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Lula
lá na tela
do cinema
"Uma
biografia de Lula serviu
de base para o roteiro de um filme.
Não sei quais episódios ele irá mostrar.
Eu incluiria até os mais recentes, como
o de Lula correndo atrás de um pato na
Granja do Torto. O deputado
Sigmaringa
poderia ser interpretado pelo próprio
deputado Sigmaringa"
Estátua,
que eu saiba, até agora só ergueram uma para Lula, a do
desfile da escola de samba Beija-Flor, no último Carnaval. Em compensação,
sua imagem aparecerá em todas as telas de cinema do Brasil. Estão
sendo feitos cinco filmes em sua homenagem. O primeiro é dirigido
por um de seus maiores cabos eleitorais no meio cinematográfico,
Nelson Pereira dos Santos, orador daquele comício que reuniu mais
de 2.000 artistas no Canecão. Difícil imaginar que um tiete
como Nelson Pereira dos Santos tenha o desprendimento necessário
para retratar o presidente com isenção. Isenção,
aliás, é o que ninguém quer. O cinema, no Brasil,
está nas mãos do Estado. Os produtores do filme de Nelson
Pereira dos Santos são os mesmos que, no passado, para financiar
outro projeto, embolsaram tutu do BNDES. Os autores dos demais filmes
sobre Lula, João Moreira Salles, Eduardo Coutinho e Eryk Rocha,
também têm se beneficiado de dinheiro público, através
das leis de patrocínio. De maneira direta ou indireta, portanto,
o culto à personalidade do chefe do governo será bancado
pelo próprio governo.
O quinto filme sobre o presidente é ainda mais enrolado. O roteiro
é de Denise Paraná. Ela trabalhou como assessora de imprensa
de Lula e escreveu a mais completa biografia dele, O Filho do Brasil,
que serviu de base para o roteiro. Em janeiro deste ano, para comemorar
a vitória eleitoral, a Fundação Perseu Abramo relançou
o livro, numa edição ampliada. Como a Fundação
Perseu Abramo é mantida pelo Estado, quem pagou a conta da encomiástica
biografia presidencial foi o contribuinte. Estou curioso para saber se
o filme também será financiado com dinheiro público.
O
Filho do Brasil é definido por sua autora como "psico-história".
É composto por uma série de entrevistas com Lula e seus
parentes, entre os quais os irmãos Genival, Frei Chico, Marinete
e o cunhado Lambari. Lula conta que, na infância, chegou a passar
fome. Não fome de verdade, de não ter o que comer, mas de
não poder comprar chiclete e mortadela quando bem entendesse. Lula
acha que a miséria não é de todo má. O miserável
sertanejo, segundo ele, "anda de cabeça erguida, otimista", enquanto
"a classe média urbana é muito borocoxô, está
sempre reclamando". Esperemos que seu governo arrume um jeito de levar
rapidamente a classe média urbana à miséria. Não
sei quais episódios da vida de Lula o filme irá mostrar.
Eu incluiria até os mais recentes, como o de Lula correndo atrás
de um pato na Granja do Torto. O deputado Sigmaringa poderia ser interpretado
pelo próprio deputado Sigmaringa.
Das biografias de Lula, minha predileta é a de seu mentor intelectual,
Frei Betto. Se me nomeassem diretor da Eletrobrás, eu daria a ele
a função de escrever um roteiro sobre o presidente. Frei
Betto também é autor de uma autobiografia, Batismo de
Sangue, que o ex-guerrilheiro Helvécio Ratton pretende transformar
em filme. Como a única guerrilha que resta no Brasil é para
abocanhar verbas públicas, Helvécio Ratton parte com uma
certa vantagem. Por acaso ainda não apareceu ninguém propondo
uma cinebiografia de, digamos, Gilberto de Carvalho, o secretário
particular de Lula? Daria um filmão.
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