheiro e energia e resultarem em nada? Baltimore As células-tronco
são um universo fascinante, certamente produzirão
algum resultado, mas os problemas que temos pela frente são
grandes. O caminho é longo.
Veja Qual
o grande desafio? Baltimore Controlar
a evolução das células-tronco. Como elas
têm imenso potencial de transformação, temos
de descobrir como fazê-las evoluir num sentido específico,
no sentido que desejamos. Por exemplo, se quisermos que se transformem
em um nervo, em um tecido cardíaco ou ósseo, teremos
de ter garantias de que a evolução resultará
em um nervo, em um tecido cardíaco ou ósseo. Nosso
desafio é saber como evitar que cresçam de modo
desordenado, porque isso pode resultar num câncer. Além
de descobrirmos como controlar essa evolução,
temos de ser capazes de aplicar esse controle de modo rotineiro
e sistemático. Ainda não temos respostas para
essas questões.
Veja Religião
e ciência são incompatíveis? Baltimore Entendo
que ciência e religião atuam em campos distintos.
Uma não responde às perguntas da outra. Por isso,
não vejo incompatibilidade.
Veja O governo
do presidente George W. Bush, cujo fundamentalismo religioso
barrou todo um campo de pesquisas científicas, é
um governo contra a ciência? Baltimore Não
sei se é contra, mas certamente esse governo tem sido
notável na falta de interesse pela ciência. Até
o órgão de apoio à ciência, que costumava
funcionar na Casa Branca, foi transferido para outro lugar em
Washington. Tudo se soma para mostrar que o atual governo não
se interessa pelo assunto.
Veja O governo
da Califórnia aprovou a criação de um fundo
de 3 bilhões de dólares para financiar as pesquisas
com células-tronco de embriões humanos, já
que a Casa Branca decidiu fechar o cofre. Isso já produziu
bons resultados? Baltimore Como
o governo em Washington não apóia as pesquisas
com embriões, os cientistas enfrentam constrangimentos
legais porque não sabem se podem ou não apostar
em certos caminhos de pesquisa. Isso acaba travando até
mesmo a liberação de recursos financeiros. Quando
deixei o comitê que escolhia os projetos científicos
que o governo da Califórnia financiaria, havia pouco
dinheiro liberado. Alguns laboratórios chegaram a fazer
belos trabalhos apoiados pela política científica
do estado, mas ainda é cedo para falar em bons resultados.
Temos apenas uns dois anos de trabalho nisso. É pouco.
Veja O desinteresse
do governo americano ajudou a atrasar o progresso científico
no mundo? Baltimore Acredito
que sim. No caso das células-tronco, por exemplo, cujo
financiamento com verba federal é limitado a apenas algumas
linhas de pesquisa, a contribuição dos Estados
Unidos poderia ter sido muito mais ampla. O mundo tem feito
um trabalho fantástico nessa área, mas a ciência
americana poderia ter ajudado. Por sorte, isso deve acabar com
a eleição presidencial, sejam quais forem os candidatos
e seja quem for o eleito. Tanto o republicano (o senador
John McCain) quanto os democratas (os senadores Barack
Obama e Hillary Clinton) têm mostrado isso. A atual
política científica americana deve ser modificada
imediatamente. Nos Estados Unidos, apesar dos investimentos
privados, o governo é o grande incentivador da ciência.
Como a Casa Branca historicamente cuida com carinho do assunto,
o país conseguiu um desenvolvimento científico
notável, mas nem sempre a ciência tem apoio da
política.
Veja A falta
de apoio político retarda o avanço de certos experimentos
ou chega a paralisá-los por completo? Baltimore Na década
de 70, por exemplo, a fertilização in vitro era
um assunto delicado, gerava polêmica, e os políticos
preferiram tomar distância. No entanto, as pesquisas acabaram
se desenvolvendo mesmo assim. Nesse caso, a falta de apoio governamental
teve outra decorrência negativa nos Estados Unidos. A
fertilização in vitro se desenvolveu como uma
indústria sem regulamentação, porque o
governo tinha receio de se envolver com o assunto. A fertilização
in vitro é sensacional, deu vida a muitas crianças
que de outro modo não teriam nascido, mas o fato é
que não conhecemos a qualidade do trabalho que se faz
em muitos lugares. Isso não é recomendável.
Veja As
crescentes denúncias de fraudes científicas não
podem minar a credibilidade de que a ciência precisa justamente
num momento em que lida com assuntos polêmicos, como a
clonagem? Baltimore Precisamos
entender que temos visto mais casos de fraude porque estamos
fazendo mais ciência. Não acho que seja um assunto
que já tenha chegado ao ponto de ameaçar a credibilidade
dos cientistas e das suas pesquisas.
Veja Já
se passaram mais de vinte anos do escândalo em que a brasileira
Thereza Imanishi-Kari foi acusada de falsificar dados num experimento
em que ela trabalhava com o senhor. O seu envolvimento nesse
caso, que acabou resultando na sua renúncia à
presidência da Universidade Rockefeller, emperrou sua
carreira de algum modo? Baltimore É
claro que isso tornou minha vida mais difícil, mas às
vezes é o preço que temos de pagar por adotar
uma posição que julgamos correta. Thereza é
brasileira e, por ser estrangeira, tinha mais dificuldade de
se defender. Eu estava defendendo uma colega. Tenho orgulho
de ter ficado ao lado dela. Thereza estava sendo acusada injustamente.
Veja Os
cientistas que se tornam celebridades mundiais com suas pesquisas
podem acabar se sentindo pressionados a sempre produzir coisas
espetaculares. Em alguns casos, isso pode estimular uma fraude? Baltimore Acredito
que em sua maioria os colegas que chegaram ao ponto de ganhar
fama mundial por seus trabalhos já provaram que são
cientistas extraordinários. Talvez isso tenha sido um
problema no caso do coreano que fraudou sua pesquisa (refere-se
ao biólogo sul-coreano Woo-Suk Hwang, que fraudou um
trabalho em que dizia ter clonado células-tronco embrionárias).
O problema é que ele virou um superstar sem ter feito
muita coisa antes. Mas é um problema raro.
Veja O senhor
recebeu o Prêmio Nobel de Medicina quando tinha 37 anos,
em 1975. De lá para cá, não teve de lidar
com um peso excessivo sobre os ombros, um compromisso de ser
genial em cada passo do seu trabalho? Baltimore Na verdade,
é o contrário. A maioria das pessoas acha que
depois de receber um Nobel você não vai fazer mais
nada de relevante. Muita gente até fica impressionada
quando sabe que eu ainda estou fazendo pesquisa.
Veja O Nobel
ajudou a lhe abrir portas para ganhar financiamento para suas
pesquisas? Baltimore Nos
Estados Unidos, o Nobel não abre portas. O grosso dos
financiamentos vem do governo federal, e o pessoal do governo
até costuma olhar quem tem um Nobel com mais atenção,
fazendo um escrutínio mais rigoroso para se certificar
da real importância do trabalho. Eles querem descartar
a suspeita de que o laureado esteja pedindo dinheiro sem muito
fundamento, confiando apenas no prestígio de ser um prêmio
Nobel.
Veja O senhor
ainda fica empolgado quando aparece alguma novidade no laboratório? Baltimore Completamente.
É empolgante participar do cotidiano da ciência,
do seu passo-a-passo, do seu progresso. Sinto o mesmo entusiasmo
de quando era jovem. E me entusiasmo quando estou diante de
um bom texto científico, de um bom trabalho, mesmo de
uma boa conversa. Eu poderia me aposentar, mas essas coisas
me empolgam de verdade.
Veja Aposentar-se,
então, jamais? Baltimore Depende.
Não sei o que virá primeiro, se a morte ou a aposentadoria.