Claudio
de Moura Castro
Capitalismo
de
meia-tigela
"Algumas
alas da esquerda, ainda 'de mal'
com a iniciativa privada, querem um freio
na expansão do ensino superior privado.
Imaginem a alegria dos empresários
já estabelecidos"
Ilustração Ale Setti
 |
Em visita a um ministro da Educação, eu cobrava dele algumas
providências. Filosoficamente, ele retrucava que me mostraria o
que é vida de ministro. Que me sentasse quieto, ali mesmo, pois
ia receber um deputado que representava os donos de uma faculdade particular.
Ouvi suas reivindicações para que o MEC não deixasse
abrir outra escola em sua cidade, pois ela faria concorrência à
escola de seus clientes.
Os jornais reproduziram recentemente as declarações de um
dono de faculdade, queixando-se da "abertura indiscriminada de cursos
nos últimos anos (...) provocando uma turbulência na área
de ensino superior (...). Ocorreram invasões econômicas de
cursos vindos de fora. E ainda virão outros".
Há 250 anos, Adam Smith já sabia: capitalista gosta mesmo
é de monopólio. Quanto menos concorrentes, melhor. Mas sabia
também que o sistema de mercado produz eficiência quando
os capitalistas não conseguem manter seus monopólios. É
a competição que corrói o lucro excessivo e desencadeia
as forças da eficiência e da qualidade, baixando os preços
do serviço oferecido.
Empresário choraminga, defendendo suas reservas de mercado. Quem
sabe cola? E no tapetão é sempre mais fácil. Burrice
é o público ou o governo ser engambelado por tais argumentos,
pois são a sentença de morte no regime de mercado.
Uma das razões para nosso relativo sucesso na economia é
que o governo dá o alvará para abrir um restaurante de comida
chinesa sem perguntar se já existe outro na rua. Abre quem quiser,
quantos quiser. O mesmo com a indústria automobilística,
salva das "carroças" pela nova concorrência. A eficiência
é fruto do medo do competidor.
É
bem verdade, o capitalismo selvagem é destrutivo e predatório.
É preciso um marco regulatório para orientar as forças
vitais para as melhorias do produto, em vez de destruir o meio ambiente
ou iludir os consumidores. Os restaurantes têm exigências
fitossanitárias e os automóveis, de segurança e poluição.
Na educação não é diferente. Há normas
de credenciamento. Elas ainda têm muitas imperfeições,
mas estão melhorando. Ao contrário do que se pensa, as regras
ficaram mais rígidas, mais difíceis de ser burladas, e melhora
a qualidade das comissões que examinam os novos pedidos. Aumentou
o número de novos cursos porque nos últimos cinco anos o
MEC deixou de bloquear o andamento dos pedidos. E o Provão mostra
que não houve deterioração nos critérios de
credenciamento, pois os cursos que o fazem pela primeira vez tendem a
sair acima da média. Tal expansão desagrada aos que tinham
confortável monopólio, sobretudo as universidades, desobrigadas
por lei de consultar o MEC antes de abrir cursos.
Um dos grandes avanços foi o abandono da regra absurda de o curso
privado ter de justificar ao MEC a existência de mercado. Como definir
"saturação de mercado", considerando que se perdeu irreversivelmente
a biunivocidade diploma-profissão como, de resto, já
havia ocorrido em todos os países avançados? A profissão
de economista não emprega sequer 10% dos graduados. Mais da metade
dos engenheiros fazem outra coisa (administração!). O curso
de direito é um programa que também forma advogados. E por
aí afora. Com a confusão metodológica gerada, travavam-se
os processos no MEC, o que garantia vida mansa aos cursos já estabelecidos.
Nas novas regras, basta demonstrar a qualidade exigida. Mercado é
risco de cada um.
E agora, com um governo de esquerda, como ficamos? Vai prevalecer a lógica
da economia de mercado, condenando as escolas já existentes a lutar
pela sobrevivência, diante de novos concorrentes? Ou teremos a vitória
dos anticapitalistas, que não percebem ser o ferrolho na abertura
de novos cursos o maior favor que poderiam fazer aos nababos já
estabelecidos? Na verdade, estamos diante de um paradoxo. Algumas alas
da esquerda, ainda "de mal" com a iniciativa privada, pregam a aplicação
de freios na expansão do ensino superior privado. Imaginem a alegria
dos empresários já estabelecidos ao ver seus inimigos seculares
defendendo ferozmente uma trava, garantindo a permanência de seus
lucros excessivos.
Claudio de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
|