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O cerco do narcotráfico
Não
se abriu nenhuma investigação quando o coronel fez essa
denúncia contra o secretário de Estado no documento reservado.
Na semana passada, finalmente, um inquérito foi iniciado
mas só depois que o documento apareceu nas páginas do jornal
O Globo. Nessa altura, o coronel já havia sido afastado
de seu comando. Acabou preso por ter falado em "interesses políticos"
por trás de sua destituição. O secretário
acusado, Francisco de Carvalho, foi o segundo deputado estadual mais votado
pelo PSB, partido da governadora Rosinha Garotinho. É também
o responsável por um dos projetos sociais mais bem-sucedidos do
país, a Vila Olímpica da Mangueira, que ganhou
visibilidade internacional quando foi visitada, em 1997, pelo ex-presidente
americano Bill Clinton. Carvalho já ocupava um cargo no secretariado
do governo passado, de Anthony Garotinho, e foi mantido na gestão
da governadora Rosinha. É, portanto, um prestigiado integrante
da cúpula do governo do Rio de Janeiro. O coronel Erir é
um funcionário público de ficha exemplar. Os traficantes
em questão são conhecidos por gerenciar um dos mais rentáveis
pontos-de-venda de drogas da cidade e do país. É inexplicável,
portanto, que uma denúncia desse teor tenha ficado engavetada durante
três meses. A atitude de fechar os olhos a fatos dessa gravidade
já se demonstrou dramaticamente equivocada. Pode-se atribuir a
ela boa parte da responsabilidade pela assustadora escalada da violência
que se viu no país nos últimos vinte anos.
O primeiro passo a ser dado pelas autoridades é compreender duas lições: Todo país que se torna rota do tráfico de drogas rapidamente vira também um grande consumidor. Droga e arma são as pernas do crime organizado. Uma não vive sem a outra. Não
levar em conta esses pressupostos gerou conseqüências devastadoras.
Segundo dados do Sistema Nacional de Armas (Sinarm), em 1990 foram apreendidas
227 armas em todo o país. No ano passado, as polícias estaduais
e a Polícia Federal recolheram das mãos dos bandidos 16.545
revólveres, pistolas e fuzis. Ou seja, em doze anos, o índice
de armamento ilegal encontrado pelas polícias estaduais e pela
Polícia Federal aumentou 73 vezes. Além disso, não
se deve subestimar o tamanho do arsenal que, ano a ano, consegue escapar
dessa vigilância. Um exemplo: em 1981, a Divisão de Fiscalização
de Armas e Explosivos (DFAE) da Polícia Civil do Rio de Janeiro
tinha apreendido apenas quatro fuzis, número que em 1998 chegou
a 430. Hoje estima-se que, só nas favelas do Rio, existam 47.000
armas em poder dos soldados do tráfico, sendo que 30% cerca
de 14.000 são fuzis, metralhadoras e
submetralhadoras, material mais que suficiente para abastecer duas brigadas
do Exército. "O que torna a situação brasileira diferente
de qualquer outro lugar, e muito mais violenta, é a presença
desse tipo de arma nas mãos dos traficantes", explica o pesquisador
argentino Pablo Dreyfus, especializado no estudo das conseqüências
do tráfico na América do Sul.
O avanço do narcotráfico sobre o Brasil é um fenômeno recente, e ainda pouco estudado. Até o início da década de 80, o país não merecia nenhuma atenção por parte dos barões mundiais da droga, os cartéis da Colômbia e da Bolívia, que despejavam toneladas de cocaína nos Estados Unidos, através do México e de países do Caribe. Em 1985, as autoridades americanas iniciaram uma ofensiva que culminou na desarticulação dos cartéis. Os traficantes, porém, reorganizaram-se em pequenas "firmas", como ficaram conhecidas as quadrilhas, e passaram a fazer do Brasil uma rota alternativa. Começava assim a história do domínio dos traficantes sobre áreas importantes de grandes cidades, como as favelas. Para manter essas regiões sob controle, os bandidos precisaram armar-se cada vez mais. No Rio de Janeiro, esse cenário agravou-se por responsabilidade de sucessivos governos que, entre acessos de demagogia e omissão, fecharam os olhos ao crescimento vertiginoso das favelas e à expansão do poder do tráfico. Hoje, o Brasil é o maior importador mundial da cocaína produzida na Bolívia e um dos pólos do contrabando de armas fabricadas na China, Estados Unidos, Israel, Áustria, Bélgica e outros países. Drogas, armas e o alto grau de letalidade decorrente dessa equação têm feito a diferença nas estatísticas de violência no Brasil. A título de comparação, três Estados americanos que também convivem com o problema do tráfico de drogas Califórnia, Washington e Nova York apresentam, em média, uma taxa de homicídios de 8,3 mortes por 100.000 habitantes. No Rio de Janeiro, esse índice é de 40,1 mortes. Em São Paulo, de 34,7, e no Rio Grande do Sul, de 16,2. São algumas das mais altas taxas do mundo. A incidência de mortes intencionais nas favelas das mais violentas capitais brasileiras é seis vezes maior que a de outras regiões dessas cidades. Um dos grandes desafios do combate ao tráfico é, por isso, cortar os canais de entrada de drogas e armas no país. É tarefa das mais árduas. A complexa rede de distribuição mundial tem conexões com a rota do chamado comércio legal. Portos, aeroportos e rodovias formam o principal meio pelo qual carregamentos de drogas e armas são entregues aos bandidos. Em abril deste ano, o departamento de Justiça americano desbaratou uma das principais quadrilhas de tráfico de heroína para Nova York. A droga chegava de navio, vinda do Afeganistão, e ficava escondida sob a costura de roupas tradicionais afegãs. O processo que transformava a vestimenta em esconderijo de heroína era comandado a partir de uma fábrica no Paquistão. Hoje, o Brasil é um grande exportador de cocaína boliviana e colombiana para os países da Europa. A droga sai pelo Porto de Santos e é introduzida no continente europeu através de duas das principais portas de entrada de produtos brasileiros Roterdã, na Holanda, e Gênova, na Itália. Com isso, a circulação de drogas em território brasileiro aumentou em proporções estratosféricas. "Quando eu ingressei na carreira, em 1973, o sonho de todo agente era apreender 1 quilo de cocaína. Hoje, conta-se em toneladas", diz o delegado Getúlio Bezerra, diretor da divisão de repressão a entorpecentes da Polícia Federal. Outro problema é que traficantes de drogas e contrabandistas de armas estão sempre mudando suas estratégias, em reação aos movimentos de repressão da polícia e dos governos. A troca de carregamentos de armas por drogas, uma prática comum, tem dificultado o rastreamento das ações dos traficantes, já que nesses casos não há transações em dinheiro. Além disso, para cada país, existem táticas diferentes. Nesse sentido, o Brasil é exemplar. Até 1996, boa parte das armas contrabandeadas para o país era fabricada nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia, que as exportavam legalmente para o Paraguai. Bastava a um traficante cruzar a fronteira, apresentar-se como turista, comprar a arma que quisesse incluindo aí fuzis de guerra automáticos e semi-automáticos e retornar tranqüilamente ao Brasil. No ano seguinte, os Estados Unidos, um dos principais países de origem do armamento em poder dos traficantes brasileiros, suspenderam a venda de armas e munições para o Paraguai. Os bandidos, então, criaram uma nova rota, que incluía a exportação legal de armamento fabricado em empresas brasileiras para o país vizinho e o seu posterior retorno, em forma de contrabando. Em 2000, o Paraguai decretou uma moratória de importação de armas brasileiras, cujo prazo expirou neste ano, e recentemente aprovou uma lei proibindo a compra de armas de fogo por turistas estrangeiros. Nesse período, cresceu o comércio ilegal para o Brasil do arsenal fabricado em Israel, no Leste Europeu e na Argentina. Para chegar às favelas do Rio e de São Paulo, as armas passam por portos, pistas de pouso clandestinas e principalmente estradas vicinais. Segundo dados da Polícia Federal, 70% das armas chegam ao país por terra, na fronteira brasileira, na altura dos Estados de Mato Grosso do Sul e Paraná. Essa logística só pode ser sustentada por uma rede altamente estruturada. A isso se deu o nome de crime organizado. O alemão Arndt Sinn, professor da Universidade de Giessen e estudioso da criminalidade na Europa, diz que só é possível falar em crime organizado em um país quando as atividades ilícitas reúnem as seguintes características: Estrutura profissional Formas de disciplina e controle dos integrantes Ação em escala internacional Prática de delitos graves Lavagem de dinheiro Busca de poder e lucro Diante desse quadro, alguém ainda tem dúvidas de que o narcotráfico no Brasil se estruturou como uma organização criminosa? Para manter seu domínio, essa corporação do banditismo criou tentáculos no mundo empresarial, político e até no Judiciário, à base de corrupção e muito dinheiro. Nunca esses indícios ficaram tão claros. Em fevereiro deste ano, o deputado federal Pinheiro Landim (sem partido-CE) bateu um recorde: renunciou duas vezes ao mandato em um intervalo de apenas quarenta dias, para evitar a cassação pela Câmara. Landim é suspeito de usar sua influência para conseguir, no Judiciário, habeas corpus em favor de traficantes. Um mês depois, em atitude inédita, o Superior Tribunal de Justiça, uma das mais altas cortes no país, decidiu afastar o ministro Vicente Leal, para analisar indícios de seu envolvimento no mesmo esquema do qual faria parte Pinheiro Landim. No Espírito Santo, uma força-tarefa que conta com a participação do governo federal já levou à prisão o ex-presidente da Assembléia Legislativa José Carlos Gratz, o coronel da Polícia Militar Walter Ferreira e empresários com posição de destaque no Estado. A reação do crime organizado não tardou. Em março, o juiz Alexandre Martins, que auxiliava a força-tarefa, foi morto com três tiros. Episódios como esse mostram que não há outra saída senão reagir duramente ao poder dos criminosos. Por enquanto, por parte do governo federal e dos Estados, o que se tem visto é um rol de boas intenções e poucos resultados positivos. Uma exceção é o trabalho conjunto realizado no Espírito Santo, que inclui agentes da Polícia Federal, promotores, juízes, procuradores, policiais estaduais e fiscais da Receita. A decisão do governo federal de criar uma polícia de elite para combater o narcotráfico, anunciada na semana passada, também é um bom indício de que as autoridades começam a perceber que o crime organizado não abrirá mão de seu poder apenas com discursos inflamados. Mas é só um primeiro passo. As mazelas da estrutura de repressão à violência continuam as mesmas de duas décadas atrás, quando o narcotráfico ainda engatinhava. A corrupção na polícia é uma chaga aberta, e as leis de combate ao crime ficaram desatualizadas. A legislação que reprime o contrabando de armas, por exemplo, é a mesma que trata do comércio ilegal de brinquedos e lingerie. Outro problema
crônico é a falta de estrutura para a guerra ao tráfico
de drogas e armas, principalmente levando em conta as dimensões
do país. O Brasil tem quase 16.000 quilômetros
de fronteira, boa parte dela com três países que estão
entre os maiores produtores mundiais de cocaína Colômbia,
Bolívia e Peru. Estima-se que, nessa vastidão, existam centenas
de pistas de pouso clandestinas, com aviões de traficantes invadindo
tranqüilamente o espaço aéreo brasileiro. Além
disso, os 8 000 quilômetros de litoral são usados com freqüência
para o ingresso de mercadoria ilegal. A Polícia Federal, a quem
cabe o controle da ação desses criminosos, tem ao todo cerca
de 11.000 agentes. Desses, apenas 1.000
estão diretamente ligados à repressão ao tráfico
de entorpecentes. Para se ter uma idéia do quão diminuto
é esse efetivo, já na década de 70 um estudo do governo
apontava que a Polícia Federal precisava de pelo menos 18.000
agentes.
Além dessas deficiências, o que torna particularmente difícil a atual situação do Brasil diante da violência é o fato de o crime organizado se fazer presente em quase todas as regiões, a partir das principais capitais. Em outros países, especialmente os Estados Unidos e a África do Sul, o problema é igualmente grave, mas circunscrito a algumas metrópoles, como Washington, Los Angeles e Johanesburgo. Em nenhuma delas, porém, há a sensação generalizada de descontrole, de falência do Estado diante do poder do crime, como ocorre no Brasil. O melhor exemplo de comparação com o caso brasileiro talvez seja a Itália, que a partir dos anos 70 se viu engolfada pela ameaça de desestabilização institucional, em decorrência das ações da Máfia. A reação da sociedade, porém, foi enérgica. No fim da década de 80, boa parte do Código Penal italiano foi alterada, para munir o Judiciário de instrumentos mais duros, usados exclusivamente contra a Máfia. Escutas telefônicas de urgência, arresto preventivo dos bens de mafiosos e prisões de até 48 horas sem mandado judicial foram aprovados pelo Parlamento italiano. Mesmo assim, a organização criminosa ainda matou 24 juízes e promotores, até que fosse completamente desmantelada. "No início, não se entendeu o que essa mensagem de violência representava. Depois, porém, o Estado passou a considerar a Máfia como um caso de emergência nacional, e não apenas como um fenômeno criminal", explica a VEJA o procurador antimáfia de Roma, Giovanni Salvi, membro do Conselho Superior da Magistratura italiana. Essa é a lição que o Brasil precisa aprender.
Com
reportagem de Ronaldo
França e Silvia Rogar
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