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Edição 1 804 - 28 de maio de 2003
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Eles têm quase
tudo em comum

Cientista americano demonstra que
homens e chimpanzés apresentam
99,4% de semelhança em seu DNA
e reabre um debate da época de
Charles Darwin

João Gabriel de Lima

O que diferencia o ser humano dos outros animais? De acordo com o Gênesis, todos foram criados no sexto dia, mas só o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus. "Ele submeterá os peixes do mar, os pássaros do céu, os animais grandes, toda a terra e todos os animais pequenos que rastejam sobre a terra", diz o versículo 26 do primeiro capítulo do primeiro livro da Bíblia. No século XIX, o naturalista inglês Charles Darwin provocou uma das maiores revoluções na história do pensamento ao mostrar, em sua obra A Origem das Espécies, que o homem e os demais primatas tinham ancestrais comuns. Até hoje sua teoria provoca discussões apaixonadas. Em algumas escolas religiosas dos Estados Unidos os livros de Darwin não são ensinados nas aulas de ciências. Mesmo tendo um ancestral comum com o macaco, o homem sempre ocupou uma posição de destaque na classificação dos seres vivos feita no século XVIII pelo botânico sueco Carlos Lineu. Somos os únicos representantes do gênero Homo e da espécie sapiens. Nossos predecessores, como o Homo erectus e o Homo neanderthalensis, estão extintos há milhares de anos. Na semana passada, o cientista americano Morris Goodman sugeriu, em um estudo publicado na revista científica PNAS, que os chimpanzés (Pan troglodytes) fossem incluídos no gênero Homo. Goodman tem um bom argumento para isso. Sua equipe fez uma análise comparativa de amostras de DNA humano e de chimpanzés, mostrando que há 99,4% de semelhança. Segundo o estudo, os chimpanzés estão mais próximos do homem do que de outros primatas, como os orangotangos e gorilas.

A querela surgida no tempo de Darwin opunha cientistas e religiosos. Para a Igreja, era difícil reconhecer que o homem não era uma criação privilegiada de Deus. Em vez de anjos imperfeitos, seríamos, segundo os cientistas, nada mais que macacos aperfeiçoados. O livro de Darwin teve um impacto semelhante ao das teorias de Galileu Galilei, sobre o fato de a Terra não ser o centro do universo. No século XVII, como observou o dramaturgo alemão Bertolt Brecht em sua magistral peça sobre o astrônomo italiano, Galileu teria relegado a principal criação de Deus a um planeta secundário. Na seqüência, Darwin teria rebaixado o status do homem dentro do plano divino. Doze anos depois de A Origem das Espécies, o cientista inglês ainda escreveu A Origem do Homem, texto em que questiona todas as especificidades do ser humano. Seríamos os únicos agraciados com o dom da linguagem? Não, diz Darwin, pois vários animais emitem sons diferentes de acordo com a situação. Na época, sob influência do filósofo alemão Immanuel Kant, achava-se que a principal característica do homem era o sentido de dever, que levaria à criação de um código moral. Darwin não se insurge contra Kant, mas observa que a moral está intimamente relacionada com a sociabilidade, e várias espécies animais desenvolveram formas de vida em comum.

A descoberta de Goodman se insere na área da pesquisa de DNA, que começa a modificar os critérios de classificação dos seres vivos, antes predominantemente morfológicos. O urubu americano, que pertencia à ordem dos falconiformes, foi recentemente incluído entre os ciconiformes – por seu DNA ser mais parecido com o da cegonha do que com o do falcão. "Se hoje, com a genética, temos acesso a novas informações sobre as diversas espécies, temos de levar em conta essas informações", disse Morris Goodman a VEJA. Se começar a valer o critério da semelhança genética, a zebra e o cavalo, por exemplo, que pertencem ao mesmo gênero – Equus –, deveriam ser separados. Afinal, eles têm apenas 97% de semelhança no DNA, menos do que o homem e o chimpanzé. É errôneo supor, a partir do texto de Goodman, que o chimpanzé poderá evoluir até se transformar num homem. "As duas espécies se diferenciaram há 6 milhões de anos, e a partir daí passaram a seguir caminhos próprios", informa Goodman.

O mais interessante de sua pesquisa, no entanto, é que ela traz de volta a questão da época de Darwin. Afinal, o que faz de um ser humano um ser humano? É uma pergunta complexa, e que fica mais difícil de responder a cada nova descoberta científica. Na mesma época em que Darwin escrevia seu clássico A Origem das Espécies, estava em moda o estudo das diferentes raças humanas. Durante um período que se esticou até a metade do século XX, houve quem acreditasse na existência de raças superiores e inferiores. O estudo da genética provou que essa concepção era um disparate. Pode haver mais semelhanças entre o DNA de um sueco e o de um africano do que entre o DNA de um sueco e o de outro sueco. Hoje se sabe que as diferenças entre os povos se devem muito mais a fatores ambientais e culturais do que a raciais – como queria o brasileiro Gilberto Freyre em seu clássico Casa-Grande e Senzala, de 1933. Projetando esse argumento para a totalidade dos seres vivos, pode-se inferir que as diferenças na evolução talvez não se devam apenas a razões genéticas. "É possível encontrar semelhanças incríveis entre o DNA do homem e o de vários animais", acha o geneticista Fabrício Santos, da Universidade Federal de Minas Gerais, um especialista em evolução. "Só o ser humano, no entanto, foi capaz de transmitir conhecimentos de geração em geração, garantindo o progresso das artes e das ciências." Resta muito ainda a descobrir sobre o 0,6% que faz tanta diferença. "Um homem religioso diria que é exatamente aí que está Deus", escreveu certa vez o biólogo americano Ernst Mayr, um dos maiores especialistas do mundo em Darwin. Um materialista diria que ali estão a inteligência e o raciocínio. O certo é que, graças a esse 0,6%, um ser humano – Beethoven – escreveu a Nona Sinfonia. Um chimpanzé certamente não conseguiria tanto – embora talvez, com algum tempo livre, fosse capaz de criar alguns dos sucessos de pagode e música axé que seus primos sem pêlo produzem...

   
 
   
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