Filóloga por
formação e professora de espanhol para estrangeiros
"por questão de sobrevivência", a cubana
Yoani Sánchez Cordero, 32 anos, foi incluída na
lista das 100 pessoas mais influentes do mundo da revista Time
por causa do blog que escreve há um ano, o Generación
Y, em que relata o cotidiano de Cuba. Por telefone, ela falou
à repórter Renata Moraes.
O que a levou a
criar o blog? Estava farta de algumas coisas que afetam a vida da maioria
dos cubanos e que não são contadas na televisão,
nas rádios nem na imprensa oficial. Decidi, então,
expor experiências pessoais, como a minha decepção
com o resultado da votação do Parlamento, a falta
de limão no mercado ou as coisas absurdas que acontecem
na escola do meu filho Teo, de 12 anos. Com isso, penso contribuir
para as mudanças que julgo necessárias em meu
país.
Como consegue manter
o blog? Em Cuba, isso é uma aventura. Faço os textos
em casa e depois busco um lugar onde possa me conectar. Lamentavelmente,
só os altos funcionários do governo ou os estrangeiros
que vivem no país podem ter uma conexão em casa.
Dependo dos dois cibercafés públicos que há
em Havana e dos hotéis. As filas nos cibercafés
públicos chegam a durar três horas e os preços
são proibitivos: entre 5 e 6 pesos conversíveis
por hora, o que significa quase um terço do salário
do cubano médio. Nos hotéis, é ainda mais
caro. Por tudo isso, meu blog não tem uma atualização
diária. Mas os visitantes me perdoam (a página
tem em torno de 4 milhões de acessos por mês).
Existe censura
do governo sobre o conteúdo do GENERACIÓN Y? Direta, não. O que já ocorreu foram invasões
de hackers que me insultaram e tumultuaram as discussões.
Suponho que sejam pessoas que conheço, gente da imprensa
oficial. Mas nunca houve censura explícita.
Entre 2002 e 2004,
você morou na Suíça. O que pretendia ao
mudar-se para lá? Ir embora definitivamente, por causa da situação
econômica de Cuba. Conseguimos eu, meu marido e
meu filho permissão para viajar, provando que
iríamos visitar amigos.
E por que resolveram
voltar? Meus pais adoeceram e precisavam de mim. Tive medo de ser
presa, mas voltei mesmo assim. Quando fui ao departamento de
imigração pedir a repatriação, encontrei
muitas pessoas que, por diversos motivos, decidiram voltar também,
mesmo correndo o risco de sofrer represálias. Não
recebi nenhuma punição, mas as autoridades da
imigração me advertiram de que eu "nunca
mais voltaria a sair do país".
Do que mais sente
falta em Cuba?
De um transporte público que funcione e de mais facilidade
para comprar comida, que é um motivo de neurose para
qualquer dona-de-casa cubana. Mas sinto falta, principalmente,
de um ambiente político neutro e da possibilidade de
participar das decisões que afetam a vida de todos. Aqui,
só recebemos ordens. O ambiente militarizado me sufoca.
Sinto-me como um soldado, ouvindo o tempo todo expressões
de guerra: "lutar", "resistir", "revolução".
Qual é a
expectativa dos cubanos com a ascensão de Raúl
Castro? Infelizmente, sinto que, entre as pessoas da minha geração,
reina a apatia política. Sentimos que o país não
nos pertence. Neste sistema paternalista em que vivemos, fizeram
com que sempre esperássemos por ordens que vêm
de cima, o que criou uma espécie de paralisia. As pessoas
precisam começar a sentir que esta ilha lhes pertence
e parar de esperar as soluções do governo
ou de fazer planos de ir embora.