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Como morriam
os gladiadores
Pesquisa
mostra o fim brutal
dos derrotados nas lutas na
arena do Império Romano
Daniel
Hessel Teich
Fabiam Kanz
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Fabiam Kanz
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| Reconstituição
de uma luta: armas seguiam regras para dar chances iguais aos combatentes |
O
golpe mortal com o tridente era na parte de trás do crânio do lutador
caído ao solo |
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Fabiam Kanz
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| O
golpe de misericórdia no lutador derrotado era aplicado nas
costas e a espada atingia o coração |
Durante 700 anos, as sangrentas lutas de gladiadores foram o mais popular
espetáculo do Império Romano. Quase tudo o que se sabe sobre
quem eram, como viviam e como morriam esses atletas da Antiguidade vem
de referências indiretas, como inscrições, desenhos
e relatos da época. Pela primeira vez, um grupo de pesquisadores
austríacos está conseguindo traçar um retrato realista,
baseado em evidências materiais, do que foram essas lutas travadas
até a morte para o divertimento da multidão. O objeto de
estudo é um cemitério no oeste da Turquia onde foram encontrados
os esqueletos de 120 gladiadores, quase todos mortos em combate ou executados
depois de derrotados na arena. As ossadas, datadas dos séculos
III e IV, tinham marcas de ferimentos feitos por espada, tridente e por
uma arma pouco comum, chamada quadridente cúbico, uma espécie
de garfo grande com quatro dentes dispostos bem perto uns dos outros que
se imaginava usada apenas em rituais religiosos.
O
mais impressionante eram as formas de execução dos gladiadores
derrotados. Aquele que tivesse ferimentos leves esperava de joelhos pelo
julgamento da platéia. Caso a decisão fosse pela execução,
ele era morto com um golpe de espada na jugular. Se estivesse muito debilitado,
era mantido de quatro na areia e recebia o golpe nas costas, na altura
do ombro. A lâmina penetrava entre os ossos e chegava diretamente
ao coração. As ossadas foram achadas na antiga cidade de
Éfeso, a mais movimentada da Ásia Menor na época,
com 200.000 habitantes. Sua arena, adaptada sobre um teatro grego, podia
acomodar 25.000 espectadores, a metade da lotação do Coliseu
de Roma. Os arqueólogos da Universidade de Viena encontraram junto
às tumbas muitos desenhos e inscrições a respeito
da vida dos gladiadores sepultados. Iam desde grafites desenhados por
crianças até entalhes nas lápides. Essas inscrições
permitiram que identificassem um jovem de 21 anos que treinava para ser
gladiador desde os 17 e foi morto na quinta vez em que se apresentou na
arena. Outra história contada nas inscrições é
a de um lutador de 30 anos que foi muito admirado pelos moradores de Éfeso:
venceu 21 lutas e foi poupado da morte pela platéia em quatro derrotas.
As inscrições mostravam que era possível aos combatentes
morrer de velhice. Um deles viveu até os 99 anos depois de ter
sido libertado e receber uma pensão do império por várias
décadas.
Os gladiadores eram, em sua maioria, criminosos condenados, prisioneiros
de guerra e escravos. A análise das ossadas pelos pesquisadores
austríacos mostrou que eram muito bem tratados enquanto estavam
em treinamento. É fácil entender por quê. Os melhores
lutadores valiam o equivalente a quinze vezes o salário anual de
um legionário. Se acumulavam um número suficiente de vitórias,
eram libertados e, não raro, transformavam-se em organizadores
de luta. As regras do jogo eram rigorosas e sempre buscavam um equilíbrio
de forças entre os dois gladiadores. As armas e as roupas de proteção
seguiam um padrão fixo, para que um não levasse nenhuma
vantagem em relação ao outro. O que encantava a platéia
era a destreza demonstrada na arena. "Eram apenas dois combatentes. Lutas
com um único gladiador perseguido por vários oponentes com
armaduras extravagantes não existiam. Isso só se vê
nos filmes de Hollywood", disse a VEJA Fabian Kanz, antropólogo
da Universidade de Viena, um dos arqueólogos que analisaram as
tumbas de Éfeso.
Os
gladiadores treinavam com intensidade e, a julgar por seus restos, tinham
o preparo físico de um atleta moderno. Quando sobreviviam, os ferimentos
eram muito bem tratados. Os especialistas que estudaram os esqueletos
encontraram um osso de antebraço com uma fratura que tinha sido
tão bem cuidada que mal aparecia a olho nu. Um resultado assim
só é possível com pronta intervenção
de um médico hábil seguida de um bom tratamento de fisioterapia.
Muitas das ossadas revelam uma característica observada hoje nos
tenistas profissionais: o braço que empunhava a espada chega a
ser 5 centímetros mais comprido que o outro. Outra semelhança
com os tempos modernos são lesões de tendões e articulações,
bem parecidas com as dos esportistas do século XXI. A grande diferença
era, evidentemente, que, ao contrário do que ocorre hoje, um atleta
que desagradasse à platéia na arena romana não vivia
para se apresentar em outra competição.
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