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Edição 1 804 - 28 de maio de 2003
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Pais que espionam os filhos

Famílias contratam detetives particulares
para descobrir se jovens usam drogas

Rosana Zakabi

 
Claudio Rossi

A detetive Lucilene Victório na porta de uma escola: 400 reais por dia

Qualquer família entra em desespero quando descobre que um de seus membros se envolveu com drogas. Não há receita fácil para lidar com essa situação dilaceradora. Pior ainda é decidir o que fazer quando não se sabe e apenas se desconfia. Uma solução drástica está se tornando comum entre as famílias de classe média: contratar um detetive para tirar a dúvida a limpo. Investigar jovens de classe média para saber se há envolvimento com drogas é hoje o serviço mais solicitado às agências de detetives particulares, atrás apenas dos casos de infidelidade matrimonial. A maioria da clientela mora em São Paulo e no Rio de Janeiro. Mas também há demanda pelo serviço no Espírito Santo, Brasília, Bahia, Paraná e Rio Grande do Sul. A investigação é simples, na maioria das vezes. Os detetives seguem o jovem desde o momento em que sai de casa até a hora em que retorna. Em alguns casos, grampeiam os telefones da casa, vasculham os e-mails do investigado e usam disfarce para se aproximar de seus amigos.

A suspeita dos pais é confirmada em 90% dos casos. "Geralmente eles já sabem que o filho usa entorpecentes", diz Rafael Gomes, da agência Márcia e Rafael, do Rio. "Os clientes querem apenas provas concretas, como fotos e vídeos, para encostar o filho na parede", diz ele. Os investigados em geral têm entre 13 e 20 anos, pertencem à classe média alta e compram drogas diretamente em favelas, botecos, lanchonetes da periferia e até dentro do próprio colégio em que estudam. Em um caso, uma agência instalou uma microcâmera no banheiro do cliente. A mãe tinha encontrado resíduos de pó na pia e no espelho e desconfiou que o filho consumia cocaína. Muitas vezes, o adolescente é flagrado entrando numa favela da periferia. "Ele fica olhando para os lados e anda rápido, com medo de que descubram que está fazendo algo de errado", conta Lucilene Victório, chefe do departamento de investigação do Instituto Universal dos Detetives Particulares, em São Paulo. Em Brasília, é mais freqüente que a droga seja comprada dentro da escola. "São alunos que adquirem grandes quantidades de traficantes e distribuem entre os colegas", diz Edilmar Lima, diretor da Central Única Federal dos Detetives do Brasil.

A investigação dura, em média, duas semanas e o preço é salgado: varia de 400 a 600 reais por dia. "Desvendamos o caso com rapidez porque nenhum viciado consegue passar mais que duas semanas sem usar drogas", diz Gomes, da Márcia e Rafael. Quando os pais decidem colocar um investigador atrás do filho é porque a situação familiar chegou ao limite. O jovem vai mal na escola, abandonou os amigos e a namorada, vive irritado, briga com os pais e tem insônia. Ainda assim, nem sempre o resultado é o melhor. "Se o filho não usar drogas e descobrir que está sendo seguido, o relacionamento com os pais desabará de vez", afirma a educadora Tânia Zagury, autora de vários livros sobre adolescentes, entre eles Adolescente por Ele Mesmo, da Editora Record. "Mas, se não existir diálogo na família, o filho só vai admitir o problema diante de provas." Para o psiquiatra paulista Içami Tiba, especialista em adolescentes, essa é a melhor forma de tentar salvar o jovem viciado em drogas. "Nem todos os drogados têm cura", diz Tiba. "Portanto, quanto mais cedo se descobrir o vício, seja por qual método for, melhor."

   
 
   
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