Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 804 - 28 de maio de 2003
Ponto de vista

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Geral
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
VEJA on-line
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2003
Reportagens de capa
2000|01|02|03
Entrevistas
2000|01|02|03


 

Claudio de Moura Castro

Capitalismo de
meia-tigela

"Algumas alas da esquerda, ainda 'de mal'
com a iniciativa privada, querem um freio
na expansão do ensino superior privado.
Imaginem a alegria dos empresários
já estabelecidos"



Ilustração Ale Setti


Em visita a um ministro da Educação, eu cobrava dele algumas providências. Filosoficamente, ele retrucava que me mostraria o que é vida de ministro. Que me sentasse quieto, ali mesmo, pois ia receber um deputado que representava os donos de uma faculdade particular. Ouvi suas reivindicações para que o MEC não deixasse abrir outra escola em sua cidade, pois ela faria concorrência à escola de seus clientes.

Os jornais reproduziram recentemente as declarações de um dono de faculdade, queixando-se da "abertura indiscriminada de cursos nos últimos anos (...) provocando uma turbulência na área de ensino superior (...). Ocorreram invasões econômicas de cursos vindos de fora. E ainda virão outros".

Há 250 anos, Adam Smith já sabia: capitalista gosta mesmo é de monopólio. Quanto menos concorrentes, melhor. Mas sabia também que o sistema de mercado produz eficiência quando os capitalistas não conseguem manter seus monopólios. É a competição que corrói o lucro excessivo e desencadeia as forças da eficiência e da qualidade, baixando os preços do serviço oferecido.

Empresário choraminga, defendendo suas reservas de mercado. Quem sabe cola? E no tapetão é sempre mais fácil. Burrice é o público ou o governo ser engambelado por tais argumentos, pois são a sentença de morte no regime de mercado.

Uma das razões para nosso relativo sucesso na economia é que o governo dá o alvará para abrir um restaurante de comida chinesa sem perguntar se já existe outro na rua. Abre quem quiser, quantos quiser. O mesmo com a indústria automobilística, salva das "carroças" pela nova concorrência. A eficiência é fruto do medo do competidor.

É bem verdade, o capitalismo selvagem é destrutivo e predatório. É preciso um marco regulatório para orientar as forças vitais para as melhorias do produto, em vez de destruir o meio ambiente ou iludir os consumidores. Os restaurantes têm exigências fitossanitárias e os automóveis, de segurança e poluição.

Na educação não é diferente. Há normas de credenciamento. Elas ainda têm muitas imperfeições, mas estão melhorando. Ao contrário do que se pensa, as regras ficaram mais rígidas, mais difíceis de ser burladas, e melhora a qualidade das comissões que examinam os novos pedidos. Aumentou o número de novos cursos porque nos últimos cinco anos o MEC deixou de bloquear o andamento dos pedidos. E o Provão mostra que não houve deterioração nos critérios de credenciamento, pois os cursos que o fazem pela primeira vez tendem a sair acima da média. Tal expansão desagrada aos que tinham confortável monopólio, sobretudo as universidades, desobrigadas por lei de consultar o MEC antes de abrir cursos.

Um dos grandes avanços foi o abandono da regra absurda de o curso privado ter de justificar ao MEC a existência de mercado. Como definir "saturação de mercado", considerando que se perdeu irreversivelmente a biunivocidade diploma-profissão – como, de resto, já havia ocorrido em todos os países avançados? A profissão de economista não emprega sequer 10% dos graduados. Mais da metade dos engenheiros fazem outra coisa (administração!). O curso de direito é um programa que também forma advogados. E por aí afora. Com a confusão metodológica gerada, travavam-se os processos no MEC, o que garantia vida mansa aos cursos já estabelecidos. Nas novas regras, basta demonstrar a qualidade exigida. Mercado é risco de cada um.

E agora, com um governo de esquerda, como ficamos? Vai prevalecer a lógica da economia de mercado, condenando as escolas já existentes a lutar pela sobrevivência, diante de novos concorrentes? Ou teremos a vitória dos anticapitalistas, que não percebem ser o ferrolho na abertura de novos cursos o maior favor que poderiam fazer aos nababos já estabelecidos? Na verdade, estamos diante de um paradoxo. Algumas alas da esquerda, ainda "de mal" com a iniciativa privada, pregam a aplicação de freios na expansão do ensino superior privado. Imaginem a alegria dos empresários já estabelecidos ao ver seus inimigos seculares defendendo ferozmente uma trava, garantindo a permanência de seus lucros excessivos.


Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)


 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS