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O vice que ruge
Numa
semana em que tudo sugeria
normalidade, José Alencar
se destempera,
arromba a
cena pública e faz
discursos
virulentos contra
os juros altos. Com
isso,
consegue apenas insultar
colegas da equipe
econômica,
constranger o
presidente e
criar a única coisa
pior que juros altos:
a fogueira
da desconfiança

Maurício
Lima
Dida Sampaio/AE
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AO
PÉ DO OUVIDO
Sem alarde, Lula conversou com Alencar e pediu silêncio sobre
os juros |

Veja também |
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José
Alencar Gomes da Silva, 71 anos, mineiro de Muriaé, chegou a vice-presidente
da República a bordo de uma carreira política tão
discreta quanto sua personalidade. Como empresário milionário,
entrou para a política em 1998, quando obteve seu primeiro mandato
de senador com uma campanha custeada pelo próprio bolso. No ano
passado, entrou para a chapa de Luiz Inácio Lula da Silva como
forma de viabilizar uma aliança com o pequeno Partido Liberal,
dono na época da oitava maior bancada na Câmara dos Deputados.
Na campanha presidencial, o vice-candidato agiu de forma exemplar, como
coadjuvante que fazia questão de deixar os holofotes ao titular.
No
posto de vice-presidente, ocupou seu gabinete no discreto prédio
anexo ao Palácio do Planalto e, ali, cumpria as missões
que o presidente lhe reservava. As imensas caravanas de prefeitos do interior,
que não cabiam na agenda presidencial, acabavam na sala de espera
do vice. Nos últimos dias, porém, José Alencar virou
um leão inquieto e desembestou a rugir altíssimo
contra as altíssimas taxas de juros.
No início
da semana, às vésperas da reunião do Comitê
de Política Monetária (Copom), órgão que define
a taxa de juros, Alencar fez um discurso sanguíneo para uma platéia
de prefeitos, em Belo Horizonte. Exigiu a redução imediata
das taxas de juros e pôs em dúvida a "competência"
do Banco Central para administrar o assunto. "Não podemos ficar
à mercê desse pessoal que nos colocou no cabresto", disse
Alencar. De duas uma: "esse pessoal que nos colocou no cabresto" ou é
o pessoal do sistema financeiro ou então é o pessoal do
Banco Central, que estaria se curvando ao poder dos banqueiros. Em qualquer
dos casos, Alencar insultou seus colegas que cuidam da política
econômica do governo, ao desqualificá-los como incompetentes
movidos por propósitos sombrios em relação aos demais
brasileiros. No dia seguinte, o vice falastrão afirmou que, na
falta de ousadia ou coragem para mudar, era melhor pedir desculpas ao
eleitorado brasileiro e "voltar para casa", como se o eleito para o Planalto
tivesse sido ele e não Luiz Inácio Lula da Silva.
Ao atacar
a correção técnica dos encarregados das taxas de
juros no governo Lula, Alencar não estava falando apenas como um
empresário preocupado e sincero. Falava também como vice-presidente
da República, emitindo um sinal à sociedade que carrega
um poder destrutivo de arma nuclear. Afinal, juros exagerados são
a segunda pior coisa que existe para o crescimento de um país.
A primeira pior coisa é incendiar o ambiente com uma fogueira de
desconfiança. Se o Banco Central tivesse baixado a taxa de juros,
curvando-se às pressões de Alencar, de alguns petistas de
alma argentina e de parte do empresariado brasileiro, a confiança
no ministro da Fazenda e no presidente da instituição estaria
tão abalada que nada mais teriam a fazer senão afastar-se
imediatamente do cargo. De outro lado, José Alencar, mesmo que
não tenha tido essa intenção, questionou a autoridade
do presidente da República, avalista final da política econômica
e o único brasileiro com o privilégio político e
funcional de demitir qualquer membro da equipe econômica.
Um petista
de cúpula, o presidente da Câmara, João Paulo Cunha,
precisou explicar que o Banco Central não poderá baixar
os juros enquanto essa matilha de "tagarelas" ficar promovendo jogos de
pressão política em torno do assunto. A guerra intestina
de Brasília adquiriu uma reverberação tamanha que
foi parar nas páginas do Financial Times, o principal diário
econômico da Europa, que classificou o movimento de "pressão
incomum". Na quarta-feira, nesse clima enevoado, o Copom manteve os juros
em 26,5% e não anunciou sequer a adoção do tal "viés
de baixa", o jargão tecnocrático usado pelo BC para informar
ao mercado que, a qualquer momento, a taxa pode cair.
Gustavo Miranda
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SAÍDA
ANTECIPADA
Goldfajn: censura à competência foi demais |
O vice-presidente José Alencar está coberto de razão
em sua oposição às taxas de juros que se encontram
num patamar astronômico. Com certeza, assim também pensam
o presidente Lula e os surfistas, o ministro Antonio Palocci e os bailarinos,
o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e os atores da Globo.
Obviamente, ninguém quer juros na estratosfera, nem mesmo os banqueiros,
normalmente apontados como beneficiários dessa política.
Nem eles aplaudem os 26,5%, pois sabem que manter juros nas estrelas por
muito tempo produz um rombo tão monumental nas contas do governo
que a dívida pública se torna impagável e, tornando-se
impagável, todos, inclusive os banqueiros, saem perdendo. Além
de adotar com estridência uma posição consensual no
Brasil de norte a sul, José Alencar também não é
o único membro do governo a criticar os juros. O senador petista
Aloizio Mercadante, por exemplo, já fez reparos aos juros ou à
política cambial, e nunca escondeu sua oposição a
algumas diretrizes da política econômica de Palocci, a ponto
de ter sido comparado com o ex-ministro José Serra, que promovia
uma guerra subterrânea contra seu colega da Fazenda, Pedro Malan.
A diferença foi o tom e a virulência adotados por Alencar.
Suas críticas
foram tão excessivas e fora do tom que causaram perplexidade até
dentro do governo. O ministro José Dirceu, chefe da Casa Civil,
ficou tão irritado com a destemperança de Alencar que levou
suas queixas ao presidente Lula. Na conversa, José Dirceu pediu
ao presidente que Alencar fosse devidamente enquadrado e proibido de repetir
seus comentários. Lula teve um diálogo amigável com
seu vice, não chegou a enquadrá-lo do modo severo como queria
o ministro da Casa Civil, mas pediu que Alencar observasse silêncio
sobre o assunto. Em entrevista a VEJA em seu gabinete, concedida no dia
em que o Copom reafirmou a taxa de juros em 26,5%, o ministro Antonio
Palocci admitiu que o vice exagerou, mas, por gentileza, negou qualquer
mal-estar adicional (veja
entrevista). "Na verdade, houve um clima forte de constrangimento",
confessa um assessor do governo com trânsito na equipe econômica.
Na cúpula
do Banco Central, os discursos do vice tiveram péssima repercussão.
O diretor de Política Econômica, Ilan Goldfajn, segundo em
importância no BC, já havia combinado deixar o governo. Ele
ocupava o posto desde a gestão anterior e queria voltar a atuar
no mercado, onde a contrapartida salarial é infinitamente superior.
Sua saída, no entanto, foi precipitada pelas críticas de
Alencar à capacidade do BC. Goldfajn achou que era demais permanecer
num cargo do qual já pretendia sair e, ainda por cima, ter de agüentar
censuras públicas à sua competência.
Os técnicos
do governo lamentam a altura dos juros, mas têm argumentos para
justificá-la. Os juros estão nas estrelas não por
falta de competência do BC. Há, para isso, duas razões
principais. A primeira, e mais importante, é que, com uma dívida
pública de 1 trilhão de reais, o Estado brasileiro precisa
compensar seus credores pelo risco de emprestar ainda mais dinheiro ao
governo e a compensação é feita na forma de
juros altos. A segunda razão é que os juros são um
instrumento de controle da inflação, que vinha dando sinais
de disparada até pouco tempo atrás. Juro alto torna as aplicações
em títulos do governo tão apetitosas que acabam por atrair
o dinheiro que, do contrário, iria para o consumo. Com uma demanda
menor, os comerciantes são forçados a subir seus preços
com mais parcimônia, reduzindo a inflação. Considerando
que as finanças brasileiras estão baseadas no tripé
das metas de inflação, do ajuste fiscal e do câmbio
flutuante, manter a inflação sob controle é vital
para a credibilidade da política econômica. Em outras palavras:
reduzir ou aumentar juros não é uma decisão que pertença
ao reino da vontade mas da realidade.
Há
uma torcida no país inteiro para que os juros caiam, mas a grita
generalizada da semana passada também mostra que existe um certo
açodamento. No início de seu primeiro mandato, o então
presidente Fernando Henrique Cardoso enfrentou o turbilhão inesperado
da falência do México. Na época, para evitar que o
Brasil fosse atingido pelo efeito dominó da crise mexicana, o governo
brasileiro fez um tremendo esforço para reverter o cenário
de altíssima vulnerabilidade. Conseguiu. A vitória mal se
anunciara, porém, e surgiram vozes afoitas exigindo providências
imediatas do governo para retomar o crescimento e criticando o presidente
por se preocupar apenas em conter a inflação. Agora, perto
de seu quinto mês de mandato, Lula lida com uma pressão semelhante.
O governo conseguiu superar o turbilhão da época da posse,
em que o risco- país estava nas alturas, o dólar batia recordes
de valorização e a inflação parecia escapar
ao controle. Sem que esses resultados estejam devidamente consolidados,
já se ouvem as mesmas críticas, entoando o mesmíssimo
cantochão: o governo estaria desprezando o crescimento e dedicando
todos os seus esforços para conter a inflação.
Como o Brasil
precisa urgentemente voltar a crescer, e os juros são uma trava
poderosa ao crescimento, é até compreensível que
se produza certa correria para destravar amarras e aproveitar os bons
momentos. Ocorre que uma política econômica séria
e responsável não pode atuar ao sabor de resultados ainda
precários. A economia brasileira tem dado sinais positivos em vários
setores. O dólar desceu para uma cotação mais realista,
o risco-país caiu 1.500 pontos em apenas oito
meses, os títulos brasileiros no exterior atingiram valorização
inédita na história e a própria inflação,
segundo mostram as pesquisas divulgadas na semana passada, está
dando sinais de recuo. Mas seria uma precipitação achar
que esse quadro é definitivo e não sofre risco de regressão.
"O Banco Central acertou em sua decisão de manter a atual taxa
de juros", diz o economista José Márcio Camargo, da PUC
do Rio de Janeiro e da consultoria Tendências. "É mesmo hora
de cautela, de consolidar resultados. Manter as taxas de juros elevadas
agora é essencial para que a queda dos preços, que já
acontece no setor de atacado, se reflita também nos índices
de preço ao consumidor", completa.
O Brasil
é, hoje, um dos poucos países em que certos pressupostos
da política monetária ainda merecem debates acalorados entre
empresários, políticos e integrantes do sistema financeiro.
Em outros países, essa fase já foi superada. Aqui, no entanto,
ainda há quem entenda que a austeridade fiscal, por exemplo, é
uma política de emergência e que, superado o problema fiscal,
ela pode ser abandonada. Não é. A austeridade fiscal veio
para ficar. É preciso reconhecer, porém, que nenhum economista
de relevo, com exceção de alguns poucos nomes ligados à
cartilha heterodoxa, está pregando guinadas econômicas. Há
um certo consenso sobre o caminho a seguir. É um sinal de que a
economia, no debate brasileiro, finalmente está deixando de ser
palco de disputa ideológica. Em artigo publicado no jornal O
Estado de S. Paulo, o economista Gustavo Franco observou que as posições
econômicas estão hoje cada vez mais homogêneas. O fenômeno
pode ser atribuído ao fato de que a economia foi invadida pela
matemática, uma ciência lógica, tendo ficado mais
distante da filosofia, um terreno de idéias e, como tal, fértil
para a discussão ideológica. É quase como se os economistas
estivessem deixando de filiar-se a "escolas de pensamento" para trocá-las
por "escolas de método". Todos pensam mais ou menos a mesma coisa,
divergindo apenas em relação a como aplicar este ou aquele
instrumento. Os juros, por exemplo.
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"Histeria
não baixa juros"
Eurípedes
Alcântara e André Petry
Veja Nunca uma reunião do Copom foi cercada de
tanta pressão pela queda dos juros. Isso prejudica?
Palocci É
inadequado. Qualquer pessoa do governo pode e deve ter opinião
sobre a taxa de juros, mas o que não se deve fazer é
insinuar, na base da pressão, que o Copom tem de fixar esta
ou aquela taxa em determinada reunião. Não ajuda em
nada histeria às vésperas das reuniões do Copom.
Todos estamos de acordo, governo e sociedade, que juro alto é
danoso para a economia. Os juros vão baixar, mas não
com gritaria nos dias que antecedem essas reuniões. As taxas
de juro vão baixar porque estão sendo criadas no Brasil
as condições necessárias para que isso ocorra.
Não vamos conviver com taxas altas indefinidamente. Mas repito
que não faremos nada por pressão política e
também não deixaremos de fazer nada apenas porque
houve pressão. Vamos fazer o que temos de fazer, tecnicamente.
A política econômica tem um rumo definido, e não
vamos abrir mão desse rumo. Quem duvidar pode pagar para
ver.
Veja
Então o vice-presidente José Alencar fez
exatamente o que não deveria?
Palocci Tenho ótimas relações com
José Alencar. O que ele diz fora do governo diz dentro também.
Ontem mesmo (quarta-feira), pela manhã, conversamos
amigavelmente. Mas acho que, nesse caso, ele exagerou. Exatamente
porque fez pressão sobre uma reunião que estava por
acontecer.
Veja
Como se derrubam os juros?
Palocci Eu quero juros mais baixos. O presidente Lula
também. Todo mundo quer. A questão, porém,
é que os juros são sempre, em qualquer economia, decorrência
do quadro geral do país. Não estão na esfera
do desejo. É um problema complexo, que tem implicações
históricas. O Brasil não possui uma boa história
econômica. Os investidores lá fora não esquecem
uma moratória de um ano para o outro. Por isso, precisamos
de tempo e, nesse tempo, teremos de ser firmes e irredutíveis
para provar cabalmente que, a partir de agora, seriedade e estabilidade
vão imperar. Daí porque, por exemplo, o respeito aos
contratos é tão importante.
Veja
O debate econômico no Brasil parece ter melhorado
de qualidade. O senhor percebe isso?
Palocci Penso justamente o contrário. O debate
em alguns setores é primitivo. Pressionar para mexer nos
juros básicos, discutir a adequação de uma
política fiscal rigorosa ou a necessidade de combater a inflação
e mesmo debater a autonomia do Banco Central são questões
superadas na maioria dos países. Esses fatores são
pressupostos da economia. Ninguém mais discute sua validade
ou necessidade. Em viagem ao exterior, quando converso com alguma
autoridade econômica sobre superávit primário,
austeridade fiscal ou coisa parecida, fico com a impressão
de que meu interlocutor não está nem compreendendo
aonde quero chegar. Como se eu estivesse levantando um debate pré-histórico.
Ninguém mais questiona isso. O mundo discute microcrédito,
financiamento. São essas coisas concretas que levam ao crescimento
e ao desenvolvimento. O resto é mero pressuposto. Aqui, ainda
achamos que política monetária pertence ao campo ideológico,
que ter ou não um Banco Central autônomo é uma
questão ideológica. Não é nada disso.
Há bancos centrais independentes em países capitalistas
ou socialistas.
Veja
Fala-se muito em fase dois da economia. Ela virá?
Palocci Existe a fase dois, mas não existe o plano
B. A política econômica é exatamente esta que
estamos praticando, e vamos continuar com ela até que, arrumada
a casa, entremos na fase dois, que vem a ser a fase do crescimento,
do desenvolvimento, da geração de empregos, do aumento
da renda. É isso que estamos perseguindo. A fase agora é
a de controlar a inflação, reduzir ao máximo
a instabilidade, produzir o máximo de credibilidade, arrumar
as contas do governo. Isso feito, entraremos na fase dois, de menor
aperto monetário. A fase dois é uma decorrência
da fase um. O problema é que há setores que querem
inverter as coisas. Querem chegar à etapa do desenvolvimento,
do crescimento e dos empregos sem o ônus da primeira etapa.
É preciso entender que não haverá uma ruptura
entre uma fase e a seguinte, não cortaremos uma fita inaugural,
não haverá um dia D de passagem para a etapa do desenvolvimento.
Ela virá como resultado do sucesso da sociedade brasileira
na fase dos ajustes.
Veja
O governo de Fernando Henrique pensava do mesmo modo,
não?
Palocci Acho que há várias diferenças.
O rigor fiscal que o governo do PT está adotando tem mais
qualidade. Não penaliza a sociedade e corta na carne as despesas
do próprio governo. Isso é um avanço, e não
um aprofundamento da política econômica anterior. Além
disso, no governo passado, imaginava-se que, arrumada a casa e cumprida
a primeira etapa, o crescimento viria naturalmente, como que por
gravidade. Nós achamos que, enquanto a casa está sendo
arrumada, é preciso pensar em ordenar o crescimento que virá
depois. Ou seja: temos de ter um projeto energético, pois,
se faltar energia, pára o desenvolvimento. Temos de definir
os setores que merecem investimentos públicos do BNDES. Não
falo apenas de setores lucrativos, mas daqueles que têm papel
estratégico no desenvolvimento do país, ou que são
capazes de garantir um ciclo mais longo de desenvolvimento, ou das
microempresas, que têm papel relevante na economia. Temos
de ordenar para que, chegada a hora de alavancar o desenvolvimento,
o país esteja preparado para dar o salto.
Veja
Os grupos que desejam inverter as fases, começando
pela segunda etapa sem antes cumprir a primeira, existem dentro
do próprio governo, não?
Palocci É verdade, existem aqui e ali. Não
existe nada organizado, não vivemos uma divisão interna
como houve no governo anterior, em que se opunham Pedro Malan e
José Serra. Isso não existe no governo atual. É
verdade, no entanto, que nem todos estão pensando do mesmo
modo e ainda há setores do PT que não acreditam, embora
já devessem estar acreditando fielmente, na orientação
que estamos dando à política econômica do governo.
Veja
Por quê?
Palocci Durante a campanha, o PT fez uma inflexão
muito intensa e toda a sociedade brasileira viu isso. Só
que alguns companheiros interpretaram essa inflexão, particularmente
quando lançamos a Carta ao Povo Brasileiro, como se fosse
uma jogada eleitoral. Na ocasião, eu me lembro de companheiros
falarem comigo, darem tapinhas nas costas e dizerem: "Bela jogada
essa, hein?". Na época, eu já dizia: "Esperem para
ver, não é jogada nenhuma, o que está dito
ali é para cumprir". É o que estamos fazendo: cumprindo
o que dissemos na campanha. Descemos, inclusive, a detalhes. Até
a reforma da Previdência está no programa de campanha.
Veja
Se o Brasil entrar num círculo virtuoso de crescimento,
o que mudará na política monetária?
Palocci O que estamos fazendo agora é para arrumar
a casa e, portanto, não vamos mais tarde desarrumá-la.
O que quero dizer é que a política de austeridade
fiscal, por exemplo, de controle severo das contas públicas,
não é uma política de emergência ou passageira.
Ela veio para ficar. Neste governo, queremos austeridade fiscal
do primeiro ao último dia. Os demais instrumentos de política
monetária, como a política de câmbio, a política
de juros, enfim, vieram para ficar. Não estamos fazendo jogo
de cena, nem vamos desarrumar a casa depois. Isso seria uma loucura.
Veja
Por que essa tarefa coube logo ao PT?
Palocci Tivemos a honra de ganhar a eleição,
mas há um detalhe interessante: só a esquerda é
capaz de fazer certas reformas no Brasil. Estou convencido de que
para o Brasil, incluindo aí o povo brasileiro e também
o mercado brasileiro, é melhor ter um governo de esquerda
que um governo de centro. Isso porque a esquerda tem uma interlocução
social, tem uma legitimidade social que lhe dá condições
objetivas de reformar. O governo anterior quis, com sinceridade,
fazer a reforma da Previdência. Mas não conseguiu.
Nós faremos.
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