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Roberto
Pompeu de Toledo
Agouros,
males,
azares, itamares
e alencares
O
estigma do
vice que atrapalha,
antigo
e
insistente na política
brasileira,
ameaça
o governo Lula
Sinal de alerta para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na
semana passada, com a força dos maus presságios, fatídica
e sombria como uma asa negra a lamber as janelas do Palácio do
Planalto, insinuou-se a ameaça de que, inadvertidamente, pode ter
plantado um Itamar Franco a seu lado. "Um Itamar Franco" vai aqui no sentido
de pessoa suscetível e voluntariosa, dada aos muxoxos e às
destemperanças, mais reativa aos próprios impulsos do que
afinada com o trabalho em equipe. O "Itamar Franco" em questão
é o vice-presidente José Alencar. Pode ser que ele não
seja exatamente um Itamar. Mas que tem jeito de Itamar, idiossincrasias
à Itamar e rompantes à Itamar, isso tem.
Já havia algum tempo dava para desconfiar que por baixo do jeitão
simpático do bom Alencar se escondesse uma dose de Itamar. Desde
a semana passada, quando o vice-presidente se pôs a deblaterar,
em tom abusado, contra a política de juros do governo, dá
para ter certeza. "Não podemos ficar à mercê desse
pessoal que nos colocou no cabresto", disse ele. "Temos de ver a competência
do Banco Central para negociar direito isso." Quem seria o pessoal que
nos colocou no cabresto? O governo anterior? O FMI? Ou membros do atual
governo, como o presidente do Banco Central, o ministro Palocci e o próprio
Lula? Isso Alencar não esclareceu, mas, ao lhe indagarem se achava
que está faltando competência ao Banco Central, respondeu:
"Claro que está. Nós não podemos de maneira nenhuma
aceitar isso". Mais perguntas: quem não pode aceitar isso? Ele
próprio, Alencar, que nesse caso estaria usando o plural para economizar
a primeira pessoa? Os empresários, grupo ao qual pertence, como
dono de importante indústria têxtil? O povo? Em qualquer
caso, o que "não se pode aceitar" é uma política
do governo. Ou seja: em pose tipicamente itamarista, Alencar vestia a
camisa da oposição, contra o governo do qual faz parte.
Menos mau, para Lula, se o que se insinuou na semana passada não
vier a tomar vulto, mas a má sorte que o ameaça é
uma insistente característica da política brasileira
o vice que, antes de ajudar, atrapalha. Tal síndrome nasceu com
a República. O primeiro vice, Floriano Peixoto, chefiou a conspiração
que levou o primeiro presidente, Deodoro da Fonseca, à renúncia.
Em troca, em sua carta de despedida, Deodoro escreveu que deixava o poder
"nas mãos do funcionário a quem incumbe substituir-me".
Funcionário! O vice virou simples funcionário! O segundo
vice, o baiano Manuel Vitorino, assumiu como se inaugurasse governo próprio,
demitindo ministros e reorientando políticas, quando lhe coube
substituir o titular que adoecera, Prudente de Moraes. Um dia, aproveitando
que Vitorino ia passar a noite fora, Prudente reinstalou-se no palácio,
sem aviso prévio. Apenas mandou bilhete ao vice comunicando-lhe
o fim da interinidade.
Não é preciso voltar tanto na história. Itamar, o
de carne e osso, não o Itamar metafórico invocado parágrafos
atrás, foi um vice que atazanou a vida do titular, Fernando Collor.
Por mais que este merecesse ser atazanado, não caberia ao vice
fazê-lo, sob pena da suspeita de querer roubar-lhe o cargo. Jango
Goulart foi um vice esquivo, de duvidosa lealdade, dos presidentes Juscelino
Kubitschek e Jânio Quadros. E, no mandato anterior, Café
Filho prestou-se à conspiração que resultou no suicídio
de Getúlio Vargas. O comportamento discreto e leal do vice de Fernando
Henrique Cardoso, Marco Maciel, configura uma exceção, no
rol dos ocupantes do cargo. Um dos males que costumam atacar os vices
é considerarem-se mais do que são. Tomara que não
vá mais longe, mas Alencar escorregou perigosamente nessa direção
ao incluir, em suas declarações da semana passada, a afirmação
de que, no dia em que não puder expressar suas opiniões,
terá de pedir desculpas aos que o elegeram e ir embora. "Tenho
175 milhões de patrões a quem dar satisfações",
acrescentou. Como se tivesse sido ele a estrela das eleições!
Como se ele, e não Lula, tivesse atraído os votos e a ele,
e não a Lula, coubesse honrá-los.
Que fazer com essa figura em geral infausta na política brasileira
do vice-presidente? Uma solução seria, uma vez empossado,
submetê-lo a uma injeção que o fizesse dormir até
que uma razão grave, vale dizer, o impedimento definitivo, ou pelo
menos prolongado, do titular, tornasse necessário despertá-lo.
O coma induzido viria como atributo inescapável do cargo, inexpugnável
salvaguarda que se ofereceria contra os palpites infelizes ou as picadas
da mosca azul. Outra solução seria extinguir o cargo. Muitos
países não têm vice realizam nova eleição,
quando falta o titular. Tanto numa como noutra hipótese, haveria
vantagem adicional: desapareceriam as grotescas cerimônias de transmissão
do cargo quando das viagens do presidente, como se ele não pudesse
governar de longe, com os recursos que as telecomunicações
lhe oferecem, e como se ao outro coubesse efetivamente governar, nas curtas
interinidades para as quais é convocado.
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